23° Capítulo.

1082 Palavras
Bryan Thompson: A noite caiu espessa sobre os pinheiros ao redor do chalé. A chuva havia cessado, mas o silêncio que ficou parecia ainda mais pesado. Era como se a floresta segurasse a respiração. Bryan fez sua última ronda às 2h da manhã. Verificou os sensores, os fios de sinalização nas árvores e o sistema de câmeras. Tudo intacto. Nenhum alarme, nenhum movimento suspeito. Ainda assim, havia algo no ar... algo que ele não conseguia nomear. Debby dormia no andar de cima, virada para o lado esquerdo, como o obstetra recomendara. Bryan a cobriu com cuidado e voltou para o térreo, onde mantinha o rádio de comunicação ligado em volume baixo, apenas o suficiente para captar interferências. Foi ali, no meio da noite, que ele ouviu. Um estalo. Seco. Nítido. Madeira? Galho quebrado? Não era o som do vento, disso ele tinha certeza. Levantou-se devagar. Pegou a pistola com silenciador e caminhou até a janela mais próxima. Com o dedo, afastou a cortina só o suficiente para ver o breu lá fora. Nada. Mas o instinto dizia que tinha algo... ou alguém... ali. Silêncio. Mais cinco segundos. Depois outro som, mais abafado, como passos sobre a grama molhada. Não era animal. Era pesado demais. Rítmico demais. Passos humanos. Bryan voltou até a estante e retirou uma caixa escondida. De dentro, pegou um pequeno monitor portátil conectado ao sistema de câmeras noturnas. Uma delas captava movimento próximo ao celeiro antigo, a 30 metros do chalé. Um vulto passava rapidamente pelo campo de visão, como uma sombra se esgueirando entre as árvores. Ele prendeu a respiração. Não era Moreno. Não era um curioso. Era ele. Bryan desligou todas as luzes da casa. Verificou novamente a arma. E ativou silenciosamente o “modo escuro” do chalé — tudo agora dependia da energia de backup e das lanternas táticas escondidas nos cantos. Subiu as escadas devagar e entrou no quarto. Debby despertou, ainda sonolenta. — Aconteceu alguma coisa? Ele sussurrou: — Não se mexe. Tem alguém lá fora. Ela arregalou os olhos, acordando completamente. — Ele? Bryan assentiu. — Pode ser. Mas ainda não quero confronto. Quero saber se ele está sozinho. Ela segurou sua mão. — Vai voltar? — Sempre. E então ele desceu novamente, como uma sombra entre sombras, pronto para dançar mais uma vez com o perigo que se aproximava da porta. Pitbull estava agachado entre dois pinheiros, o corpo imóvel, os olhos fixos na fachada apagada do chalé. O breu ao redor era quase total, exceto por pequenos reflexos na lente dos óculos de visão noturna que ele usava. Ele respirava devagar. Contando os segundos entre cada inspiração. O jogo não era entrar. Ainda não. Era estudar. Na mochila, carregava uma escuta de longo alcance, pequena e potente, capaz de captar vozes a mais de trinta metros, se não houvesse interferência. O plano naquela noite era simples: mapear. Observar. Ouvir. Não atacaria um lugar onde Bryan estivesse em vantagem. Seria burrice. E Pitbull não era burro — era paciente. Do ponto onde estava, conseguia ver a lateral da casa e parte dos fundos. Em uma árvore próxima, escalada com habilidade silenciosa, ele fixou a escuta apontando para uma janela entreaberta no segundo andar. Uma aposta. Voltou ao chão com leveza e ativou o aparelho. Por minutos, tudo o que ouviu foi silêncio... até que uma voz surgiu, abafada, mas clara: — “Não se mexe. Tem alguém lá fora.” Bryan. Pitbull sorriu. Ele já sabia. Claro que sabia. Isso o deixava ainda mais e******o. — Está jogando certo, Thompson — murmurou. — Mas será que aguenta até o fim? Deitou-se no chão úmido, com a arma ao lado do corpo e o gravador ligado. Estava coletando não apenas vozes, mas padrões — como Bryan reagia, quanto tempo levava para se mover, quantos passos até a escada, até a janela, até a porta. Tudo tinha valor. E enquanto Bryan vigiava o campo de visão limitado pelas câmeras, Pitbull circulava por trás da mata, testando as zonas mortas. Encontrando as rachaduras no escudo. Uma armadilha, ele sabia. Mas às vezes, as armadilhas se voltam contra os caçadores. Antes de partir, Pitbull plantou um presente. Uma pequena cruz de madeira, fincada no limite do terreno, quase imperceptível na escuridão. Na base da cruz, com um prego enferrujado, havia um bilhete. “Quando a escuridão chamar, não será você quem piscará primeiro.” E então, como se nunca tivesse estado ali, Pitbull desapareceu de volta na floresta, deixando para trás apenas pegadas suaves na lama e um silêncio que agora sussurrava promessas de sangue. O sol m*l começava a despontar entre as copas das árvores, e o nevoeiro rastejava preguiçoso pelo chão do bosque. Bryan estava de pé desde as primeiras luzes do dia, os olhos cansados, mas atentos. Não havia dormido. Não podia. Desceu os degraus da varanda com a arma presa à lateral do corpo e os sentidos aguçados. A noite tinha sido estranha demais. Silenciosa demais. Ele sabia — alguém tinha estado por perto. Andou devagar pelo perímetro, refazendo o caminho dos sensores, os fios de sinal, os rastros que ele mesmo havia camuflado. Um deles, ao sul da casa, estava ligeiramente inclinado. Quase imperceptível. Ele se ajoelhou. — Ele esteve aqui — sussurrou para si mesmo. Foi quando a viu. Uma pequena cruz de madeira, cravada no solo, a menos de três metros da linha do bosque. Feita de dois galhos rústicos amarrados com um fio vermelho — o mesmo tipo de corda que Bryan usara para marcar rotas de fuga. Ele tinha passado por aqui. Tinha tocado nas suas coisas. No centro da cruz, havia um pedaço de papel dobrado e preso com um prego enferrujado. Bryan arrancou o bilhete com cuidado, os olhos correndo pelas palavras em uma caligrafia familiar, firme, quase sarcástica: "Quando a escuridão chamar, não será você quem piscará primeiro." Bryan fechou a mão em torno do papel. Ele estava marcando território. Era uma declaração. — Desgraçado... — murmurou. Voltou para o chalé com os passos pesados. Debby o esperava na varanda, segurando a barriga com uma das mãos, os olhos preocupados. — Achou alguma coisa? Ele mostrou o bilhete. Ela leu em silêncio, o rosto empalidecendo. — Então ele já esteve aqui... — Sim. E saiu andando. Como se estivesse nos testando. — Isso significa que ele vai voltar? Bryan olhou para a cruz, agora jogada na lareira, queimando lentamente sob as chamas. — Não. Isso significa que ele nunca saiu de verdade. Continua.......
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