Capítulo 4

1535 Palavras
Encontros e Desencontros O Que Fazer Quando Estamos a um Oceano de Distância? Arthur Lancaster não era um homem acostumado a esperar. Esperar significava depender. E ele detestava depender de qualquer coisa ou de qualquer pessoa. Ouvir um não era algo raro em sua vida. Mas Helena Alcântara disse o primeiro não que Arthur recebeu naquele ano. O convite para jantar foi recusado gentilmente pela secretária dela, através de um e-mail frio e formal. Ele teve o cuidado de conseguir o telefone pessoal dela com seu pai, Ricardo Lancaster, usando o pretexto de se inteirar dos negócios da transação trilionária. E Helena não só ignorou sua mensagem, como levou a coisa toda para o campo profissional. Respondendo com um mero e-mail de agradecimento e recusa. Naquela manhã, quase trinta dias depois do e-mail intragável, Arthur estava parado diante da enorme janela de seu escritório, com uma xícara de café esquecida sobre a mesa e os olhos fixos na cidade abaixo. Helena Alcântara ocupava seus pensamentos havia dias. O que, por si só, já era irritante. Ele tinha conhecido mulheres mais bonitas. Mais famosas. Mais sofisticadas. Mulheres que dariam qualquer coisa para ter sua atenção por cinco minutos. Mas nenhuma delas havia conseguido despertar nele aquela sensação incômoda de curiosidade. Helena tinha feito isso em menos de uma hora. E o pior? Ela sequer parecia ter percebido. Arthur pegou o celular sobre a mesa. Abriu novamente a mensagem que havia enviado a ela. Poucas linhas. Um convite simples, quase ingênuo. Nada demais. E, ainda assim, ela não havia respondido. Mesmo depois de dias. E ele? Era incapaz de deletar o contato. Apagar a mensagem. Ou simplesmente esquecer. Seguir em frente. Ele continuava com o olhar fixo na tela. — Isso está ficando ridículo. Disse sozinho. — Algum problema, senhor Lancaster? Arthur levantou os olhos. Seu assistente estava parado na porta. — Não. — O senhor está me chamando há cinco minutos. Arthur franziu a testa. — Eu estava? — Estava. Ele olhou para o celular. Depois para o homem. — Esquece. O assistente assentiu, mas não saiu. — A reunião com seu pai foi antecipada para amanhã. Arthur respirou fundo. — E a viagem para Paris? — Continua confirmada. Arthur ficou em silêncio. Paris. Helena. A coincidência era conveniente demais. — Qual é a agenda? O assistente abriu o tablet. — Reunião com os franceses pela manhã. Visita ao centro de distribuição à tarde. Jantar com os investidores à noite. Arthur assentiu. — E depois? — Nada programado. Um sorriso discreto apareceu no rosto dele. — Ótimo. Do outro lado do oceano, Helena não fazia a menor ideia de que seu nome havia acabado de entrar na agenda de Arthur Lancaster. Ela estava em Paris por motivos completamente diferentes. O contrato de expansão da empresa de seu pai exigia sua presença em algumas reuniões importantes. Era trabalho. Nada além disso. Helena havia passado a viagem inteira entre documentos, telefonemas e reuniões. Naquela manhã, saiu do hotel usando um conjunto elegante de três peças em tom claro, os cabelos presos de maneira despretensiosa e uma pasta nas mãos. Ela gostava da França. Talvez porque Paris tivesse uma maneira curiosa de fazer qualquer pessoa acreditar que sua vida poderia ser cenário de um romance. Mas Helena não estava procurando romance. Pelo menos era isso que repetia para si mesma. Depois do leilão, suas amigas não haviam parado de falar sobre Arthur. Sua mãe, muito menos. Mas ela tinha outras prioridades. Ou tentava ter. Precisava admitir, o homem era um gato. Um deus da mitologia grega. E ela acabou se permitindo imaginar cenas quentes e bem impróprias para menores de idade com Arthur Lancaster. Arthur chegou a Paris no início da tarde. A reunião com os investidores durou menos do que o previsto. O contrato que o trouxera até ali estava praticamente fechado. Era exatamente o tipo de negociação que normalmente prenderia sua atenção. Milhões. Expansão. Novos mercados. Poder. Tudo aquilo que sempre o motivara. Mas, naquela tarde, pela primeira vez, Arthur olhou para um contrato de bilhões e pensou em uma mulher que havia recusado um jantar seu. Ele passou a mão pelo maxilar. Aquilo era absurdo. — Senhor Lancaster? Arthur ergueu os olhos. — Sim? — Podemos comemorar. Eles aceitaram nossa proposta. Arthur olhou para os homens à sua frente. Sorriu. — Excelente. Mas não estava pensando no contrato. Estava pensando em Helena. No final daquela tarde, Arthur entrou no saguão de um dos hotéis mais tradicionais de Paris. Precisava encontrar um dos investidores para um jantar. Precisava. Era isso que dizia a si mesmo. Até que a viu. Primeiro, de costas. Depois, pelo jeito como mexeu nos cabelos enquanto conversava com uma mulher. Arthur parou. O mundo pareceu diminuir por alguns segundos. Helena. Ele a encontrara. Ela estava ali. Usava um vestido elegante, mas discreto. Não havia exagero. Não havia esforço para chamar atenção. E talvez fosse exatamente isso que fazia todos olharem para ela. Arthur sorriu de lado. — Então nos encontramos de novo. Ele disse ao se aproximar de forma quase silenciosa. Helena virou-se. — Não esperava ver você aqui, senhorita Helena. E seus olhos encontraram os dela. Por um instante, ela ficou completamente imóvel. — Arthur? Ele foi ousado, invadiu seu espaço pessoal e beijou o rosto de Helena duas vezes. — Helena. Ela olhou para ele como se estivesse tentando entender o que estava acontecendo. — O que você está fazendo em Paris? Arthur poderia ter respondido a verdade. Que havia descoberto sua viagem. Que tinha mudado parte da própria agenda. Que, apesar de ter negócios importantes na cidade, uma pequena parte daquela viagem tinha sido motivada pela possibilidade de encontrá-la. Mas não disse nada disso. — Negócios. Helena ergueu uma sobrancelha. — Claro. Arthur sorriu. — E você? — Trabalho. — Então temos algo em comum. — Temos? Ela perguntou desconfiada. — Estamos trabalhando. Ela riu. Aquela risada. Arthur percebeu que já havia sentido falta dela. E aquilo o incomodou ainda mais. — Você não respondeu minha mensagem. Helena ficou surpresa. — Mensagem? Ele enfiou as mãos no bolso do terno caro, tentando conter uma ansiedade que ele não se lembrava de ter sentido antes. — Sim, o convite para jantar. — Ah. Ela sorriu. — Eu respondi. — Recusando. Ele acusou. — Exatamente. Helena afirmou sem titubear. — Ainda está recusado? Helena segurou o sorriso. — Talvez. Arthur aproximou-se um pouco. — Talvez não é não. — Nem sim. — Então ainda tenho uma chance. Ela o encarou por alguns segundos. — Você sempre é tão insistente? — Só quando vale a pena. Helena desviou o olhar. E Arthur percebeu. Ela havia ficado sem graça. Pela primeira vez desde que a conhecera, ele teve certeza de que não era indiferente para ela. E aquela pequena descoberta foi suficiente para alimentar algo dentro dele. Algo que ele ainda não sabia nomear. — Preciso ir. Helena se antecipou em encerrar aquela interação, ao notar que não estava mais no controle. — Janta comigo hoje? Arthur pediu, quase como uma ordem, e Helena travou. Dentro dela, uma batalha se formou. Ela queria, mas sabia que não devia. Diante do impasse dela, Arthur cedeu. — Por favor. Helena concordou com um sorriso simples e um aceno de cabeça. — Às vinte horas? — Sim. Helena confirmou e saiu sem olhar para trás. Helena caminhava pelas ruas de Paris acompanhada de sua equipe. Arthur ficou parado na porta do hotel, observando-a desaparecer na multidão. Seu assistente se aproximou. — O carro está esperando. Arthur não respondeu imediatamente. — Cancele o jantar. — Senhor? — Cancele. — Mas os investidores... — Eles sobrevivem. O assistente ficou em silêncio. Arthur finalmente desviou os olhos da rua. — Quero saber onde Helena estará amanhã. O homem hesitou. — Amanhã? Arthur o encarou. — Algum problema? — Nenhum. Ele assentiu. — Então descubra. Naquela noite, Helena voltou para o hotel cansada. Tirou os sapatos e se jogou na cama. Pegou o celular. Havia uma mensagem. Arthur. Espero que tenha aproveitado Paris hoje. Ela sorriu. Digitou: Trabalhei o dia inteiro. A resposta veio segundos depois. Então amanhã eu espero que trabalhe menos. Helena riu. E por que você se importa? Dessa vez, Arthur demorou alguns segundos. Porque talvez eu queira roubar algumas horas suas. Helena ficou olhando para a tela. Seu coração bateu um pouco mais rápido. Ela deveria ignorar. Deveria lembrar que ele era Arthur Lancaster. O homem que aparecia nas capas das revistas. O bilionário que todas as mulheres pareciam querer. O homem que provavelmente estava acostumado a conseguir exatamente o que queria. Mas alguma coisa nela queria descobrir se havia algo além daquele sobrenome. Ela digitou: Boa noite, Arthur. Ele foi rápido na resposta. Te vejo às vinte hoje? Do outro lado da cidade, Arthur leu a mensagem. Sorriu. Ela não havia dito sim. Mas também não havia dito não. E, para um homem como ele, aquilo já era o suficiente para continuar a caça. Só que havia uma coisa que Arthur ainda não sabia. Ele havia começado aquela viagem acreditando que estava caçando Helena. Mas, pouco a pouco, sem perceber... Era ele quem havia virado a presa. E talvez fosse justamente aí que estivesse o perigo.
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