Reiterando o que eu falei, e sem deixar brechas para o Cohen me impedir de sair, na manhã de sexta-feira eu cheguei ainda mais cedo que o habitual da maioria. Pouquíssimas pessoas estavam na cafeteria, passei direto, claramente sem ter coragem alguma de encarar o Joe depois de tudo que mandei.
Cheguei inclusive, antes do Cohen, que arqueou uma sobrancelha quando chegou e já me viu trabalhando.
— Não precisava chegar tão cedo.
— Eu cumpro com minha palavra! — Falei sem olhá-lo. Cohen riu como se desdenhasse.
Não nos falamos pelo resto do dia, ignorei-o até quando o mesmo saiu e voltou com nossos cafés, deixando o meu na minha mesa, pelo segundo dia consecutivo não tomei, esfriou como no dia anterior e isso pareceu incomodá-lo, como um pai quando vê o filho fazendo birra.
Quando Cohen viu o copo cheio na minha mesa, pude jurar que viria um pedido de desculpas depois do seu suspiro impaciente, mas não dei a******a, pois já estava no meu horário. Juntei minhas coisas e deixei a empresa, pedindo um táxi direto para casa, onde me troquei e assumi o que eu chamava de Anya Publicitária. Era como vestir uma personagem.
Optei por um conjunto preto de shorts alfaiataria de cintura alta e um cropped social que deixava apenas uma fina linha da minha pele abdominal a mostra, e por fim, um blazer acinturado no mesmo comprimento do shorts, finalizando com acessórios dourados em um mix de colares finos, scarpin preto e o cabelo solto que ganhou um leve modulado. Não pesei na maquiagem, mas o pouco já me agradava já que era mais do que o usava no dia a dia.
Pedi novamente um táxi seguindo as orientações do professor Leeson por mensagem, chegando em uma locação da universidade para a feira repleta de estudantes. Dei uma olhada nos stands e nos grupos de alunos preparando suas apresentações, quando meu nome foi altamente pronunciado.
— Aí está você! — Era Leeson, vindo em minha direção com um enorme sorriso no rosto. Ele também estava todo pomposo em um terno social, e pela sua agitação, já estava na ativa há um bom tempo.
— Eu disse que não te deixaria na mão. — Brinquei quando ele já estava me alcançando.
— Eu sabia que podia contar com você. — Disse colocando a mão no meu ombro, me guiando para andar ao seu lado. — A feira está sendo um sucesso. Os alunos estão bem empolgados, e já tivemos a visita de muitos empresários. Mais um grupo está agendado para chegar daqui a pouco, queria que desse uma olhada no trabalho da minha turma para ajudá-los.
Juntos nós caminhamos até o stand da turma do primeiro ano de Leeson, onde fui apresentada como publicitária experiente do ramo, uma mentira boba segundo Leeson, para passar mais credibilidade e segurança a eles.
Ficaram eufóricos ao saber que eu trabalho na corporação Archer. Como eu sempre disse, tê-la em seu currículo te abre portas, e você vira aonde quer que esteja, referência. Naquele momento eu omiti não trabalhar na minha área, seria como tirar aquela luz esperançosa que brilhava nos olhos dos calouros.
— São as vagas de estágio mais concorridas. — Comentou uma aluna, entusiasmada ao saber que uma estagiária tinha sim chances de ser efetivada, como provavelmente presumiram minha caminhada.
Não n**o que eu sou completamente apaixonada por publicidade, não é algo que estabeleci como sonho ou meta de vida, mas me encontrei e confesso, sem modéstia alguma, que sou boa no que faço. Seria ótimo poder estar vivendo disso, mas eu tenho outras prioridades.
Conheci um pouco do projeto e da proposta que eles criaram, conheci os alunos e no decorrer da conversa, fui dando algumas dicas. Uma Reitora trazia até nós os grupos de empresários, e as apresentações se repetiam a cada hora.
O grupo acanhado de sete pessoas começou e eu complementava as apresentações, depois de algumas delas eu já havia decorado e me encarreguei de responder as perguntas por eles com mais firmeza, muita das vezes dando minha opinião e sugestão para algum nicho específico. A Reitora soltou em um cochicho que o grupo liderava nos interesses dos empresários.
Leeson chegou e me colocou um cordão com um crachá, ajudando-me a tirar o cabelo preso pelo mesmo.
— Lembro da sua primeira apresentação na feira. Ganhou nota máxima pelo conselho. — Comentou me deixando ler o crachá de voluntária.
— A universidade vendeu nosso projeto para uma empresa, eu juro que não tenho boas recordações dessa feira. — Comentei com raiva, bem menos do que na época é claro.
— Você sabe que esses projetos são para isso, experiência e em troca, ideias de graça. — Confessou Leeson cruzando os braços de frente pra mim.
— Os estudantes acreditam na ideia de que eles podem conseguir um bom estágio caso se destaquem.
— O que também não é impossível. Algumas pessoas têm visão para… diamantes não lapidados. — Se inclinou dando ênfase em sua frase como em uma indireta.
Quando por um milésimo de segundo olhei para o lado, duvidei do que meus olhos estavam vendo.
Cohen Archer, em um stand não muito longe olhando por cima dos ombros pra mim. Ao lado dele estava Casper, seu irmão, e um grupo de três empresários que reconheci como os mesmos acionistas que o seguraram até tarde.
— O que ele faz aqui? — Perguntei para ninguém ao certo. Leeson acompanhou meu olhar e respondeu, pegando-me de surpresa.
— Ah, então é por isso que os alunos ficaram tão nervosos. Cohen Archer está na feira! — Meus dedos começaram a soar frio. Cohen não desviou seu olhar do meu e a ideia de encontrá-lo no meu ambiente, fora do trabalho, estava me atingindo mais do que eu gostaria. — Eu preciso recepcioná-los, consegue acompanhar a apresentação da turma pra mim? — Assenti, sem ter muita escolha ao ver Leeson se afastando em direção aos homens.
A presença dele aqui não estava confirmada! Eu posso afirmar isso com absoluta certeza, pois tenho todos os passos de Cohen cronometrados na tela do meu computador, e saberia se a feira publicitária estivesse na sua agenda.
Não consegui concentrar minha ajuda aos universitários, entre um segundo e outro eu olhava para o grupo cada vez mais perto do nosso stand, na companhia do professor Leeson. E cada vez maior era minha tremedeira.
— Anya, você conhece um deles pessoalmente? — Perguntou o garoto da turma, olhando sorrateiramente para o maior grupo de empresários que agora percorria os stands. Cohen estava rodeado de engravatados e cumprimentos de todos os lados.
— Dali, somente os irmãos Archer. — Respondi limpando as mãos no tecido da minha roupa.
— Somente? — Ironizou uma outra aluna.
— O que acha que eles estão fazendo aqui? — Não prestei atenção em quem perguntou, somente ouvi, enquanto olhava na direção deles no momento em que Casper comentava algo com Cohen, ambos olhando na minha direção.
Imediatamente arrumei algo para fazer, me distraindo, obrigando-me a não olhar mais para o lado.
— Devem estar desesperados! — Cochichei.
Mas o inevitável aconteceu, Cohen chegou no exato momento em que eu falava com um grupo de investidores que tiravam suas dúvidas sobre o projeto dos alunos. Vi pelo canto do olho que os mesmos começaram uma nova apresentação, e me distraí com as perguntas que recebia de modo particular em um canto mais afastado. Leeson me chamou, e naquele momento eu não sei se o agradecia ou amaldiçoava, pois tive que me juntar a eles.
Cumprimentei Cohen com um aceno. Um sorriso de canto não sumia do seu rosto, e Casper parecia de algum modo se divertir com a situação, apesar das suas expressões serem indecifráveis.
— Estes são acionistas da corporação Archer e os irmãos, Cohen e Casper que você já deve conhecer. — Disse Leeson sem cerimônia. — Eu estava justamente falando para eles sobre minha aluna mais exemplar e sua visão para o marketing estratégico.
— Você tem um admirador, senhorita Amstrong. — Comentou Casper, se referindo a Leeson, que sim, na maioria das vezes se empolga ao fazer minha propaganda. Evitei o olhar de Cohen, mas percebi que ele ficou inquieto.
— Assumido e declarado. — Completou Leeson. — Estava contando a eles sobre nossa teoria dos fundamentos de Copyright que conversamos na aula passada.
Eu não estava acreditando naquilo. Não consegui esconder meu olhar desesperador ao encarar o sorriso de Leeson e ver que ele não estava mentindo.
— Uma teoria sua. Evidentemente. — Minha voz saiu trepidada, naquele momento, eu só queria que ele entendesse meu olhar e confirmasse que eu não tinha os créditos na estratégia.
— Baseada em um seminário seu, sobre estratégia de escape.
— Fale um pouco sobre, Senhorita Amstrong, o professor nos deixou curioso! — Pediu um dos acionistas, extraindo até a gota mais profunda do meu desespero.
Leeson me faria dizer sobre algo que o próprio Cohen disse que não estava interessado. A minha vontade agora era de mandá-lo procurar um especialista, mas me contive, tomando fôlego para assumir uma Anya muito diferente do que Cohen estava acostumado. Mesmo que ele não quisesse ouvir.
Falei sobre a teoria e contei qual seria inclusive minha sugestão para uma saída estratégica, aquela na qual a Archer só teria a ganhar com os patrocinadores que queriam de certa forma se aproveitar do alcance e repercussão que toda a polêmica tomou após o lançamento.
Cohen manteve seus olhos fixos em mim, trocando o peso das pernas uma vez ou outra, como se houvesse alguma nota de constrangimento.
— E você não acha que essas empresas, patrocinadores por assim dizer, estão mais interessadas na própria campanha e autopromoção, do que em oferecer um produto de qualidade? — Perguntou um deles.
— Independente da finalidade ou qualidade, o que importa é que eles estarão adquirindo o sistema inteligente da Archer, sendo assim, estamos falando finalmente de igualdade, já que do mais baixo ao mais alto produto lançado daqui pra frente, terá em seu sistema a acessibilidade desenvolvida pela Archer, será quase como um sistema obrigatório, quem não tiver então em seus produtos, estarão em desvantagens. Como um celular que não aceita baixar aplicativos não pagos, eles não são bem vistos pela alta classe como exclusivos, mas sim como desatualizados, uma escassez reversa! — Agora eu falava mais confortável.
Vi que durante alguns segundos, houve uma troca de olhares. Como se uma lâmpada acendesse na cabeça de cada um dos homens que fitaram Cohen com cobrança. A solução dos problemas que ninguém havia pensado, e o olhar de Cohen para mim, me dizia que ele estava sim, de certa forma desconfortável, pois se tivesse me escutado dias antes, não precisaria ter vindo procurar ajuda em uma feira publicitária, para ouvir sua secretária nada especialista, dizer diretamente para seus acionistas, o que ele não deveria ter ignorado.
— Parabéns, é realmente uma ótima teoria. — Me parabenizou Casper. — Ouviu isso Cohen? Sua secretária encontrou uma saída.
— Perdão. — Chamei sua atenção. — Aqui eu sou uma publicitária.
O corrigi ao mesmo tempo que cutuquei Cohen.
— Muito obrigado Anya. — Disse Leeson me lançando um sorriso. — Vamos continuar senhores? O próximo Stand é da turma do professor Rarvin, nosso economista da universidade…
Leeson e os acionistas se direcionaram para o próximo Stand, me deixando a dúvida do porquê Cohen não tê-los acompanhado, e a certeza quando eles já estavam longe o suficiente, que ele esperou propositalmente.
— Anya…
— Isso não muda nada, eu sei! Não se preocupe que eu sei o meu lugar na sua empresa. — Completei movida pela frustração de ter que conversar com Cohen, mesmo contra minha vontade.
— Sua ideia é excepcional! — Disparou, fazendo-me parar no lugar. — Eu queria dizer que sinto muito. Não quis dizer aquilo.
— Mas disse. E agora que me ouviu faça o que achar que tiver que fazer, você pode contratar os melhores especialistas para isso. — Cutuquei outra vez, querendo somente sair dali o mais rápido possível.
— Você não está me dando a chance de me explicar.
— Eu tenho que ajudar os alunos!
— Está fugindo de mim!
— Não, é você quem está me seguindo quando eu não posso conversar.
— Hoje você não vai fugir de mim, Anya! — Disse parando na minha frente, obrigando-me a parar. E sinceramente, mesmo que ele nem estivesse me barrando agora, eu teria parado, porque nesse momento estou impossibilitada de reagir a sua fala. Era como se ele não estivesse falando comigo, mas com a mulher que o deixou para trás naquela noite. — Os alunos já estão indo embora, não me faça esperar muito.
Eu não sei o que ele quis dizer com aquilo. Uma certeza de que iríamos conversar era iminente, e pela forma como Cohen falou, talvez ele já saiba de toda a verdade. Minha nossa, enquanto eu falava, nem sequer passou pela minha cabeça que ele pudesse me comparar e reconhecer.
Isso era perfeitamente possível, já que eu usei palavras muito parecidas com a Dama de Prata. Me esquivei do seu olhar até o fim da feira, e quando os alunos foram embora, vi que ele realmente me aguardava enquanto fingia uma conversa com os coordenadores. Cohen estava sendo a atração dos universitários. Até fotógrafos vieram registrar o momento que provavelmente seria importante para o site da universidade.
— A feira foi um sucesso! — Anunciou Leeson animado, se aproximando de mim ao lado de uma senhora. — Quero que conheça uma pessoa. — Falou colocando uma mão em meu braço.
— Você deve ser Anya Amstrong. — Disse a mulher me cumprimentando. Por volta de seus cinquenta anos e muito bem vestida, era claramente uma empresária. — Leeson falou muito sobre você. Meu nome é Penélope Carter, CEO da maior agência publicitária de Seattle.
— Phoenix? — Inquiri surpresa e admirada, um pouco ansiosa por vê-la confirmar. — Ah, minha nossa, eu sou uma grande admiradora do seu trabalho. — Confessei cumprimentando-a.
— Eu sei. Leeson me enviou seu projeto usando meu trabalho como base, a reciclagem que você fez dos meus conceitos de imprensa e marketing foi impecável, uma visão muito moderna e pragmática. Eu adorei!
— Nossa, acho que eu não estava preparada para ouvir isso. — Suspirei sem graça. Fitando Leeson por um momento, ele não desmentiu, me deixando ainda mais nervosa. — Por Deus eu não estava criticando seu trabalho, apenas fui desafiada a reformular uma ideia que deu certo e hoje não daria mais, e bem, o mundo hoje está muito objetivo, eu penso que as pessoas querem praticidade. — Tentei me justificar, muito embora ela não tenha parecido incomodada.
— O impacto deve ser maior que o conteúdo. Eu sei disso, quer dizer, agora eu sei. Andei olhando seu histórico, preciso admitir que você é muito visionária. Adoraria te receber na agência uma hora dessas.
Leeson apertou meu braço como se me encorajasse, era realmente uma grande oportunidade, mas inadequada para o momento. Ingressar no ramo é necessário muito foco e tempo, algo que a própria universidade me limitava, e sem falar nos ganhos que ao se agenciar como freelancer, eu precisaria contar com a sorte de vender meus projetos, ou seja, nada garantido.
— Ah, eu adoraria, adoraria mesmo, mas eu já trabalho no momento, preciso de algo sólido.
— Eu imagino que sim, e a agência deve ser muito sortuda de ter você como colaboradora, então me diga Anya, com quem eu preciso disputar para ter você na minha equipe?
— Cohen Archer! — A resposta reverberou nas minhas costas. Vi a expressão da Penélope se surpreender, olhando para além de mim. No momento que olhei para trás, Cohen surgiu, parando do meu lado com um sorriso presunçoso nos lábios, sorriso esse que sumiu quando trocou olhares com Leeson.
Confiante, ele olhou rapidamente para mim, antes de voltar sua atenção a ela.
— Não é para menos, sempre os melhores não é Senhor Archer?! Infelizmente essa é uma disputa que eu não estou preparada para vencer.
— Eu faço questão. Visto que minha aluna é apenas uma secretária, tenho certeza que ela irá pensar na proposta. — Leeson respondeu por mim, atraindo o olhar desafiador de Cohen.
— Minhas portas estão escancaradas, Anya, adoraria ter o senhor Cohen como cliente após contratá-la. — Falou como se tivesse pego algo no ar, já que o sorriso escondia um comentário travesso.
— Eu vou pensar com carinho. Muito obrigada. — Respondi provocando Cohen, e recebendo um sorriso gratificante de Penélope, que se despediu de todos com um único aceno.
Leeson me olhou visivelmente empolgado, parecia uma conquista mais dele do que minha, enquanto uma sombra pesada se fazia presente, fulminando nós dois com o maxilar trincado.
— Enviou meus projetos a ela? — Indaguei desacreditada.
— Sim, já disse que a profissional escondida atrás de uma mesa precisa ser libertada, e eu ficarei feliz de ser seu pontapé inicial. — Respondeu Leeson sem mais delongas, como se Cohen nem estivesse ali.
— Pode ter certeza que você foi, mas como ouviu, ela já trabalha, e eu não costumo perder bons profissionais. — Respondeu Cohen. Leeson o ignorou como se o pobre não passasse de um fantasma.
— Pensa com carinho Anya, Penélope não costuma fazer a mesma proposta duas vezes. — Cohen bufou indiscretamente, desdenhando de modo irritadiço. O lancei um olhar repreensível como uma mãe conversando por olhares com um filho turrão, e voltei minha atenção para Leeson.
— Não se preocupe professor. Eu vou pensar com calma. — Olhei ao redor vendo a feira chegando ao fim. — No que precisa de mim agora?
— Como assim? Os alunos já estão indo embora. — As perguntas pareciam ser mais rápidas que os pensamentos de Cohen.
— Não estou aqui como aluna. — Respondi educadamente.
— Para trabalhar como secretária na sua corporação, minha aluna deixa de cumprir a grade de estágios da universidade, e precisa repor como voluntária nos eventos. — Completou Leeson como se isso realmente fosse atacar o Cohen. Eu não sabia mais como reagir e apenas encarei o vazio na minha frente. Aquilo parecia uma batalha inútil que eu não estava disposta a levantar minha torcida. — Mas, não Anya, você está liberada, me ajudou muito hoje.
— Obrigado professor.
— Nos vemos na próxima aula. — Ele saiu sorrindo, tocando meu braço uma última vez. Nos despedimos em olhares, e quando finalmente olhei para o Cohen, ele ainda olhava fixamente para o lugar onde Leeson tocou.
— O que pensa que está fazendo? — Inquiri sem cerimônia. Aqui ele não é meu superior, ainda que pudesse me mandar embora a qualquer hora e a qualquer lugar do mundo, isso não lhe dava o direito de intervir nas minhas decisões pessoais. — Desculpa senhor Cohen, mas não pode vir aqui e dizer ao meu professor que eu não posso considerar as sugestões dele, eu dependo das…
— Então isso é um aviso prévio, senhora Anya? — Me interrompeu colocando uma das mãos na cintura.
— Me diga você, porque se for, eu tenho uma porta escancarada bem ali como você mesmo ouviu. — Apontei para onde Penélope sumiu há pouco.
— Se acha que ela vai te oferecer uma oportunidade melhor que a minha, fique a vontade.
— Poderia ter tido isso apenas como forma de pensamento e não ter confrontado meu professor, minha carta de recomendação depende dele. Tenho trabalhado duro para não perder horas de estágio e isso, senhor Cohen, é um fator obrigatório, então se por um acaso ele decidir não me colocar mais nesses eventos, eu não terei mais escolha.
— Ei, ei, ei o que é isso? — Casper chega até nós rindo da situação. — Vocês estão brigando para ver quem demite primeiro?
Cohen se recompôs forçadamente, enquanto eu detive meu olhar nele. Milhares de pensamentos pareciam atormenta-lo naquele momento.
— Só estou dizendo que não estou na empresa. Ser meu chefe não te dá o direito de mandar em mim sempre que me ver, tampouco decidir algo pelo meu futuro. — Cohen me olhou com o maxilar relaxado, mas a testa franzida como se o medo estivesse fundido a surpresa desagradável das minhas palavras.
— Está pensando mesmo em sair? Cohen morreria sem você!
— Casper! — Ele rugiu. Seu irmão sorriu despreocupado e olhou pra mim novamente.
— Ele anda mais mau humorado que o normal, você deve saber por quê. Soube que vai ao pub com a Hannah mais tarde. — Mudou de assunto drasticamente.
— Ela me chamou, mas eu não dei certeza.
— Se eu disser que está aqui, ela vem te buscar, aquela ali não desiste fácil, se é que você me entende. — A lembrança de trisal me veio na cabeça. — Se eu faria isso? Faria sim. Isso com certeza irritaria meu irmão e eu não gosto de perder uma oportunidade de irritá-lo.
Pareceu que ele estava lendo meus pensamentos e só por esse motivo eu ofeguei, até entender que ele falava de avisar Hannah, e não do trisal.
— Nós vamos sair para conversar! — Cohen respondeu por mim.
— Diz que não, eu vou adorar ver ele ser desbancado. — Casper cochichou mesmo sabendo que Cohen estava ouvindo.
Foi inevitável não sorrir. Eu não entendia muito bem a relação dos dois, mas não me pareceu nada tão r**m quanto pintam. Enquanto eu sorria, Casper franziu uma sobrancelha intrigado, então me lembrei que estive de frente pra ele na noite da festa, então virei levemente o rosto.
— Na verdade, Cohen, eu combinei com a Hannah. — A verdade é que eu estava protelando uma conversa com ele.
Casper sorriu vitorioso, e virou-se para capturar a expressão desafiada de Cohen.
— Você iria mesmo? Não é o seu ambiente irmão. — Disse Casper como se conhecesse demais seu irmão para saber o que aquela expressão significava. — Isso vai ser interessante.
Meu sorriu sumiu.
Se eu não fosse, Cohen insistiria em uma conversa que eu não estava preparada para ter, não consigo me imaginar de frente para ele sem uma máscara, encarando a mesma pessoa que se atracou comigo em um canto escuro e escondido como dois funcionários irresponsáveis em horário de trabalho.
Decidi ir para o pub somente para fugir de Cohen, mas algo naquele olhar me dizia que sua promessa hoje iria se cumprir, e ele não me deixaria fugir.