Bryan Thompson:
A manhã seguia lenta, envolta num silêncio incômodo. O nevoeiro aos poucos se dissipava, mas dentro do chalé o clima estava mais pesado do que nunca.
Debby estava na cozinha quando sentiu a primeira pontada. Não era apenas o desconforto normal de um sétimo mês de gravidez — era diferente. Profunda. Como uma pressão interna que não vinha só do corpo, mas da alma.
Ela apoiou uma das mãos na parede, fechando os olhos por um instante. Sentia-se tonta. O chão parecia distante.
Bryan apareceu na porta poucos segundos depois, chamando seu nome com um tom urgente e assim que a viu, já foi perguntando se estava tudo bem.
Ela tentou disfarçar.
— Tô bem... só um pouco zonza.
Mas ele viu o suor na testa dela, o jeito como pressionava o quadril com a outra mão.
— Debby... isso não é só cansaço.
Ela hesitou.
— Tá mais difícil respirar. E a bebê... ela tá se mexendo muito. Como se também estivesse agitado.
Bryan a ajudou a se sentar, puxando a cadeira para perto da lareira.
— Isso começou agora?
— De leve, ontem à noite. Mas hoje piorou.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Uma guerra interna se formava nos olhos dele: o policial estrategista tentando manter o controle... e o homem, o marido, prestes a desmoronar.
— Não podemos ficar aqui se isso piorar.
— E ir pra onde? Ele está lá fora. Esperando.
— E você está aqui dentro, vulnerável. Isso muda tudo. Eu preciso pensar em um plano B — disse ele, já com os olhos percorrendo a planta da casa na mente, como se traçasse um novo mapa sobre as brasas da lareira.
Ela o segurou pelo pulso.
— Não se culpe por isso. Eu vim sabendo do risco. E ainda assim escolhi estar com você.
Ele se abaixou, tocando a barriga dela com as duas mãos, o olhar firme no dela.
— Só que agora não é mais só você. E nem só eu. É ela também. Nossa filha. E eu não vou deixá-la nascer num campo de batalha.
Bryan se levantou e pegou um rádio. Chamou um de seus contatos de confiança que veio do para Boston, a pedido do chefe, caso Bryan precisasse de ajuda — ele é um paramédico aposentado que devia favores antigos.
— Nome de código: Falcão. Temos uma emergência em potencial. Ela precisa ser monitorada. Quero você aqui até o fim do dia, com equipamento. Discrição total. Tá entendido?
Do outro lado da linha, uma confirmação firme.
Ele desligou e olhou para Debby.
— Se ele vier... e a coisa apertar... a prioridade é você e nossa filha. Eu fico, e vocês fogem.
Debby tentou protestar, mas ele já havia virado de costas, em movimento. O chalé, antes pensado como campo de batalha, agora precisava virar também um abrigo — um hospital improvisado.
E enquanto a tarde chegava, nublada e pesada, o tempo corria.
E Pitbull... observava.
O som de um motor baixo ecoou pela trilha de terra perto das 16h. Bryan já esperava, encostado na lateral do chalé com o olhar firme e uma mão sobre o coldre. Ele sabia que só dois homens dirigiriam naquela estrada naquele horário — um era Pitbull. O outro era Falcão.
O carro parou a cerca de vinte metros da entrada, sem faróis. Um SUV escuro, discretamente modificado. Do banco do motorista, desceu um homem alto, com os cabelos grisalhos presos num coque baixo e uma jaqueta surrada de couro. Ele carregava duas mochilas grandes e um olhar que dizia mais do que qualquer conversa formal.
— Mendes— disse o homem, aproximando-se com passos lentos. — Ou melhor, Thompson?
— Hoje, sou só o marido dela — respondeu Bryan, oferecendo um aperto de mão firme. — Obrigado por vir.
— O chefe me enviou para ajudar, caso vocês precisassem de ajuda, mas você me deve três favores depois dessa, irmão — respondeu Falcão com um sorriso curto, mas sincero. — Onde está a paciente?
Dentro do chalé, Debby estava sentada com um cobertor sobre as pernas e um leve tremor nos ombros. Ela sorriu ao ver o estranho entrar, mesmo sem saber quem ele era.
— Você deve ser o anjo da guarda — disse ela.
— Prefiro “demônio da sorte”, mas podemos negociar — respondeu Falcão, já abrindo a maleta de equipamentos. — Vamos dar uma olhada.
Em poucos minutos, ele verificava batimentos, pressão, temperatura. Mediu os movimentos do bebê e aplicou um leve sedativo para aliviar a ansiedade crescente.
— Ela está estável por agora — disse a Bryan depois, num canto da sala. — Mas o estresse pode acelerar o trabalho de parto. E aqui... não é o lugar ideal pra isso.
— Ela aguenta até o fim de semana?
— Talvez. Mas você vai ter que manter a cabeça fria. Se ela entrar em trabalho de parto precoce, e estivermos cercados... vai ser feio.
Bryan assentiu.
— Eu já reconfigurei as rotas de fuga. Se eu tiver que tirá-la daqui, você vai junto.
— Claro. Mas enquanto isso, eu fico. Cuido dela. Você cuida do perímetro.
Naquela noite, pela primeira vez em dias, Bryan não dormiu sozinho de olhos abertos. Agora ele tinha alguém com quem dividir o peso. Mas a tranquilidade era frágil.
Lá fora, escondido entre a névoa e a floresta, Pitbull vigiava a chegada do novo carro.
Ele viu tudo.
E já começava a calcular como transformar esse reforço em vulnerabilidade.
Toda fortaleza tem uma fraqueza.
E ele estava prestes a encontrar a deles.
A noite caiu silenciosa, como se até a floresta soubesse que precisava respeitar aquele instante. Debby dormia no quarto de cima, finalmente em paz, o sono leve induzido pelo sedativo. Falcão havia deixado um monitor cardíaco portátil ligado, o sinal piscando num ritmo tranquilizador.
Bryan e ele estavam na varanda, sentados em cadeiras de madeira envelhecidas, cada um com uma caneca de café forte nas mãos e a arma a poucos centímetros de distância. O som das corujas ecoava distante. Nenhum dos dois falava por alguns minutos. Era o tipo de silêncio que só dois homens marcados por batalhas podiam dividir sem constrangimento.
— Faz quanto tempo desde a missão na Colômbia? — perguntou Falcão, quebrando o silêncio.
— 3 anos. Mas às vezes ainda sonho com aquele maldito galpão em Barranquilla.
Falcão riu, seco.
— Achei que você ia morrer naquele tiroteio. Você sangrava como se fosse um tanque perfurado.
— E você costurando meu ombro com linha de pesca — Bryan respondeu com um meio sorriso. — Eu devia ter morrido ali mesmo.
— Mas não morreu. E olha você agora: com uma esposa grávida e um traficante psicopata no seu encalço. Vida mansa, hein?
O sorriso sumiu. Bryan olhou para o escuro entre as árvores, onde imaginava que Pitbull podia estar observando.
— Eu o subestimei. Achei que ele ia desaparecer quando perdeu tudo. Mas ele era movido por mais que dinheiro. Era orgulho. E humilhação... a gente sabe o que isso faz com certos homens.
Falcão bebeu mais um gole.
— Acha que ele já escolheu o momento?
— Acho que ele está esperando a gente cometer um erro. E sabe que o ponto fraco agora é a Debby.
— E se ela não puder ser evacuada a tempo?
— A gente segura até o último homem. Nem que eu tenha que pôr essa casa abaixo com ele dentro — disse Bryan, os olhos queimando com determinação.
Falcão assentiu devagar.
— Então precisamos de um plano de emboscada. Não só defesa. Algo que vire o jogo.
Bryan puxou um mapa improvisado que mantinha dobrado dentro da jaqueta. Era a planta da propriedade e das trilhas ao redor. Ele o abriu na mesa da varanda e apontou:
— Aqui, essa trilha entre as árvores... tem uma elevação natural. Se colocarmos sensores ali e deixarmos uma isca...
— Ele vai morder — completou Falcão. — Mas só se acreditar que está no controle.
— E aí a gente vira a caça.
Ficaram em silêncio por mais um momento, os olhos sobre o mapa, os fantasmas do passado pairando entre eles. Mas agora havia algo diferente: uma aliança renovada. Não entre dois soldados perdidos, mas entre dois homens que sabiam exatamente o que estavam protegendo.
Naquela noite, pela primeira vez, Bryan sentiu que tinha uma chance.
Frágil. Arriscada.
Mas uma chance.
O dia amanheceu cinzento, com o céu encoberto e o cheiro de chuva no ar. Para Bryan e Falcão, era o cenário ideal — menos visibilidade, mais silêncio, mais cobertura. A natureza parecia colaborar com o plano.
Às seis da manhã, os dois já estavam de botas na lama, caminhando pela trilha que Bryan havia marcado no mapa na noite anterior. Falcão carregava uma bolsa militar com sensores de movimento, fios camuflados e duas câmeras térmicas portáteis. Bryan, mais à frente, empunhava uma espingarda curta, vigiando cada canto da mata.
Chegaram ao ponto estratégico: um pequeno aclive natural entre duas rochas cobertas de musgo. Dali, era possível ver toda a parte de trás do chalé — mas não era visível de lugar algum do terreno.
— Esse é o nosso ninho — disse Bryan, agachado. — Ele vai tentar usar essa trilha. Tem árvores altas demais para o drone capturar.
— E vai pensar que está passando despercebido — respondeu Falcão, já fixando o primeiro sensor na base de uma árvore. — Vamos fazer ele acreditar que está vencendo.
Montaram as câmeras térmicas em pontos ocultos, com alimentação por bateria que duraria três dias. Os fios passavam por baixo da terra, conectados a um receptor dentro do chalé. Qualquer calor acima de 36°C naquela área dispararia um alerta silencioso.
Falcão então posicionou a parte mais delicada: uma armadilha falsa — um tripwire com alarme sonoro, discreto, programado para soar caso alguém passasse de forma descuidada. Era isca.
— Ele vai ver isso — disse Falcão.
— Exatamente. Vai achar que essa é a armadilha principal. E vai tentar desviar pela esquerda.
— E aí cai na real — concluiu Bryan, sorrindo.
Do outro lado da trilha, oculto no mato, eles enterraram um microexplosivo de luz e som — não letal, mas desorientador. Junto dele, um sinalizador de fumaça para dar o efeito de caos. Tudo coordenado para parecer que a armadilha real tinha falhado... quando, na verdade, era só o começo.
— Se ele entrar em pânico e correr de volta pra mata, temos você no alto da cabana com mira de longo alcance — disse Falcão.
— E se ele tentar entrar durante a confusão, eu estarei esperando por ele na porta.
Ao voltarem para o chalé, Debby os esperava na varanda. Estava pálida, mas de pé, determinada.
— Estão mesmo armando pra ele?
— Não. A gente está armando pra acabar com ele, de uma vez por todas — respondeu Bryan.
Falcão, ao lado, fez um sinal com os dedos, imitando uma tesoura cortando algo invisível no ar.
— Hoje a gente muda o jogo, Debby. E amanhã... talvez vocês possam começar a viver.
Mas ninguém ali disse em voz alta o que todos sabiam: se Pitbull descobrisse a armadilha...
ele faria de tudo para vir por onde menos se espera.
Continua.......