Pré-visualização gratuita 1. A Despedida
"Ser ignorada pelo próprio pai nunca foi fácil.
Ainda mais quando ele era um CEO poderoso — e você, apenas mais uma peça dispensável no tabuleiro.
Cassandra estava cansada de ser invisível.
E faria o que fosse necessário para mudar isso… até mesmo se infiltrar na empresa rival."
O sol do lado de fora daquelas janelas enormes brilhava sem piedade.
As pessoas andavam de um lado para o outro em busca dos seus destinos, decididas. Algumas alegres demais, outras irritadas e aquelas com certa urgência em todos os seus movimentos. Nenhuma delas percebia a apreensão e nervosismo que Cassandra estava travando em sua mente e corpo naquele exato momento.
Bom, para falar a verdade, ninguém nunca prestava atenção nela desde... sempre — até onde a sua memória conseguia lembrar. Algo que ela tinha parado de levar para o coração havia muito tempo, sabendo que nada mudaria nem tão cedo.
No entanto, esse fato iria mudar em breve. Seu plano... era tudo o que tinha naquele momento. Sua última esperança.
— Cassandra!
A morena se virou para onde o som do seu nome vinha, encontrando a sua irmã mais nova acenando de longe para ela. Cassandra reprimiu um xingamento. Não era para você estar aqui dentro, gritava em sua mente.
— Cati, o que está fazendo aqui? — perguntou, assim que a mais nova chegou mais perto. — Achei que já estariam em casa a essa hora.
Catarina Montenegro sorriu travessamente, erguendo os braços para abraçar a irmã. Ela era a caçula da família Montenegro e se ela estava aqui...
— Não conseguimos nos despedir direito. — Outra voz e Cassandra sabia exatamente de quem era.
— Vocês vão querer me ver entrando no avião também? — disse sarcasticamente, revirando os olhos em sincronia com as irmãs. O medo escondido naquela pergunta.
Camila e Catarina sabiam muito bem do humor suspeito da irmã e isso não as surpreendia nem um pouco. Na verdade, se parassem para pensar por um segundo, admitiriam que sentiriam a falta dela nesse primeiro semestre em que passaria fora estudando em outro país. Apesar do clima que era em casa, não negariam que ela faria toda a diferença em não estar lá.
— Só viemos te entregar isso — disse Camila, entregando um moleskine enorme, que mais parecia uma pasta com tantas coisas dentro. — Você tinha esquecido no carro.
Cassandra olhou fixamente para o caderno ainda nas mãos da irmã mais velha e, segurando as lágrimas que repentinamente ardiam em seus olhos. Ali tinha o último dos desenhos que a mãe delas tinha feito antes de morrer, há quatorze anos. Ela levantou o rosto e viu que Camila tinha a mesma dor estampada no rosto.
Ainda era difícil pensar na mãe sem que uma ferida enorme e não cicatrizada fosse aberta no processo, para nenhuma delas. Camila, por ser a mais velha, tinha muitas memórias ainda vívidas de quando ela era viva. Cassandra, a filha do meio, não conseguia se lembrar de muitas coisas ou detalhes. E Catarina, a mais nova, não tinha nenhuma lembrança concreta — apenas as histórias que ouvia.
— Pode ficar. — Cassandra segurou a mão dela, dando um leve aperto de conforto. — Não é como se eu tivesse indo embora para sempre, são só alguns meses.
A mais nova olhava as duas com muito amor nos olhos — pois, ainda que ela não se lembrasse da mãe como elas, sabia que foi muito amada e que as irmãs cuidariam dela como a própria e vice-versa.
— É bom mesmo, querida irmã. — Catarina se intrometeu, tentando aliviar o clima pesado que se instalava. — Nada de encontrar o homem da sua vida em Montévia e nos esquecer ou pior: nos deixar.
As três riram do drama da mais nova, como se o que ela tivesse falado fosse algo que realmente poderia acontecer. Não que ela não encontrasse o amor de sua vida, mas que fosse possível ela deixar o Império Montenegro para trás. O que de fato já tinha acontecido quando ela fez intercâmbio na sua adolescência, apaixonando-se perdidamente por um colega de classe e seu pai quase a matara por ter ideias de abandonar sua família.
— Isso seria maravilhoso — disse Camila, guardando o moleskine da mãe na bolsa que carregava no ombro esquerdo. — E se ele tiver um irmão ou primo, reserve para mim!
Cassandra não conseguiu segurar a risada que subiu imediatamente por sua garganta, rindo tanto que um barulho de porquinho saía junto — uma mania que tinha desde criança e fora repreendida por mais vezes do que gostava de contar.
— Ei! — Catarina logo se rendeu e gargalhava junto com a irmã, segurando em seu braço, puxando-a para um abraço. — Ele provavelmente tem uma irmã ou prima para mim também, né?
Camila até tentou segurar as lágrimas, mas foi impossível ao se juntar ao abraço das irmãs. Agora elas riam e choravam ao mesmo tempo, os rostos juntos como sempre fizeram desde que eram crianças. Uma sempre protegendo a outra, não importasse a situação.
E, nesse momento, Cassandra quase contou o que estava prestes a fazer. Por mais que Mila desse um sermão de três horas sobre como tudo aquilo era loucura e muito arriscado ou como Cati iria querer se juntar ao que precisava fazer, não importando o que ou o quão perigoso fosse. Depois do sermão, a mais velha iria querer participar também, planejando os mínimos detalhes para que nada desse errado.
Porém, ela não podia e não queria que elas tivessem qualquer tipo de problema ou preocupação com algo que só ela poderia fazer. Seu pai nunca a perdoaria se as levasse junto para o fundo do poço caso aquilo tudo explodisse bem na sua cara. E aquele plano era exatamente o que deixaria Caetano Montenegro feliz com sua filha do meio. Era sua única e última chance.
A ideia de estar em outro país cursando o que seria seu terceiro diploma, longe de tudo e todos era o que dava certa segurança de que conseguiria se infiltrar sem que tivesse muitos problemas. Ser invisível era um dom que tinha conquistado sem que quisesse de fato ser invisível, porém, agora era a hora perfeita para se gabar de tal talento.
— Prometo ligar e mandar mensagens a todo segundo — assegurou, apertando-as ainda mais antes de soltá-las, sorrindo em meio às lágrimas.
— São quantas horas de diferença mesmo? — Cati perguntou, tirando um lenço da calça jeans que usava para enxugar os olhos. — Promete trazer aquele docinho que amo?
Balançando a cabeça em confirmação de que traria o doce preferido da irmã mais nova, virou o rosto para a mais velha, questionando-a com o olhar o que ela iria querer quando voltasse daqui seis meses.
— São apenas quatro horas na nossa frente — respondeu Camila, passando um braço pelos ombros dela e respondendo sua pergunta. — Só quero que volte logo e formada, de preferência.
— Um curso de dois anos e meio em apenas um semestre? Pois estou indo com você, Cassie!
Camila empurrou o quadril dela com o próprio, rindo do desespero da mais nova. Não era novidade para ninguém que Catarina Montenegro odiava estudar e o curso de Administração — que as outras duas também foram obrigadas a fazer — não era bem o que ela queria, ainda mais se forçada.
— Nós já fizemos a nossa parte, agora só falta você. — Cassandra afagou o rosto da irmã mais nova, sorrindo com certo pesar.
— Ela só está sendo dramática. Não é um curso tão r**m assim.
— Você fala isso porque ama estar com o nariz enfiado nos livros, Mila. Ninguém gosta de quem sabe de tudo.
Cassie parou para observar as duas brigando, sorrindo abertamente. É, definitivamente sentiria falta delas — pensou, com o coração apertado ao lembrar que estaria tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe.
Sem aviso nenhum, ela jogou os braços ao redor das irmãs para um último abraço, cortando ao meio a minidiscussão em que estavam — elas a abraçaram de volta com a mesma intensidade.
— Prezados passageiros...
As irmãs Montenegro se entreolharam uma última vez, sorrindo com a mesma ideia que surgiu em cada uma: imitar a voz da moça do alto-falante. Era algo que faziam quando crianças sempre que viajavam com o pai — e ele as reprovava todas as vezes.
— Essa é minha deixa — disse Cassandra, pegando a sua mala enorme com uma mão e ajustando a mochila nas costas com a outra. Ela queria evitar outro abraço ou não pararia de chorar nunca mais. — Devo chegar em doze horas, aviso assim que pousar.
Camila e Catarina limitaram-se a acenar com as mãos as despedidas — não queriam que ela perdesse o vôo.
— Vejo vocês em seis meses!
Virou-se, decidida, e seguiu para a ala de embarque internacional do Aeroporto Internacional Dom Álvaro Montenegro.
Não para outro país.
E sim para o território inimigo.