Beatriz Nogueira:
O baile funk estava em pleno vapor, as batidas pesadas ecoando pelas vielas da favela. E eu estava sentada em um canto, tentando me fazer invisível. Pois meu corpo ainda doía dos golpes que Pitbull lhe dera na noite anterior, mas a dor física era nada comparada à humilhação que ele tentava infringir em mim toda noite de pancadão enquanto dançava com outras mulheres, rindo e se esfregando nelas como se eu não existisse, seria ótimo se ele ficasse definitivamente com uma delas e me deixasse em paz, mas na verdade o que esse maldito quer é me humilhar, já que nunca me respeitou, ele diz que me ama, mas isso nunca foi e nem será amor, na verdade eu sou uma espécie de troféu, mas agora tudo ficou ainda pior, depois que descobri o que é ser amada de verdade por um homem, o Deco não sai da minha cabeça desde aquele dia em que fizemos amor pela primeira vez.
Enquanto pensava nisso olhei para as minhas mãos, tentando ignorar o nó na garganta. Um mês, pensei. Um mês desde aquela noite com o Deco.
Desde então, a minha vida tinha se tornado um pesadelo ainda maior. Pois o Pitbull estava mais violento, mais desconfiado. E agora, com a possibilidade de eu estar grávida do Deco... Eu não sabia o que fazer.
-Beatriz. Uma voz suave me chamou. Quando ergui os olhos eu vi o Deco, disfarçado com um boné e uma jaqueta preta, sentando-se ao meu lado. Ele olhou ao redor, garantindo que ninguém nos observasse.
-O que você tá fazendo aqui?" eu sussurrei, com meus olhos cheios de medo. "Se o Pitbull ver nós dois juntos...
-Eu não aguentava mais ficar longe de você. Deco respondeu, a voz baixa, mas cheia de intensidade. Amor,, eu sei que tá difícil, mas eu vou tirar você daqui. Eu prometo. Eu olhei para ele, com os olhos marejados.
-E se ele descobrir? Deco, ele vai nos matar. Principalmente porque eu acho que estou... grávida de um filho seu. Ele arregalou os olhos assim que essas palavras saíram da minha boca.
Ele ficou em silêncio por um momento, provavelmente absorvendo as palavras que eu disse. Nós dois sabíamos que a situação era perigosa, e se a gravidez se confirmasse, tudo seria muito pior, mas eu sabia que ele não iria me abandonar.
-Se você estiver grávida," ele disse finalmente, então eu vou proteger vocês dois. Eu não vou deixar que ele machuque vocês, meu amor. Depois das suas palavras eu senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto mais uma vez.
-Eu não quero que você corra risco, Deco. Você não me contou porque veio parar aqui no morro, mas eu sei que você não é um bandido, provavelmente tem uma vida fora daqui, ou uma carreira. Já eu sou só... uma dívida que o Pitbull cobrou do meu pai e do meu irmão, por isso ele nunca me deixará em paz. Deco pegou na minha mão, segurando-a com firmeza.
-Você não é uma dívida, Beatriz. Você é a pessoa mais forte que eu conheço, e é a mulher que eu amo, e espero que realmente seja a mãe do meu filho. Eu eu não vou deixar que ele continue te destruindo. Eu olhei para ele, sentindo uma mistura de esperança e medo.
-E o que a gente faz agora? Perguntei ainda temerosa.
-Você confia em mim? Ele perguntou, os olhos fixos nos meus. Eu hesitei por um momento, mas então acenei com a cabeça.
-Eu confio, Deco. Pois eu realmente confio nele de olhos fechados.
-Então, quando eu der o sinal, você vai sair daqui comigo. Vamos sumir, para longe dele, longe de tudo isso. Eu sentir o coração acelerar. Era arriscado demais, mas eu sabia que não tinha outra escolha. E o Xandão? Pitbull vai matá-lo assim que souber que nós dois sumimos.
Deco apertou a minha mão na dele. "Eu vou cuidar disso também. Mas primeiro, eu preciso garantir que você esteja segura.
Enquanto conversávamos, Pitbull apareceu no meio da multidão, seus olhos escaneando a área como um predador. Eu senti o sangue gelar.
-Ele tá vindo na nossa direcão, Deco. Eu sussurrei, puxando a minha mão que ele estava segurando.
Deco olhou rapidamente para Pitbull e então deu um passo para trás, desaparecendo na multidão.
-Fique atenta ao meu sinal. Deco me disse, antes de sumir de vista.
Eu tentei me recompor, enxugando as lágrimas e tentando parecer normal. Mas por dentro, meu coração batia acelerado. Eu sabia que o plano do Deco era arriscado, mas também sabia que era sua única chance de escapar.
Pitbull chegou até onde eu estava, o cheiro de álcool e suor emanando dele.
-O que você tá fazendo aqui sozinha?" ele perguntou, a voz carregada de desdém.
-Nada. Eu respondi, evitando o olhar dele. Ele riu, um som áspero e sem humor.
-Você tá ficando cada vez mais sem graça, sabia? Talvez eu deva arrumar realmente outra mulher, mas se isso acontecer, você ainda continuará sendo minha prisioneira, até que você morra.
Eu não respondi. Pois sabia que qualquer reação só pioraria as coisas. Mas por dentro, eu me agarrava à promessa do Deco.
Logo isso vai acabar, eu pensei. Logo eu vou ser livre desde homem asqueroso, mas agora eu preciso confirmar se realmente estou grávida do Deco, só não sei como farei isso sem que o Pitbull desconfie de mim.
Alguns dias se passaram, e não consegui falar com o Deco, infelizmente o plano dele de fugir comigo aquele dia não deu certo, já que o Pitbull está marcando em cima, mas ontem, enquanto Pitbull estava no escritório, meu irmão Xandão foi até o meu quarto e me entregou um pacote, dizendo que foi o Deco que pediu pra ele me entregar, assim que meu irmão foi embora, eu corri para o banheiro, tranquei a porta, fiz o teste ali naquela pacote, e para seu desespero, realmente ela estava grávida.
O sol começava a se pôr, tingindo o morro com tons alaranjados e avermelhados. Quando eu estava sentada no quarto que dividia com Pitbull, segurando o teste de gravidez nas mãos trêmulas. O resultado era mais que claro, pois aquelas duas linhas rosadas. Diziam claramente que eu estava grávida.
O meu coração estava acelerado, uma mistura de alegria e medo tomando conta do meu peito. Alegria por carregar no meu ventre o filho de Deco, o homem que eu amo e vou amar para sempre, e medo do que Pitbull fará se descobrir a verdade.
Eu precisava ver o Deco. Precisava contar a ele que o teste deu positivo, mas sabia que mais um encontro entre nós era um risco imenso, pois o Pitbull estava mais desconfiado do que nunca de mim, e eu não podia dar nenhum passo em falso.
Enquanto pensava nisso, ouviu passos pesados se aproximando do corredor. Era ele, eu tinha certeza, por isso rapidamente, eu escondi o teste de gravidez embaixo do colchão e me compôs, tentando ficar calma.
Pitbull entrou no quarto, o olhar pesado e investigativo. Ele me encarou por um momento, como se tentasse ler meus pensamentos.
— O que você tá fazendo aí, parada e chorando? — perguntou ele, a voz carregada de desconfiança.
— Nada, eu só estou descansando, já que minha cabeça está explodindo de dor— respondi, evitando o olhar dele.
Ele riu, um som áspero e sem humor.
— Você tá estranha, sabia? Tá escondendo algo de mim, Beatriz? Sua pergunta me deixou em alerta.
— Não estou escondendo nada — Respondi, tentando manter a minha mais voz firme.
Pitbull se aproximou, o cheiro de álcool, drogas e suor que emanava dele me deu enjôo. Ele pegou o meu queixo com força, obrigando-me a olhar para ele.
— Se eu descobrir que você tá me traindo, você vai se arrepender de ter nascido.— Ele ameaçou, os olhos brilhando com raiva.
Eu não respondi. Sabia que qualquer palavra poderia piorar a situação. Pitbull soltou o meu queixo e saiu do quarto batendo a porta com força, deixando-me sozinha novamente. Eu respirei fundo, tentando se acalmar, pois precisava dar um jeito de me encontrar com o Deco.
Mais tarde, naquela noite com a ajuda do meu irmão, eu conseguiu escapar por algum tempo. Eu sabia que Deco estaria no ponto de encontro que nós havíamos combinado no bilhete que veio junto com o teste de gravidez, um lugar escondido que ficava num barraco abandonado no fim do morro. Quando eu cheguei, ele já estava lá, os olhos cheios de preocupação.
—Amor, você está bem, fez o teste? — ele perguntou, segurando as minhas mãos.
— Estou bem, e sim, estou realmente grávida,, por isso temos um problema — ela respondeu, a voz trêmula. —Agora que estou grávida, Deco de um seu filho, o Pitbull pode descobrir e nos matar.
Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos se enchendo de uma mistura de emoções que pareciam ser alegria, também medo, e preocupação. Mas mesmo assim ele apertou as minhas mãos com mais força e depois se ajoelhou, levantou minha blusa e beijou minha barriga.
—Nós temos que sair daqui, Bia. Eu vou tirar vocês dois desse inferno, eu juro, mas precisamos elaborar um plano perfeito. Pois eu já notei que o Pitbull está ainda mais desconfiado, e não podemos dar nenhum passo em falso ou colocaremos tudo a perder..
—Eu sei — eu respondi, com os olhos cheios de lágrimas. — Mas eu não aguento mais viver assim, Deco. Tenho medo do que ele pode fazer comigo... com o nosso bebê. Deco me puxou para um abraço apertado, me transmitindo segurança.
— Eu quero te contar uma coisa, meu amor, acho que a hora é essa, meu nome verdadeiro é Lucas Mendes, sou investigador na polícia de Niterói, estou aqui trabalhando infiltrado para descobrir provas contra o Pitbull e o levar para a cadeia, meu plano inicial era somente este, mas assim que te vi, eu me apaixonei, e sei que estou colocando essa operação em risco, mas tudo que me importa agora é te tirar daqui, eu não vou deixar que ele te machuque. Nem você, nem o nosso filho. Mas precisamos ser cuidadosos, você não pode me chama de Lucas de jeito nenhum enquanto estivermos neste morro,. Quando eu tiver um plano de fuga pra nós, vou te avisar com antecedência, e você vai sair daqui junto comigo. Vamos sumir, para bem longe dele, longe de tudo isso.
Eu acenei com a cabeça, ainda sem acreditar direito que ele é mesmo um policial infiltrado, mas de alguma forma isso me deu mais confiança e eu pude acreditar ainda mais nas palavras dele. Mas no fundo, sabia que seja qual for o plano que ele elaborar, vai ser arriscado de qualquer maneira. Afinal o Pitbull não era um homem que perdoava traições.
Enquanto conversávamos, Deco me puxou para um canto mais escondido da casa, longe de qualquer olhar curioso, já que o local nem tinha porta. E me beijou, um beijo cheio de paixão e promessas. E eu me entreguei ao momento, esquecendo por um instante do perigo que nos cercava.
E fizeramos amor ali, na escuridão do barraco abandonado, cada toque carregado de amor e desespero, mas o nosso momento de paz foi interrompido por um barulho vindo do lado de fora. Deco rapidamente se afastou, os olhos alertas.
— Alguém está vindo — ele sussurrou. — Você precisa ir, meu amor. Agora.
Eu acenei com a cabeça, enquanto vestia minhas roupas novamente, meus olhos estavam cheios de medo. Deco me beijou rapidamente antes de desaparecer na escuridão para ver o que estava acontecendo.
Assim que me recompus, eu sai do barraco, tentando parecer calma. Mas quando eu voltei para casa, o Pitbull estava lá na sala, os olhos cheios de desconfiança assim que me viu entrar.
—Para onde você foi? — ele perguntou, a voz carregada de raiva.
— Só fui dar uma volta — eu respondi, tentando soar indiferente.
Pitbull me encarou por um momento, como se tentasse decifrar minhas mentiras. Sei que ele não acreditou no que eu disse, e eu sabia que o tempo estava se esgotando para o Deco e eu.
Continua.............