CAPÍTULO 2

2728 Palavras
Lucena, Itália - 2012 d.C O conselho foi convocado novamente. Já era a segunda vez naquela semana. As reuniões normalmente aconteciam a cada quinzena. Aconteciam! Este era o segundo mês consecutivo que os responsáveis pela cidade se reuniam emergencialmente na Catedral central, o local onde todas as decisões importantes eram tomadas. Era ali, sob a cruz vazia de Cristo e os olhos de Deus, que os homens e mulheres, eleitos por toda a cidade, decidiam o futuro de Lucena. — Ordem! Ordem! – O Reverendo Sr. Leonardo Bianccini batia com firmeza o martelo sobre o púlpito. Mas as pessoas pareciam não querer ouvi-lo, ao contrário, queriam ser ouvidas. — Ordem! Ordem por favor! – Insistiu. — A plantação está devastada! Precisamos de veneno! – Alguém gritou no fundo. — Não envenenamos as pessoas, senhor! – Outro rebateu. — Nossos alimentos nunca tiveram agrotóxicos. Não faremos isto agora. Tem que haver outro jeito! — Temos que pedir uma intervenção do Estado. O presidente tem que nos ajudar! — Isto é tolice! – Mais um resmungou. — Pode não parecer, mas também somos italianos. Eles comem e vestem o que produzimos aqui! — Porque ninguém está falando da desordem e falta de respeito que estamos presenciando nos últimos meses? Esses jovens precisam conhecer a realidade do mundo. Enviem esses moleques para o exército! – Um senhor bradou e foi seguido de alguns aplausos, porém os rapazes presentes torceram o nariz. — Sem contar a violência nunca antes vista nessa cidade. – Uma mulher com o filho no colo, colocou-se de pé e pediu a palavras. — Estamos vivendo tempos sombrios, comércios sendo roubados a luz do dia. Nossa polícia já não dá conta. Estamos abandonandos a própria sorte! – Houve um breve silêncio, mas logo outras pessoas apresentaram suas diversas e inúmeras queixas... e assim, por um longo tempo. Dona Laura, a Sra. Bianccini, mantinha-se calada, sentada ao lado da melhor amiga, Sra. Manfredini, estava alheia a toda aquela discussão. Seus pensamentos estavam longe e ela orava silenciosamente, mas a causa nada tinha a ver com que acontecia ali. Pelo menos assim, ela achava. —Tenha fé minha amiga. – A mulher de pele alva, olhos castanhos amendoados e cabelos da mesma cor, emoldurados num corte Chanel, apertou a mão magra e cumprida da Sra. Bianccini. — Como ela passou esta noite? — A pobrezinha não comeu nada outra vez – sussurrou, aflita. — Trancou-se no quarto dizendo que iria dormir, descansar... – uma lágrima que escapou pela lateral do olho n***o, foi discretamente aparada pela costa do dedo indicador. — Mas passou a noite em vigília! —Vigília? – A Sra. Manfredini foi incapaz de esconder a expressão de espanto. As vozes tornaram-se mais aquecidas e a discussão inflamada, então a mulher do Reverendo sentiu mais segurança em confidenciar à amiga, sem ser ouvida pelos demais. — Sim! – Olhou para o marido a frente do púlpito. — A pobrezinha passou a noite orando. Eu ouvi sua vozinha fraca, achei que estivesse ao telefone com a Lena mas, quando cheguei mais perto da sua porta percebi que na verdade, estava pedindo a Deus pela própria vida. – Voltou a fechar os olhos com força e engoliu sua dor e preocupação. — Preferi não a incomodar então achei melhor me ajoelhar à sua porta e fazer o mesmo. Fiquei com ela até não ouvir mais sua voz. Quando abri a porta, minha filha estava dormindo. Exausta! De joelhos no chão... – Fungou e recebeu com gratidão o lenço de papel das mãos da amiga. — "Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei entre vós" – A Sra. Manfredini citou a passagem bíblica do livro de Mateus. — Acalme-se Laura, ela é uma menina forte, jovem. Deus está cuidando dela. — Eu deveria estar em casa, cuidando da minha filha e não aqui! – Brincou com o fio solto da saia, indignada consigo mesma. — A Lena foi para lá e a Dona Gumercinda também está com ela, não há motivos para preocupações. Se ela passou a noite em claro, certamente está dormindo. Deixe-a descansar. No caso de algo acontecer, seremos avisadas. Leonardo está precisando muito mais de você, agora! – Em um gesto amável, a Sra. Manfredini escondeu sua preocupação para dar forças à amiga de infância. — Por favor, vamos tentar tratar de um assunto por vez. Não estamos chegando a lugar algum deste jeito! – O Reverendo voltou a elevar a voz energicamente. A Sra. Bianccini respirou fundo e enxugou as lágrimas. Estava cansada, mas não por ter passado a noite em claro. O cansaço era mental. Há meses as coisas não iam bem. Nada estava dentro da normalidade, a cidade estava em crise, casais se desfazendo, laços de amizade sendo cortados, famílias passando necessidade, os quase inexistentes roubos, se tornando contumaz, pessoas morrendo sem explicação, os animais também, homicídio que era uma palavra quase não pronunciada, já estampava a capa do jornal local pela segunda vez e agora... Sua única filha, que sempre foi extremamente forte e saudável, caia de cama sem qualquer causa ou explicação plausível. Era demais para suportar e mesmo assim, o seu marido passava por tudo aquilo sem reclamar. Depois de uma noite difícil, estava ali, como m****o do Conselho Governamental, deixando seus problemas pessoais de lado para tentar solucionar os problemas da sociedade. Na semana anterior, eram os comerciantes exigindo segurança, antes disso foi a delegação da saúde questionando a falta suprimentos nos hospitais, mas as delegações da educação, segurança, economia já haviam tido seus requerimentos ouvidos e hoje, os agricultores preocupados com suas plantações, tomadas por pragas e os fazendeiros reclamando da morte suspeita dos seus gados. O Reverendo tentava transparecer calma e controle, mas ao coçar ligeiramente a testa e ajeitar a gola da camisa, Laura interpretou os sinais de preocupação no semblante do marido. — Você está certa Rebecca! – Ajeitou o terninho cinza e endireitou a coluna. — Meu marido precisa de mim ao seu lado! Mas não posso negar que nunca me senti tão dividida. Estou aqui, mas minha cabeça está em casa! A amiga então passou o braço direito por seus ombros e com a mão esquerda, alisou o braço de Dona Laura. A mãe aflita baixou a cabeça e retomou as suas orações. **** Ao mesmo tempo, do lado de fora um carro preto com vidros da mesma cor, estaciona em frente à Catedral. Um homem alto e esguio de origem asiática, terno escuro, gravata e óculos de sol, desembarcou pela porta do motorista. Fez um reconhecimento prévio de todo o local, fechou o botão do meio de seu paletó e dirigiu-se à porta traseira. — Senhores, chegamos. É este o lugar, com certeza! – Disse antes de abrir a porta. **** Do lado de dentro, a discussão continuava fervorosa. As pessoas não se entendiam, não se ouviam. Nenhum diálogo teve êxito, os representantes da delegação falavam e falavam sobre seus problemas, enfim... Todas as reclamações foram levantadas. Sempre muito quieto e observador, Sr. Cesário, o descendente direto do homem que fundou Lucena e assim, m****o do Conselho por direito e herança, era um dos donos das terras que foram atingidas, seu ganha pão era a lavoura de arroz, milho e algodão, portanto também tinha muito a dizer ali, mas preferia, a princípio, limitar-se a ouvir. Sentava-se sempre ao lado do Primeiro Conselheiro, que na ocasião era o Reverendo Bianccini, os oito lugares do Conselho Diretor – o mais alto escalão do Conselho Governamental – ficavam atrás do púlpito, de frente para todos os fiéis. Decidido a pôr um fim àquela Torre de Babel, o velho levantou. Os olhos dos demais Conselheiros correram na sua direção. Ao colocar-se em pé, sentiu a sua espinha arrepiar. Um calafrio passou por todos os seus terminais nervosos e ele olhou para a enorme e pesada porta de madeira do século dezoito que ficava na entrada principal. O homem então deteve os seus movimentos e fitou o olhar naquele lugar. Observado por todos na Catedral, não se deu conta que o clamor e as vozes foram decrescendo até que o silêncio imperasse por completo. As pessoas não olhavam mais para ele. Todas as cabeças foram guiadas por seus olhos até o fundo da Catedral. Lá, três homens muito bem alinhados (dois de ternos preto e um de indumentária militar na mesma cor) estavam em pé. E nenhum deles tinha traços dos habitantes de Lucena. Não pareciam sequer ter nascido ou vivido ali. Eram forasteiros. Eles permaneceram parados nos seus lugares, não fizeram menção de recuar ou seguir adiante, apenas devolviam os olhares aos curiosos. — Perdão, senhores! – O padre, que não fazia parte do Conselho Diretor, saiu de um dos bancos e caminhou na direção deles. — Excepcionalmente hoje, a Igreja não atenderá aos fiéis. Como podem ver, estamos em reunião – Apontou ao entorno e foi ignorado pelo trio. — Mas se estiverem precisando de alguma oração ou pretendem se confessar, por favor peço que... — Obrigado, mas não precisamos nos confessar! – Um deles respondeu. — Bom. Mas então, se estão à procura de... — Queremos falar com o prefeito! – Outro replicou. — Falar... com quem? – O padre deu mais dois passos à frente. — Podem nos dizer onde fica a prefeitura desta cidade? – Insistiram. — Não temos prefeito por aqui, meu jovem. – A voz madura veio de longe. Mais precisamente de trás do púlpito. — E onde podemos encontra-lo? Assim vamos até ele e não os incomodamos mais! Murmúrios e cochichos ecoavam pela nave da Catedral. — Silêncio! – Pediu o velho Cesário. — Silêncio! Vamos mostrar um pouco de respeito à casa de Deus e aos nossos visitantes! – Pedindo a ajuda de um dos representantes das delegações, desceu do altar. — Acho que não fui claro com os cavalheiros, peço desculpas. – Aproxima-se do padre e dos três estranhos. — Nossa cidade não tem prefeitos ou governadores. Somos uma cidade autônoma. Temos um Conselho Governamental e os senhores chegaram no exato momento em que estamos no meio de uma de nossas sessões. — Era isto o que eu ia dizer! – O padre levantou um dedo, acanhado. — Exatamente por isto, hoje a igreja teve suas atividades suspensas... – Ignorando o clérigo, os homens nem mesmo dirigiam sua atenção a ele. — Pedimos desculpas por interrompê-los... – Um deles voltou a se pronunciar. — Pelo que intendi, é aqui que resolvem os assuntos do local. — Exatamente. — Deve haver alguém com quem possamos falar, então? — Certamente. Se o assunto do seu interesse tem a ver com a nossa pequena Lucena, podemos conversar com os senhores. — Muito bom! É com o senhor que falamos? – O terceiro deles, perguntou. O homem de vestes militares, barba e cabelos tão claros que algumas mechas chegavam a ser quase brancas, tinha tamanho e ar intimidadores. Era mais forte que um homem comum e ultrapassava confortavelmente os dois metros de altura. A pele muito branca, era realçada pelo uniforme totalmente preto. Sua voz era rouca e rasgada. Senhor Cesário também muito alto precisou se endireitar para poder olha-lo melhor. — Cesário Leumas, a seu dispor! E o senhor... — Raphael Arcangellis! – O homem tirou a boina que adornava a cabeça, revelando uma cabeleira longa, embolada num coque pouco mais acima da nuca. — Sr. Arcangellis, acredito que o assunto dos senhores seja de muita importância, mas neste momento a nossa cidade carece um pouco mais de atenção. Seria possível que fizessem a gentileza de voltarem amanhã e... — Desculpe, Sr. Leumas... Mas temos pressa e o que viemos fazer aqui, não pode esperar! – Outro deles, que permanecia calado, resolveu intervir. Era uma cópia de Raphael. No entanto, seus cabelos castanhos na raiz, tinham alguns tons mais escuros, tornando-se mais claros pela extensão até chegarem as pontas quase loiras. Também estavam presos, mas diferente do primeiro, eram presos a um r**o de cavalo um pouco bagunçado, ambos pareciam não ter muito trato com os fios longos. Com exceção do tom de pele (este devia tomar mais sol que o militar), cor do cabelo, barba e seus olhos serem azuis e não cinzas como os de Raphael; o tamanho, porte físico e traços do rosto eram praticamente os mesmos. — Não é incomodo algum, posso dizer por meus pares! – Sr. Cesário prosseguiu sereno. — Mas não temos hora para terminar aqui, isso pode ir até o cair da noite e acredito que os senhores tenham os seus compromissos também! — Neste momento o nosso compromisso está neste lugar. – Impaciente o grandão de cabelos castanhos deu um passo à frente. — Ouvimos uma pequena parte desta reunião... — Batemos à porta e como ninguém nos ouviu, entramos e foi inevitável. – O do meio justifica-se. — Vocês precisam de dinheiro? – Continuou a falar, o anterior. — Precisamos de muitas coisas, senhor! Toda ajuda é bem-vinda. – A voz do padre chamou-lhes a atenção pela primeira vez. — Nós somos a ajuda que precisam! Podemos fazer "muitas coisas" por vocês! – As suas palavras atravessaram a batina daquele franzino padre e lhe acertaram em cheio. Os olhos, escondidos sob hastes quadradas e finas, foram aos próprios pés. O falatório tomou conta da igreja novamente. Nem o Sr. Leumas, com todo o poder de se impor conseguiu calá-los. Algumas pessoas gritavam que aquilo era um milagre, outras urravam que não se venderiam, uma parte não sabia o que pensar... Então o ancião – como é chamado pelos Lucenenses – dirigiu-se aos sete Conselheiros sentados no altar e sugeriu que a sessão fosse suspensa por uma hora. **** Por seis votos a dois, os membros das delegações deixaram a Catedral sob protestos. Não era justo, nem mesmo aceitável que três completos desconhecidos que certamente nunca pisaram naquela cidade, tivessem algo mais importante que os nativos para tratar com o Conselho Diretor. — Usem essa hora para se alimentarem e descansarem um pouco. Estamos todos muito alterados. Não se resolve problemas no grito. – O Reverendo aconselhou a todos. — Vendidos! – Um Lucenense vociferou ao passar pelo padre, que se encolheu assustado. — Vá em paz, meu filho! – Respondeu tremulo antes de conseguir fechar a porta. Raphael que estava próximo ao homem de bata o encarava sem nenhuma vontade de esconder seu desprezo. Sentindo o olhar ardoroso do gigante, o franzino padre entrelaçou os dedos, baixou a cabeça e quase correndo, saiu do alcance daqueles estreitos, mas vorazes, olhos cinzas. — Covarde! – O militar rangeu entre os dentes. — Rapha. – Um deles repreendeu. — Tudo bem. Vocês já têm a nossa atenção. – O Reverendo Bianccini faz um gesto para que o trio se aproxime do altar. — Sabem bem a que custo, portanto, agora vocês têm exatamente – ergueu o punho esquerdo até as vistas e segurou o relógio entre o polegar e indicador direito – cinquenta e três minutos! Façam valer a pena. Caminhando pelo corredor central, em direção ao altar, os homens pareciam ficar ainda maiores conforme se aproximavam. Laura e Rebecca, não conseguiam lhes encarar nos olhos quando passaram por elas. A energia que emanava deles era forte e intimidante. Por um relance de segundos, a Sra. Bianccini ousou erguer o olhar e foi flagrada por um deles, que rapidamente tratou de desvia-lo e seguir em frente. Ela sentiu o corpo inteiro tremer. Sua boca secou e Rebecca precisou ampara-la para que não caísse. Ao chegarem aos oito Conselheiros, algo inexplicável aconteceu. As poucas pessoas que permaneceram dentro da Catedral, puderam presenciar os recém-chegados prostrarem-se sobre um dos joelhos, baixarem as suas cabeças e colocarem a mão direita fechada sobre o lado esquerdo do peito. Sussurraram algumas palavras, alheios a plateia atenta. —Quem são vocês? – Laura não conteve o pensamento que voou alto através dos seus lábios. Recompondo-se os misteriosos visitantes miraram a mulher. — Este é meu irmão gêmeo, Raphael – apontou para o que estava fardado. — Este é Mika, nosso irmão mais velho – referiu-se ao do meio. — E eu sou Gabriel, senhora! – Respondeu o homem que travou olhares com ela, segundos atrás. — Somos os irmãos Arcangellis – Mika foi a diante. — Viemos aqui para ajuda-los! Os olhos da mulher encheram-se de lágrimas, de um jeito inexplicável, seu coração suspirou de esperança.
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