21° Capítulo.

1422 Palavras
Bryan Thompson: Enquanto isso, do outro lado da cidade, no quarto m*l iluminado do hotel, Pitbull passava as últimas informações para Moreno. Fotografias borradas, rotas mapeadas, e horários prováveis em que Bryan e Debby apareciam em pontos turísticos de Cape Cod. Moreno tinha conseguido mais do que ele esperava — inclusive uma imagem recente do casal saindo de uma sorveteria à beira-mar. Pitbull olhou fixamente para a foto, como se pudesse atravessá-la com o olhar. — Eles parecem felizes — disse Moreno, com um tom quase irônico. Pitbull soltou uma risada seca, sem humor. — Essa felicidade vai acabar. Quero que mantenha distância. Ainda não é hora de pegar esses dois. Mas quando chegar a hora, eu mesmo vou cuidar disso. Enquanto isso, em Cape Cod, o dia amanhecia dourado. Debby acordou primeiro e preparou café na pequena cozinha da cabana. Bryan ainda dormia profundamente, uma das poucas vezes que ela o via tão vulnerável, sem a tensão habitual de quem vive sempre em alerta. Ela o observou por alguns instantes. Apesar do novo nome e da nova vida, havia algo em Bryan que nunca mudava: o olhar atento, pronto para qualquer coisa. Mais tarde, cumpriram a promessa: pegaram o caiaque e remaram até o ilhote escondido entre as formações rochosas. Levaram frutas, vinho sem álcool e uma velha câmera fotográfica que Bryan havia comprado numa feirinha. — Está se sentindo bem? — ele perguntou, enquanto estendia uma toalha sobre a areia. — Com você e nossa filha? Sempre. Ele sorriu, mas não respondeu. Algo em sua mente parecia inquieto. Os treinos, os anos na polícia, os dias em que esteve infiltrado... tudo ensinava que momentos perfeitos vinham antes da queda. Quando retornaram à cabana, já no fim da tarde, Bryan verificou os arredores com mais atenção do que o habitual. Um carro cinza escuro estava estacionado a poucos metros, e a antena de rádio no teto denunciava uma modificação recente. No espelho retrovisor, ele anotou mentalmente o número da placa. — Debby, amor... por que você não entra e toma um banho quente? Eu já vou te acompanhar— disse, com o tom calmo, porém firme. Ela o conhecia o bastante para perceber quando algo estava errado. — Aconteceu alguma coisa, Bryan? — Ainda não. Mas talvez aconteça. Enquanto ela subia os degraus, Bryan discretamente fotografou o carro. Em minutos, estava no laptop, acessando um velho sistema de reconhecimento que ainda conseguia usar de forma clandestina. Quando o resultado apareceu na tela, ele sentiu um frio na espinha. O carro estava registrado em nome de Javier López. Mas Bryan sabia muito bem quem poderia estar usando esse nome agora. O Pitbull. Provavelmente o maldito já estava ali. Em Cape Cod. E não havia mais tempo para esperar. A noite caiu sobre Cape Cod com uma quietude quase suspeita. Bryan apagou todas as luzes da cabana, deixando apenas uma vela acesa na cozinha. Sentado à mesa, ele observava o mapa da região, com anotações rápidas feitas a lápis: trilhas discretas, câmeras públicas, rotas de fuga. No quarto, Debby tentava dormir, mas sentia no ar a tensão não dita. Bryan nunca deixava transparecer medo — mas aquela noite, ele parecia em guerra com os próprios pensamentos. Ele finalmente entrou no quarto e deitou ao lado dela. Ficou em silêncio por um momento, depois falou com a voz baixa: — Amanhã quero que a gente volte para Boston. Tenho um amigo lá, de confiança. Podemos ficar uns dias com ele, enquanto verifico algo. — É por causa daquele carro, não é? Ele hesitou, depois assentiu. — Tenho quase certeza de quem está por trás. E se for mesmo ele... isso não é só sobre mim. É sobre você também. Ela segurou sua mão. — Não vamos fugir. Vamos pensar, agir com calma. Não é a primeira vez que enfrentamos o perigo. Bryan olhou para ela com admiração. Debby, mesmo com medo, se mantinha firme — mais forte do que ele ousava esperar. Mas algo lhe dizia que dessa vez, a luta seria diferente. Enquanto isso, Pitbull assistia ao movimento da cabana através de uma câmera escondida em um poste próximo. Instalá-la tinha sido fácil — o tempo que passou no cartel negociando drogas, o tornara especialista em espionagem improvisada. No laptop, via tudo: Debby abrindo a janela do quarto, Bryan caminhando até o carro, aparentemente checando algo. Ainda não havia pressa. Ele queria que sentissem a presença dele, que o medo crescesse devagar, como um veneno. No dia seguinte, Bryan foi até a cidade comprar mantimentos, mas fez questão de andar por caminhos alternativos, observando reflexos de vitrines e sombras nos becos. Sabia que estava sendo seguido. Em uma banca de jornal, pegou um telefone público e ligou para um número antigo. Uma voz cansada atendeu do outro lado. — Fala, Bryan... quanto tempo. — Preciso de cobertura. Um inimigo perigoso está me caçando. Preciso de olhos aqui em Cape Cod. — Nome? — Ele vai provavelmente vai aparecer como Javier López. Mas tenho quase certeza de que é o tal do Pitbull. De novo. A pausa do outro lado da linha foi curta. — Tá bom. Vou mandar alguém. Até lá, se cuida e cuide bem da tua mulher também. Bryan desligou. Seus sentidos estavam em alerta total. Na mesma tarde, Pitbull recebeu uma mensagem no celular. *Eles vão sair amanhã cedo. Direção: Boston. Cabana será deixada vazia. Ele sorriu. Mas não era hora de atacar ainda. Não no caminho. Não de frente. — Vou fazer melhor — disse a si mesmo. — Vou entrar na vida deles, virar sombra, espreita... até o momento certo. E assim, no dia seguinte, quando Bryan e Debby fecharam a porta da cabana para supostamente “ir embora” — Pitbull estava pronto. Só não sabia que, dessa vez, o jogo não era só dele. Enquanto isso, Moreno estava encostado na porta do quarto do hotel, segurando um cigarro que ele nem acendia mais. O cheiro de mofo misturado com o perfume barato do ambiente o enjoava, mas não tanto quanto a presença de Pitbull. Desde que o ele aparecera com aquele novo rosto e identidade forjada, Moreno sabia que algo estava errado. Muito errado. Pitbull não era apenas um homem atrás de vingança — ele era uma bomba prestes a explodir. E Moreno, mesmo tendo uma dívida de sangue com ele, começava a questionar se ainda valia a pena carregá-la. Do outro lado da parede fina, Pitbull falava sozinho. Moreno o escutava como quem ouve uma prece distorcida: — Bryan. Bryan. Você roubou minha mulher, meu império no Rio de Janeiro... mas você vai me pagar até o último suspiro. Moreno engoliu em seco. Aquilo não era mais sobre vingança ou acerto de contas. Era obsessão e isso poderia terminar bem m*l. Cortando para Cape Cod, Bryan e Debby dirigiam pela estrada costeira, o porta-malas carregado com malas falsas e um cooler com sanduíches. Mas parte da bagagem mais importante não estava visível: dentro do compartimento do banco traseiro, Bryan escondia um kit completo de vigilância — drones compactos, câmeras com visão noturna e uma pistola Glock, silenciosa e letal. — O que estamos esperando mesmo? — perguntou Debby, tentando soar calma. — Que ele siga nosso plano. Que morda a isca. O plano era simples: parecer que estavam fugindo, quando na verdade, estavam conduzindo Pitbull para um local mais seguro para um possível confronto — ou, com sorte, uma armadilha. Bryan havia escolhido um chalé isolado em Berkshires, alugado sob um nome falso. Tinha acesso a uma trilha escondida e rede de comunicação privada. Um velho protocolo da polícia, criado para proteger agentes em missões de alto risco. Naquela noite, enquanto acampavam temporariamente em um motel de estrada, Bryan instalou uma microcâmera apontada para o estacionamento. Dormiu com a mão no coldre, ouvindo cada som da natureza como se fosse um grito de alerta. Enquanto isso, Moreno se encontrava com um velho conhecido no cais de Boston. — Você ainda tem contatos no FBI? O outro homem levantou a sobrancelha. — Desde quando você quer falar com o governo? — Não é isso. Eu... preciso saber se Bryan Thompson é mesmo cidadão americano ou é um tal do investigador Lucas Mendes, um policial brasileiro que veio morar aqui nos EUA. E se é verdade que ele virou outra pessoa. — Por quê? Moreno demorou para responder. Olhou para o mar, depois disse: — Porque se esse cara ainda for o investigador que dizem que era... então Pitbull vai morrer tentando. E, talvez, ele também. Continua.......
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