Bryan Thompson:
A estrada parecia interminável. A paisagem cinzenta dos campos de Massachusetts passava lenta pela janela enquanto Debby mexia no rádio, tentando encontrar uma estação decente. Nenhuma música conseguia competir com o ruído que se instalava no fundo da mente de Bryan — o som da dúvida, da caçada silenciosa.
Ele sabia que Pitbull estava por perto. Sentia isso como quem sente o cheiro da chuva antes dela cair. Mas o jogo agora não era de força. Era de paciência.
Na noite anterior, durante uma breve parada em uma área de descanso, Bryan deixara um drone lançado no alto das árvores próximas à rodovia. Não para vigiar a cabana — mas para observar quem vinha atrás deles.
E na tela do seu celular, já no motel, a imagem era clara: um carro preto, mesmo modelo, mesma placa de “Javier López”, havia passado exatamente quinze minutos depois deles. Não era coincidência.
— Ele está seguindo o roteiro — murmurou Bryan, mais para si do que para Debby.
— Você vai confrontá-lo? — ela perguntou, os olhos fixos na estrada.
— Ainda não. Ele está onde eu quero. Mas precisa acreditar que está no controle. Só então a armadilha se fecha.
Enquanto isso, no hotel em Boston, Pitbull observava os vídeos da microcâmera que instalara na cabana. A imagem mostrava claramente a saída do casal, as malas, a pressa fingida. Tudo muito perfeito.
Ele apertou os olhos, desconfiado.
— Muito fácil... — sussurrou. — Você quer que eu siga você, não quer?
Pitbull se levantou, foi até a janela e acendeu um cigarro. O gosto do tabaco era áspero, real. Ele não era e******o. Bryan era inteligente, tático, quase clínico. E isso significava apenas uma coisa: ele estava sendo conduzido. Como um touro no labirinto.
Mas Pitbull sorria.
Porque, mesmo assim, ele seguiria.
Porque, mesmo sabendo que era uma armadilha, o desejo de vingança era mais forte que o medo.
Naquela mesma noite, Moreno saía de um bar clandestino no sul de Boston quando recebeu uma mensagem:
"Ele partiu. Está indo atrás deles. Sozinho."
Moreno olhou ao redor, como se algo estivesse prestes a despencar do céu. Seu coração batia mais rápido do que gostaria de admitir.
Ligou para o contato do FBI que havia reencontrado dois dias antes.
— Escuta, preciso de um favor. Se você realmente tem interesse nesse cara... o Pitbull... ele vai cair. Mas tem um casal no meio disso que não pode ser pego no fogo cruzado. O nome dele é Bryan Thompson. E ele precisa de cobertura, mesmo que ele não saiba disso.
O agente do outro lado da linha não respondeu de imediato.
— Você tá mudando de lado, Moreno?
— Não. Só tô cansado de ver gente boa morrer pra proteger gente podre.
E então desligou.
Na estrada, o carro de Bryan parou num posto isolado. Ele pediu dois cafés, e enquanto esperava, digitou discretamente uma mensagem cifrada e a enviou para um número fantasma, ativo apenas em operações de alto sigilo:
"Inimigo em movimento. Jogo continua. A isca está funcionando. Estou guiando o predador para a toca."
Ele apagou a mensagem logo depois.
Olhou para Debby, que o esperava no carro, sorrindo de leve.
E naquele instante, Bryan soube: a parte mais difícil ainda estava por vir.
Porque o mais perigoso nos predadores não é o momento em que atacam.
É quando aprendem a esperar.
O chalé em Berkshires parecia um lugar comum — janelas empoeiradas, móveis rústicos, cheiro de madeira envelhecida. Mas aos olhos de Bryan, cada detalhe era uma oportunidade: uma linha de visão, uma barreira natural, um ponto de vantagem.
Chegaram ao local pouco antes do amanhecer. A estrada de terra serpenteava até o topo da colina, cercada por pinheiros altos e silêncio absoluto.
— Aqui? — perguntou Debby, olhando em volta.
— Aqui. Lugar alto, difícil de cercar, sem vizinhos por quilômetros. Se ele vier, vai estar exposto.
Ela assentiu. Não havia glamour ali, nada de romântico. Era um campo de guerra disfarçado de casa de férias.
Bryan passou o dia transformando o chalé. Na sala principal, instalou sensores de movimento. No andar de cima, posicionou uma câmera oculta com sinal conectado ao seu notebook.
No alpendre, prendeu uma segunda saída de emergência com cordas disfarçadas sob folhas secas — uma rota de fuga rápida se precisasse sair por trás.
Debby ajudava em silêncio. Cada gesto dela era firme, metódico. Ela havia deixado de ser apenas parte da equação: agora era parte do plano.
— Ainda acha que ele virá? — ela perguntou, enquanto colocavam lanternas em pontos estratégicos do terreno.
— Eu tenho certeza. Ele me odeia demais pra desistir agora.
Na cidade mais próxima, a alguns quilômetros dali, Pitbull havia alugado uma casa simples usando outro nome falso. Chegara horas antes e esperava. Estava calmo. Frio. Analisando os registros de GPS de um rastreador que havia colocado no carro de Bryan, dias antes, ainda na cabana.
O ponto fixo no mapa piscava agora em um lugar chamado Berkshires.
— Isolado... esperto, policial. Muito esperto.
Ele desligou o laptop e guardou o celular em uma caixa metálica para evitar rastreamento. Na mala, organizava seu arsenal: uma Glock, um silenciador, uma pequena faca com cabo de marfim — a mesma que usou na sua primeira execução, anos atrás. Um troféu pessoal.
Na noite seguinte, Bryan testava os sensores com calma. Já havia delimitado os acessos com gravetos quebrados e fitas quase invisíveis entre as árvores — se alguém passasse, ele saberia. Usava uma velha rede de comunicação com codinomes e mensagens cifradas com agentes inativos do passado, ex-colegas que ainda o deviam favores.
Na mesa, havia um plano com três rotas de fuga, duas possíveis emboscadas e um aviso claro:
"Se o inimigo não vier armado, é uma armadilha. Se vier sorrindo, é morte certa."
Debby lia o papel por cima do ombro dele.
— E se ele vier pelas sombras?
— Então a gente vira a luz na cara dele.
Bryan não dormiu naquela noite. Ficou sentado no sofá com a arma sobre o colo, ouvindo cada som lá fora, cada farfalhar no mato, cada suspiro do vento. Pitbull ainda não havia chegado.
Mas ele viria. Isso era inevitável.
A única dúvida era:
Quem sairia vivo daquilo?
A chuva fina começou a cair no fim da tarde, trazendo um frio leve que se infiltrava pelas frestas do chalé. Debby estava sentada no sofá, enrolada em uma manta grossa, com uma xícara de chá de camomila entre as mãos. Seus olhos estavam baixos, mas atentos ao leve movimento em sua barriga.
Bryan se aproximou em silêncio, carregando um cobertor extra e dois pedaços de chocolate amargo — o único luxo que ela ainda permitia a si mesma nesses dias.
— Como você está? — perguntou, sentando-se ao lado dela, atento a qualquer expressão de dor.
— Um pouco inchada... e cansada. Sofia está mais agitada hoje.
Ela pegou a mão de Bryan e colocou sobre a barriga. Minutos depois, um leve movimento ali sob a pele fez ambos sorrirem.
— Ela sabe — disse Debby, com um olhar doce. — Sabe que algo grande está pra acontecer.
Bryan passou os dedos pelos cabelos dela com delicadeza.
— Talvez ela sinta que precisa estar pronta também. Como nós.
Ela suspirou, olhando para a lareira acesa.
— Às vezes me pergunto... se não seria mais seguro simplesmente desaparecer. Trocar de país outra vez, de nome também, e viver em algum outro lugar onde ninguém saiba quem somos.
— Eu também penso nisso. Mas seria só adiar. Pitbull não vai parar. Ele não vai nos esquecer. Se a gente não terminar isso agora...ele vai nos encontrar daqui a um ano, ou quando nossa filha tiver cinco.
O silêncio se fez por um instante.
— Bryan... e se eu não conseguir correr? Se algo acontecer comigo?
Ele a olhou nos olhos, sério.
— Então você não corre. Eu corro com você. Eu juro, Debby, se esse lugar virar um inferno, eu te tiro daqui nem que seja carregando você nas costas. E ninguém — ninguém — vai tocar em você ou na nossa filha.
As palavras dele não eram apenas promessa. Eram concreto. Fortaleza.
Ela encostou a cabeça no ombro dele, os olhos marejados, e por um breve momento, o mundo lá fora deixou de importar.
Ali, naquele chalé preparado para guerra, havia um espaço de paz.
Breve. Silencioso. Mas real.
E naquele instante, no alto de uma colina a alguns quilômetros dali, Pitbull observava a paisagem com binóculos.
— Está perto — disse para si mesmo, com um sorriso lento.
— Muito perto.
Continua.....