Capítulo 09

2633 Palavras
Eu não fui? Como assim eu não fui? Ele realmente pensa que eu não fui! Que a Dama de Prata que o expôs na frente de todos os convidados e depois praticamente se pegou com ele as escondidas, não era a p***a da sua secretária que aqui vos fala. Eu deveria estar furiosa com isso, mas estou feliz! Um sorriso incontrolável surgiu, mais forte do que eu, mais forte do que tudo o que já fui capaz de suportar um dia, sem que eu ao menos perguntasse por quê. Cohen olhou para minha boca encarando aquilo como um desaforo, um ultraje a tudo o que ele acabou de me dizer. Eu não gargalhava, eu não emitia um som sequer, mas não pude evitar de sorrir e ele estava perto demais para não perceber. Eu na mesma situação só me toquei quando ouvi a sua voz. — Está sorrindo?! — Mordi meu próprio lábio como se pudesse desfazer o que fiz. Se eu não vou ser demitida pelo fato de Cohen não saber que era eu, eu certamente vou ser por ter feito pouco caso da sua indignação. — Desculpe, eu... eu acabei de... eu rio quando estou nervosa. E o senhor está me deixando nervosa. — Eu gaguejei. Eu malditamente, gaguejei! Não sei se foi delírio ou um vislumbre distante, mas pude jurar que vi a sombra de um sorriso em Cohen também. Como se houvesse alguma nota de diversão. — E a senhora, Anya, mentiu pra mim. Ponderei sobre dizer que eu estava sim no evento, Joe poderia comprovar isso, mas mentir me livraria de qualquer possível suspeita. Eu seria a pessoa menos provável a ser essa Dama de Prata se eu ao menos tivesse pisado os pés naquela festa. Se eu dissesse que estava, Cohen me fará perguntas. Com quem eu estava, que roupa eu usava, como e por que não nos vimos... Então de uma forma ou de outra eu precisaria mentir. E uma mentiras é melhor que muitas, daqui alguns dias ele se esqueceria de tudo isso e tudo o que eu precisaria fazer é me redimir. — Desculpe. — Pedi por tê-lo chamado de Senhor. Nunca estive tão confusa. Voltar a ser Anya não estava sendo nada fácil, fingir que a linha de profissionalismo entre Cohen e eu nunca foi ultrapassada, menos ainda. Uma coisa me passou em branco, apenas uma. Enquanto minha alegria ultrapassava a confusão, não me atentei ao que Cohen acabou de dizer. E se era na sua presença que eu estava interessado, deveria ter pedido pessoalmente, pois, mesmo fazendo tudo o que fiz... Você não foi! Por que a minha presença lhe interessava tanto? Bom, eu não estava lá para descobrir. — Não é o suficiente, eu preciso de respostas. — Uma mentira bem elaborada eu entendi. — Como no ano passado, eu passei o dia inteiro estudando sobre o lançamento. Eu sei tudo o que aconteceu. — Um vinco surgiu entre suas sobrancelhas. Eu não menti! Eu não disse que não estava lá, não inventei uma desculpa qualquer. Tudo o que eu fiz foi deixar a interpretação livre, já que no ano passado eu não fui realmente para o evento, mas passei o dia estudando sobre o lançamento para não ficar alheia a agenda de Cohen. — Sabe mesmo? — Perguntou estufando o peito, como se me desafiasse. — Então você viu o que aconteceu durante o discurso de um parceiro meu. Assenti, sabendo que ele estava se referindo a minha interrupção. — Imagino como esteja furioso, eu sinto muito. — E qual sua opinião sobre isso? — Sobre o que ela disse, ou sobre o lançamento? — Sobre o que aconteceu, você acha que teve necessidade? — Olha, sinceramente eu achei um pouco, demais, mas... sendo bem sincera eu acho que você já viu que a suma maioria concorda com o que ela falou. Era tão estranho falar de mim na terceira pessoa, defendendo minha opinião parecendo ser a de outra. Vi nisso uma oportunidade de amenizar o que eu fiz. — Você estuda publicidade, Anya. Por um lado eu agradeço não ter ido, queria mesmo uma opinião sincera de quem está de fora. Eu quero saber se posso contar com a sua ajuda. — Claro, o que eu puder fazer eu vou fazer. — Preciso reverter o que ela fez, os acionistas estão me cobrando uma posição e isso graças a maioria das opiniões que apoiam o discurso dela! Eu só não sei o que dizer. — E, se você usasse isso como uma jogada de marketing. Sabe, polêmica proposital, fazem muito isso. Você está em pauta, está entre os assuntos mais discutidos nas redes sociais, seu nome está em todos os lugares eu acho que você poderia usar isso ao seu favor. Cohen caminhou perdido em seus próprios pensamentos até sua mesa. Seu blazer preto estava no encosto da sua cadeira, lembrei que eu geralmente o tirava dali, e o pendurava, mas hoje isso não ia acontecer. Ele deixou sua xícara em cima da mesa, e ainda em silêncio arregaçou as mangas da camisa preta, deixando parte do seu antebraço de fora. Me amaldiçoei por lembrar daquelas mãos segurando meus braços para cima, e uma linha de arrepios me lembrou de cada trajeto que ela percorreu. Então admiti que admirar Cohen, nunca será como antes, pois, quando acontece, meu corpo automaticamente responde ansiando pelas sensações. — Você tem razão. — concordou tirando-me do meu estado de transe. — Isso casa com uma decisão que eu já tinha tomado. — Falou, dando a volta na sua mesa para abrir uma gaveta, onde pegou algo que coube na palma da sua mão. Suspirei discretamente tentando espantar o calor, e as batidas mais intensas do meu coração. Foi por muito pouco que não comprimi as minhas coxas, só não fiz isso pois seu olhar caiu sobre mim. Então meu coração pareceu falhar umas batidas, enquanto meu rosto esquentava gradativamente, era como se ele soubesse o que estava acontecendo, o que é impossível, já que tudo isso é fruto do meu psicológico traiçoeiro, que me leva até a noite da festa. É isso, eu precisava trabalhar a minha mente, e agir como Cohen estava agindo nesse momento. Frio e calculista. Dúvido que essas lembranças ganham espaço sabendo ele que está diante da sua secretária de sempre. E ainda que ele fale dela pra mim, eu só consigo sentir raiva, é isso o que ele sente por ela, e é exatamente por isso, que essa raiva não pode ser direcionada a mim. Com a Dama de Prata ele se viu de mãos atadas, o único poder que ele exerceu — E ainda exerce. — sobre ela é o prazer, e isso jamais voltará a acontecer, então certamente essa é uma situação que fere muito mais o seu ego, do que seu nome na mídia. Com a postura menos ereta e tensa, Cohen parecia mais relaxado e mais próximo do que eu conhecia. Ele veio até mim em passos lentos, o tempo que eu agradeci ter, para me recompor internamente, e no meio dessa batalha que eu travava com meus próprios pensamentos, não me atentei a etiqueta que ele segurava propositalmente entre os dedos como uma carta de baralho, ou cigarro aceso. — Ninguém sabe nada sobre ela. Estão chamando-a de Dama de Prata. Eu quero encontra-la! E você vai me ajudar com isso. Por um momento eu perdi a força sobre meus comandos faciais. Minha expressão cedeu, todos os meus músculos relaxaram. Só então olhei para a etiqueta entre seus dedos e vi que era do vestido. Ateliê Stella Valencio, by Holly Price. Uma simples etiqueta, que dava a ele os primeiros passos por onde começar a procurar. De repente minha vida ganhou uma contagem regressiva. Ele ia saber mais cedo ou mais tarde, isso era um fato. A menos... se eu pudesse evitar. — Encontra-lá? Como é que eu vou poder ajudar com isso? — Como é que eu posso atrapalhar? — Nós vamos achar essa mulher. Essa é a única pista que eu tenho. Não queira saber como conquistei, isso ultrapassa nossos limites profissionais, mas... como amigo eu posso te garantir que não foi pedindo. Minha mente me traiu, e mais uma vez as imagens daquela noite surgiram como um único flash e gemidos roucos. E foi muito pior, tendo os olhos de Cohen bem na minha frente. — E-eu sou só uma secretária, não detetive. Não tenho ideia do que fazer pra ajudar. — Vai saber. Por hora, eu sei que ela usou um vestido consignado desse Ateliê de alta costura. Não fica muito longe daqui, assim que essa pressão é falação infernal na empresa diminuir, nós vamos até lá. Acaba logo com isso Anya! Pra quê protelar? Mais cedo ou mais tarde ele vai descobrir e além de ter que lidar com sua vida desmoronando, também vai ter que tratar desse incômodo entre as pernas cada vez mais ardente. — Como quiser. — Foi tudo o que eu consegui dizer. Foi o melhor que consegui, levando em consideração que eu nem pensei pra falar. A sombra de um sorriso semicerrou seus olhos, como se Cohen esperasse por mais do que apenas isso. — A propósito, não sei se o tal Joe te falou, mas a partir de hoje eu pago nosso café, então você não precisa mais passar na cafeteria todas as manhãs. Só pode estar de brincadeira! ⚜ Passei o resto da manhã pensando de que maneira eu ia sair dessa. Me perguntei freneticamente por que eu simplesmente não fiquei quieta, ou porque Joe não me encontrou antes de tudo. Como que eu vim parar nessa? Por Deus, por que minha vida não podia simplesmente seguir pelos últimos meses somente até eu conseguir me formar e nunca mais ter que lidar com nada disso? Parece que cada dia mais próximo do meu diploma, mais longe ele fica, mais impossível. O problema é que agora eu não só ferrei com a minha vida, eu coloquei tudo em jogo. Entendam que se o Cohen descobrir tudo, será o fim de qualquer carreira que eu possa ter. Seu nome é mais do que respeitado no mercado de trabalho, ninguém passa por ele e sai com uma carta de recomendação negativa à toa, isso eu carregaria para o resto da minha vida. A última secretária não consegue nada mais que um emprego em uma lanchonete, por simplesmente ter tentado algo com Cohen. Eu fiz muito mais do que isso. Eu praticamente o ridicularizei no projeto da sua vida e depois gozei na sua mão e extrai dele prazer, ele me proporcionou prazer. Pior do que isso, ele sentiu prazer e quando pediu por mais, eu fugi. A minha vontade agora era de desistir, encerrar por aqui e voltar para Minessota de onde parei, arumar uma vaga qualquer em um escritório ou em uma lanchonete, ou até mesmo ajudar meu pai na oficina, qualquer coisa que me tirasse daqui. E quando eu estava prestes a tomar uma decisão movida pela raiva, vi meu celular vibrando em cima da mesa em uma chamada de vídeo. Era a mamãe. Respirei fundo, engoli o choro preso na minha garganta e coloquei um sorriso no meu rosto. O mesmo se ampliou quando quem apareceu no visor foi o Tom, com um sorriso de orelha a orelha. "Tenho uma novidade". Ele disse em libras com uma empolgação aparente. Pulava feito um sapo queimando a pata, a imagem ficava trêmula mesmo que apoiada em alguma superfície, para que ele pudesse usar as mãos. Também apoiei meu celular na mesa para ficar com minhas mãos livres. Seu cabelo tigelinha estava uma completa bagunça, alguns fios castanhos colavam na sua testa suada, como se ele já estivesse pulando há um tempo. "Me conta". Pedi, com minhas energias renovadas. "Fui chamado para testar o aparelho". Arfei cobrindo minha boca com as mãos. Meus olhos no mesmo momento se enxeram de lágrimas, tamanha foi minha surpresa. Tom pulava mais do que nunca, eu não conseguia dizer nada, queria apenas chorar e pular também, mas me contive para não chamar a atenção de Cohen. Estamos na fila de espera há mais de dois anos. Tom passou por um longo tratamento depois da cirurgia para conseguir usar o aparelho que talvez, o faria ouvir pela primeira vez. Essa é a noticia que estamos esperando por muito, muito tempo, e talvez a melhor da minha vida. Tão boa quanto receber a minha aprovação na univerdade, o que eu estava sentindo agora, nem se compara. — Oi filha. — Ouvi a voz da minha mãe, ela acabara de pegar o celular na mão. Como se deixasse Tom me dar a boa notícia estando esse tempo todo bem ali do lado. — Quando? — Perguntei emocionada, seu sorriso também era gigantesco, mas sumiu gradativamente, conforme ela se afastava do ambiente onde estava, provavelmente se afastando do meu irmão. — Na semana que vem. — Mas... — Sua cara dizia que tinha um mas. — Não depende só do exame não é, querida. O Tom vai ouvir pela primeira vez na vida e... eu tenho medo de não conseguirmos. — Mãe, não, por favor não pensa nisso. Vamos dar um jeito, eu prometo. Eu tenho algumas economias, não importa quanto seja, vamos dar um jeito! — Lágrimas inundaram sua vista enquanto ela assentia. — Pena que não vai estar aqui, ele ia adorar ouvir o som da sua voz. — E eu ia adorar presenciar isso. — Me imaginei vendo meu irmão ouvir pela primeira vez, e me emocionei. — Ah, seu pai está precisando de ajuda na oficina. Preciso desligar. Ele aprendeu a fazer essas ligações e agora liga para Deus e o mundo. — Comentou rindo. Pensei que se não fosse pelas chamadas de vídeo, Tom e eu não conseguiríamos m***r a saudade um do outro. — Deixa ele ligar, mãe. Está descobrindo o mundo, e ele merece tudo de bom que o mundo tem pra ele. — Pensei automaticamente no projeto da Archer e o sistema de inteligência para deficientes auditivos com fones especiais e tradutores visuais simultâneos. A vida é mais fácil com tecnologia, mas essa facilidade custa muito caro para quem tem necessidades próprias como Tom. E prioridades. — Não quero que se preocupe, eu e o seu pai estamos fazendo de tudo. Tom está ficando com a vizinha para que eu possa pegar umas casas como diarista, nós vamos dar um jeito disso eu tenho certeza. Olhei a aparência da minha mãe tão cansada, e me odiei por não poder fazer nada. Ela estava vivendo uma jornada integral, ajudando papai na oficina em meio às suas dores na coluna, Tom e agora além da sua casa, cuidando da casa de outros. — É assim que se fala. Me despedi da minha mãe com lágrima nos olhos, foi a lufada de coragem que eu precisava para não desistir agora. Tom precisa de mim, meus pais precisam. Para minha surpresa Cohen abre a porta, e foi mais rápido do que eu em enxugar as lágrimas, em questão de segundos ele estava próximo a mim, com um bolo de papel nas mãos enquanto eu me virava na cadeira para ficar de costas para ele. — Está tudo bem? — Balancei a cabeça, limpando a bochecha com a manga da blusa, e focando minha atenção na tela do computador. — Anya, você estava chorando? — Não é nada. Eu vou ficar bem! — Se não fosse nada, você não estaria chorando. — Saudade de casa, apenas isso. — Resumi, voltando minha atenção ao computador. Pela visão panorâmica percebi Cohen me observando por algum tempo. — Vou deixar você se recompor, quando estiver melhor, vamos sair. — Sair? Pra onde? — Ateliê Stella Valencio. Vamos atrás da dona daquele vestido.
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