25° Capítulo.

1959 Palavras
Bryan Thompson: O final da tarde chegou com ventos mais fortes e o céu pesado, como se a floresta prendesse a respiração. Bryan revisava os fios da armadilha principal no interior do chalé, enquanto Falcão testava os sinais das câmeras térmicas. Tudo parecia funcionar perfeitamente. Mas foi Debby quem primeiro percebeu algo errado. Ela havia ido até a estufa improvisada nos fundos do chalé para colher algumas ervas calmantes que Falcão recomendara. O caminho era curto, seguro — ou ao menos deveria ser. Ao abrir a porta de tela da estufa, ela parou subitamente. Ali, bem no centro da bancada de madeira onde ficavam os vasos, havia um buquê de lírios brancos. Frescos. Recém-cortados. Debby ficou estática por alguns segundos, o coração acelerando. — Bryan! — gritou. Ele veio correndo, arma em punho, seguido por Falcão. Quando viram o buquê, os dois congelaram. — Isso... estava aqui quando você saiu? — perguntou Bryan. — Não — respondeu ela, engolindo em seco. — Eu mesma estive aqui ontem. Não havia nada. Falcão se aproximou com cuidado, usando uma pinça de metal da mochila para mexer nos caules. Havia um bilhete entre os lírios, escrito à mão. Bryan leu em silêncio. A letra era elegante, com tinta preta forte: “Nem toda dor começa com sangue. Às vezes, ela floresce.” Assinado com um simples: — P. Falcão jogou um olhar tenso para Bryan. — Ele entrou no perímetro... e ninguém percebeu. Bryan rangeu os dentes. — Ele não está testando a segurança. Está testando a gente. Medindo nosso tempo de resposta. Mas Debby sabia a verdade: aquele bilhete não era só uma provocação. Era uma lembrança c***l. Lírios brancos eram as flores que Pitbull levava para ela nos dias em que pedia desculpas. Quando queria manipulá-la com um toque de falsa ternura depois de alguma explosão de violência. Ela sentiu um calafrio. — Ele está dizendo que ainda me conhece — sussurrou. Bryan a segurou pelos ombros. — Não, ele está dizendo que acha que ainda te controla. Mas ele não te conhece mais, Debby. Agora ele vai ver no que você se tornou. Mas por dentro, ele sabia: a guerra já havia começado. E Pitbull não vinha com armas na mão. Ele vinha com memórias. E isso... era ainda mais perigoso. Debby passou o resto do dia em silêncio. Não de medo, mas de concentração. Observava. Absorvia. Lembrava. O buquê já havia sido removido, o bilhete queimado por Bryan na lareira com raiva contida, mas a mensagem de Pitbull ecoava dentro dela como uma nota dissonante no meio da calmaria forçada. Ela não disse nada até a noite cair, quando Bryan sugeriu que ela descansasse um pouco no quarto. Em vez disso, Debby olhou firme para ele e para Falcão. — Quero ajudar. Bryan se aproximou. — Você já ajuda só por estar aqui, viva. Isso é guerra, Debby. E você está com sete meses de gravidez... — Justamente por isso. — Ela tocou o próprio ventre com uma mão. — Eu não vou permitir que esse filho da mãe roube de mim o direito de proteger minha família. Eu conheço o Pitbull. Melhor que vocês dois juntos. Se ele está tentando mexer com a minha cabeça, eu vou devolver na mesma moeda. Falcão levantou as sobrancelhas, surpreso. — Ela é braba. Gosto disso. Bryan hesitou por um segundo, mas conhecia aquele olhar nos olhos dela. Era o mesmo que ele via em si mesmo quando ficava frente a frente com o perigo: a decisão já estava tomada. — O que você tem em mente? — perguntou. — Quero que me mostrem o sistema de vigilância — disse ela. — Se ele se aproxima, eu quero ser a primeira a vê-lo. E mais: quero te dizer quais lugares ele provavelmente vai usar pra atacar. Os caminhos, os atalhos... e os truques. Debby passou a próxima hora sentada entre os dois, com mapas abertos, fotos antigas de propriedades semelhantes e os monitores do sistema de segurança. Ela apontou trilhas que ninguém havia marcado, rotas alternativas que Pitbull conhecia de memórias de quando ambos passavam fins de semana em casas parecidas com aquela, anos atrás. — Ele não vai entrar pela trilha principal. Vai usar o lado sul, onde o solo é fofo e não deixa rastros. Vai vir depois da meia-noite, quando ele sabe que estou mais vulnerável. E se estiver ferido... vai usar a compaixão como arma. — Vai se fazer de fraco? — perguntou Falcão. — Exatamente — disse ela. — Vai tentar criar um momento de dúvida. Ele vive disso. É nisso que ele é bom. Me fazer hesitar. Bryan tocou de leve a mão dela. — Você não vai hesitar. Ela olhou para ele, com os olhos firmes. — Não mais. Naquela noite, Falcão ajustou o sistema de alertas conforme as indicações de Debby. Bryan posicionou novas câmeras e redesenhou as rotas de fuga. Mas no coração daquela casa agora havia uma força nova, nascida não da arma ou da tática — mas da memória transformada em escudo. Debby não era mais apenas a mulher sendo protegida. Ela era a peça que Pitbull não esperava. E agora... o jogo estava prestes a virar. O chalé está silencioso, mas Pitbull sente o ar carregado de tensão. Do canto escuro da sala, ele observa Debby, agora ativa e vigilante, debatendo-se para manter a calma. Bryan e Falcão trocam olhares decididos ao lado dela. Os punhos de Bryan estão cerrados; Falcão esboça um movimento com as mãos, preparando-se para o iminente confronto. Ele nota que Debby ergueu o queixo, o rosto firme, decidida a não demonstrar mais medo. A jovem estava diferente: passou de assustada a combativa em poucas horas. Bryan, por sua vez, permanece tenso, respirando de forma lenta e arrastada, concentrado em um plano silencioso de resistência. Pitbull então percebe que o jogo mudou. A cautela deles cresceu, e ele não podia mais atacá-los de surpresa como antes. Pitbull permanece imóvel e analisa. Cada mínimo gesto do trio agora é uma pista: um suspiro, o baixar de ombros, o estreitar de olhos. Ele respira pausadamente, calculando o próximo movimento. Um confronto físico naquele exato momento poderia custar caro se aqueles três conseguissem unir forças — e eles claramente tentavam. Por isso decide jogar outro jogo: antes de empregar a força bruta, opta por um golpe mental. Manipular ou desestabilizar emocionalmente Debby e Bryan seria um teste de força das mentes antes de qualquer batalha de corpos. Silencioso, ele se levanta devagar do canto sombrio onde estava. O ranger sutil do piso de madeira denuncia seu movimento, mas a atenção de Debby e Bryan continua focada um no outro. Pitbull caminha lentamente em sua direção, cada passo abafado pelo piso frio. O coração dele bate de forma regular; na superfície, não há uma gota de nervosismo, somente controle calculado. Quando está a poucos metros do casal, ele para e fixa nos dois um olhar gélido. — Ainda acordados? — Pitbull pergunta em voz baixa, um sorriso afiado nos lábios. — Achei que uma ótima noite de sono seria adequada para pessoas tão cansadas quanto vocês. Debby, você parece esperta o bastante para me assustar hoje — provoca Pitbull, com malícia. — Bryan, você vai agarrar essa coragem da minha mão ou deixar que ela escapar na hora que mais precisar? O silêncio que segue é mortal. Debby pisca, ligeiramente sem reação. Bryan se retorce, surpreendido pela pergunta desconcertante. Falcão vira o rosto, a respiração acelerada. Ninguém responde; cada um digere as palavras do homem a poucos passos. Pitbull circula devagar ao redor deles, estudando suas expressões sob a luz fraca. O sorriso sinistro permanece em seu rosto enquanto percebe a incerteza crescendo no olhar de Debby. Ele sabe que as palavras surtiram efeito. Ainda sem quebrar o silêncio, mantém o olhar firme em Bryan e Debby, esperando o próximo sinal de fraqueza. Pitbull permanecia escondido entre as árvores que circundavam o chalé, observando cada movimento através da rede de vigilância que conseguira infiltrar. Ele percebeu que Bryan, Debby e Falcão estavam mais organizados e alertas, mas aquilo só aguçava seu instinto predatório. Com uma frieza letal, redefiniu os fluxos dos monitores internos — no controle remoto de seu m*l, transformou as câmeras em sua arma psicológica. Um sorriso gelado formou-se em seu rosto enquanto ele acionava o esquema: em pouco tempo, Debby seria forçada a encarar seus piores pesadelos. Do alto da colina, Pitbull saboreava o prazer sádico de ver suas vítimas inquietas, como se fossem meras marionetes em sua encenação sombria. Enquanto isso, no interior do chalé, Bryan e Debby vasculhavam velhos mapas e anotações à luz trêmula de um lampião a gás. Falcão, alerta, fazia a guarda perto da porta, o rifle apoiado ao lado — ninguém ousava relaxar enquanto Pitbull rondava as redondezas. De súbito, um estalo elétrico cortou a tranquilidade da noite: todas as telas de segurança ligadas às câmeras externas ganharam vida ao mesmo tempo. As imagens nítidas do bosque noturno desapareceram, dando lugar a uma colagem inquietante de cenas distorcidas. Rostos embaçados e figuras perturbadoras — pedaços fragmentados do passado sombrio de Debby — surgiam nas telas, como sombras reais invadindo o refúgio deles. Debby congelou ao olhar para a tela, os olhos arregalados fixos naquela exposição c***l de sua vida. Cada vulto e figura distorcida trouxe de volta memórias que ela lutava tanto para enterrar: o rosto atormentado de uma noite sem fim, gritos sufocados na escuridão, a imagem horrorosa que quase destruíra sua sanidade. Um grito de pavor escapou de seus lábios, a voz retorcida pela dor e pelo desespero. Ela cobriu o rosto com as mãos, o corpo encolhendo instintivamente na cadeira, como se tentasse se proteger de um atacante invisível. A respiração tornou-se ofegante, e Debby m*l conseguia distinguir o que era real e o que havia sido criado pela mente perversa de Pitbull. Bryan saltou da cadeira no segundo seguinte, atropelando sua própria preocupação para tentar ajudar Debby. — Debby! Abra os olhos, isso não é real! — ele berrou, percorrendo o chalé em passos largos para desligar os aparelhos. Suas mãos trêmulas encontraram o painel elétrico, mas a gambiarra de Pitbull dificultava a tarefa: cabos haviam sido cortados e reconectados de forma sádica. Ele agarrou Debby pelos ombros, tentando arrancá-la daquele tormento com um abraço protetor. — Eles estão mentindo para você! — murmurou entre dentes, embora a angústia nos olhos dele fosse tão grande quanto a dela. A certa distância, Pitbull ouviu o grito de Debby até onde o vento carregara o som e esboçou um sorriso ainda mais amplo, ignorando o frio cortante da madrugada. Longe dali, seguro em seu esconderijo tecnológico, ele se deleitava com a confusão que criara — o medo dela espalhado no ar era seu troféu. As árvores sussurravam ao redor, cúmplices silenciosas de sua crueldade, enquanto ele apertava o botão para encerrar a transmissão diabólica. Um prazer frio percorreu seu organismo, galvanizando-o para o próximo movimento daquela caçada sem fim. O desafio estava lançado: eles sabiam que ele estava ali fora, e agora, pior do que qualquer caçada, começava uma tortura invisível contra a mente deles. Os monitores, agora sem sinal, mergulhavam a sala em escuridão silenciosa. Bryan segurava Debby firmemente, sentindo seu corpo estremecer contra o próprio, enquanto tentava acalmá-la com murmúrios suaves. Cada respiração ofegante dela era um lembrete c***l de que o ataque já havia funcionado, plantando sementes de dúvida e medo em suas mentes. Lá fora, as árvores devolviam apenas o silêncio, sem o brilho traiçoeiro das telas; mas dentro do chalé, a sombra do terror de Pitbull persistia. Eles sabiam que aquela noite seria longa: cada instante era um lembrete de que, mesmo sem mostrar o rosto, o inimigo continuava rondando em silêncio. Continua.......
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