"Terra sem nome", Reino da Sicília - 1690 d.C.
A pacata e discreta cidadezinha do campo no interior da Itália, quase não é notada no mapa, não recebe turistas, os visitantes que chegam de outros lugares são apenas aqueles que tem algum parente local, ou na última e mais provável hipótese: compradores que vem retirar mercadoria.
A pequena Lucena, pode ser invisível para quem está acostumado a pesquisar lugares nos sites de busca, certamente é o último lugar que alguém vai escolher como destino para uma viagem turística ou um tempo de descanso e posso apostar que você nunca ouviu falar dela por aí, mas não se engane ao pensar que é um local sem encantos ou méritos. Muito pelo contrário, Lucena esconde a mais bela história de amor jamais contada pela humanidade, mas muito conhecida nos Mundos Superiores e Inferiores.
A cidadela começou como um vilarejo e era na verdade um pedaço de terra improdutivo há alguns séculos. O rei Lorenzo V, era o dono, usava apenas como passagem para seus gados ou para pescar quando queria ter um pouco de privacidade (já que além de seus gados, quase ninguém transitava por ali).
Quando o rei morreu, o seu criado mais próximo – o único homem o qual o dono da coroa confiava de olhos fechados – decidiu se aposentar ainda que sob protestos da rainha e do príncipe herdeiro. Ambos gostariam que ele continuasse a servir a coroa com a mesma fidelidade e retidão com a qual serviu ao finado rei. Mas o homem alegou estar inapto para desempenhar um papel de tamanha importância, julgou-se exausto da vida errante, estava estafado, o corpo lento, suas vistas cansadas, a pontaria já não era tão exata e certeira como outrora e suas mãos já não tinham a mesma firmeza de quando empunha sua espada em defesa de Sua Majestade.
Tanto a rainha quanto o filho acreditaram nas escusas do nobre cavaleiro e por alguns segundos ele sentiu um nó por não estar sendo completamente honesto pela primeira vez com aquela família.
Mas o homem precisava cumprir sua jornada, ainda havia muito o que ser feito fora daqueles portões e seu papel ali, chegou ao fim quando o rei fora derrotado por um enfarto fulminante.
Dissuadidos do intento em convencer o homem a ficar, resolveram lhe presentear por todos os anos de serviços prestados sem qualquer mácula.
O Príncipe herdeiro o deixou escolher um quinhão de terra para passar os seus últimos anos. Humilde, o homem escolheu Lucena (anteriormente conhecida como "Terra sem nome"). O jovem prestes a ser coroado rei, riu achando graça na escolha ingênua do velho.
— Oras Sr. Comandante, este lugar existe mesmo? Pois eu nunca ouvi falar sobre ele. – Coçou a cabeça, após ouvir a descrição do local que o homem havia elegido.
— Existe sim, Vossa Alteza! – Respeitoso. Não ousou levantar a voz ou erguer os olhos aos do futuro rei. — O rei... Digo, o falecido rei, que o Pai o receba em seus braços, gostava de ficar por ali quando fazia seu retiro em busca de algumas respostas ou quando queria apenas estar sozinho – sorriu levemente, escondendo seu orgulho por ser o único a visitar o lugar, pelo menos era o único que esteve lá na companhia da maior autoridade de todo o reino. — Nem mesmo Vossa Majestade, a rainha soubera destas terras. – A viúva do rei Lorenzo V concordou em um aceno pudico. O rapaz, compadeceu-se do homem a sua frente. Estava feliz por saber que seu pai tivera um amigo de verdade. Alguém com quem pode dividir momentos dos quais, nem mesmo ele fez parte. Alisou a barba bem feita e pensou. Por fim, teve uma ideia:
— Leve-me a este local, homem. Quero conhecer o lugar favorito do meu pai, antes de tomar minha decisão.
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Dois dias depois, os homens seguiram viagem, da mesma forma que o rei costumava fazer: durante a madrugada, pelos fundos do castelo, com vestes dos serviçais, algum mantimento e poucas moedas de ouro. Quase três dias como anônimos na estrada, enfim chegaram à terra seca, com vegetação casta, cercada por um rio e nada mais.
Quatro dias foi o suficiente para percorrerem todo o perímetro e fazer o reconhecimento. A movimentação na estrada era praticamente nenhuma.
— Eu não entendo. – Disse o príncipe sentado em frente a fogueira. — Não há vida neste lugar... – Dizia enquanto levantava um punhado de terra e a observava escorrer entre os dedos. — Não há nada! Vai passar os seus dias finais em um lugar como este? – O velho permanece cabisbaixo, bebericando seu chá. — Ou você está completamente louco ou... – O jovem buscou o olhar perdido do homem sentado ao seu lado — há algo neste lugar que eu precise saber ou conhecer? – Desconfiou.
O homem de idade avançada para aquela época, aparentando muito mais que seus cinquenta e poucos anos, coberto de marcas na pele – heranças de todas as batalhas vividas e suas quase mortes por todas as vezes em que foi o escudo de Sua Majestade –, a face escurecida e maltratada pelo sol, cabelos ralos e sem corte, barba por fazer, dentes amarelados, unhas sem nenhum cuidado e mãos ásperas estampavam toda a sua história, toda a sua jornada estava tatuada em seu corpo.
Reverso a isso, seus olhos azuis como o céu da manhã ainda eram altivos, sagazes, rápidos e atentos; transpareciam sabedoria de quem aparentava ter vivido muitas vidas, mas contrastavam com a jovialidade de um guerreiro em sua melhor forma. O que fazia com que sua real personalidade não viesse claramente aos seus inimigos, mas traziam alento e confiança aos seus amigos.
O Comandante do Exército do rei não se intimidou com a forma inquisitiva com que o filho de seu superior se dirigiu a ele. Foi ele quem formou aquele jovem homem para os campos de batalha. O próprio falecido dono da coroa lhe conferiu pessoalmente a tutela de seu único filho homem. Aquele senhor, apesar de já cansado, ainda tinha vigor em suas veias, poderia facilmente lutar mais algumas batalhas ao lado do príncipe e futuro rei. Conhecia o rapaz como a palma de sua mão, sabia que ele era inteligente e esperto, já esperava por aquela indagação, afinal, foi ele quem o ensinou a ser quem era e se orgulhava do que via.
— Boa pergunta, meu jovem rei. – Sorriu levemente e degustou calmamente outra dose de seu chá. — Não deixe que a primeira camada obstrua suas vistas!
— Estou cansado e faminto, velho. Não tenho nenhum tipo de humor para adivinhações. – Irritou-se o mais novo. — Vamos, diga-me o que há nestas terras que o fez interessar-se por elas. O que há escondido neste lugar maldito? Porque meu pai e você não o relevaram para nós?
— Foi aqui que eu nasci, meu jovem! Foi exatamente neste lugar onde estamos sentados, que eu cheguei a este mundo. – Os olhos claros espelhavam as chamas que dançavam enquanto os aqueciam. — Alguns dos meus irmãos também nasceram aqui. Seu pai, o rei, era só um pequeno e despreocupado príncipe, tinha quase a mesma idade que eu quando o seu avô, o rei Patrício II, e ele passavam por aqui, retornando de uma longa viagem de férias. Eu estava sozinho na beira do rio. Não sabia o que havia sido feito da minha família. Fui levado pelas criadas e no castelo recebi pão e água. Tive uma cama de verdade e vestes limpas... E recebi a educação de um soldado...
— Sim! – Envergonhado o rapaz não temeu mostrar o seu sentimento diante do homem que o tornou um guerreiro. — Ouvi muito meu pai sobre como meu avô o encontrou perambulando pela estrada. Mas nunca me disse onde aconteceu!
— Eis aqui! – O velho apontou o chão coberto com uma rala grama seca. — Quando jovens, sempre que podíamos, escapávamos e acabávamos vindo parar aqui. No começo ele não entendia... Mais maduro, entendeu: eu tinha esperanças de encontrar minha família no lugar onde os vi pela última vez. – O rosto permanecia inexpressivo, como se narrasse uma história alheia. — Quando o rei já havia herdado a coroa, manteve o habito de visitar a região, mas o motivo já não era mais o mesmo... Este, havia se tornado um lugar sagrado para nós! – O jovem nada disse. Apenas meneou levemente a cabeça, serviu-se mais um pouco de chá e não voltou a tocar no assunto.
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Assim que assumiu oficialmente a coroa, o jovem rei baixou um decreto onde concedia aquelas "Terras sem nome" a aquele que foi o líder do exército de seu pai. Junto com elas, lhe conferiu o direito de escolher e levar consigo alguns trabalhadores, professores, um médico, uma parteira, um cientista, uma alquimista, construtores, cozinheiras, lavradores, homens, mulheres, crianças e até um padre. Familiares de soldados mortos em combate que pudessem viver, trabalhar e (tentar) germinar algo de produtivo do qual pudesse ser utilizado para alimento e renda deles.
O filho do rei morto ofereceu uma boa quantia em dinheiro e joias que lhe proporcionariam uma vida dignamente confortável, mas o velho homem pediu que o novo rei distribuísse aquele dinheiro entre as pessoas que iriam segui-lo para uma nova e incerta vida, pois guardou o suficiente para si, ao longo de todos os anos. E ele assim o fez. Mas não parou por aí, o rei enviou animais, gado, sementes, feno, sacas de mantimento e algumas carroças para que a "Terra sem nome" pudesse povoar e erguer um pequeno vilarejo.
Ofereceu alguns homens de sua guarda para fazer a segurança dos novos moradores e por fim, decretou expressamente que aquele novo povoado tinha autonomia para gerir a sua forma de ser governado. As decisões seriam tomadas por um conselho eleito pelo braço direito do rei morto, e eles só se subordinariam diretamente ao rei e ao seu herdeiro e ao herdeiro do seu herdeiro; da mesma forma, somente o velho se dirigiria ao rei caso precisassem de algo e na falta dele, um herdeiro se houvesse ou quem ele elegesse seu sucessor enquanto a monarquia durasse naquele país.
Ninguém poderia se opor a forma de gerenciar que fosse escolhida por aquela cidade. Apenas o rei, se a ordem ou falta dela, interferisse em qualquer outro lugar do reino.
O homem de meia idade despediu-se do recém coroado rei, deixando um soldado de sua credibilidade em seu lugar. Tomou a liberdade de abençoar sua majestade e desejar-lhe um longo e próspero reinado, com sabedoria e honestidade. Trocaram um firme e demorado aperto de mãos e então, o velho partiu – com aqueles que seriam sua nova família – em direção a Lucena.
Passados quase dois anos de se assentarem e começarem a construir seu lar, o conselho do velho estava instaurado, as leis internas estabelecidas por meio de votações democráticas, devidamente enviadas ao rei e homologadas por ele. Os gados tinham um vasto pasto para se alimentar, as sementes já davam seus primeiros sinais de vingar, os algodões se transformavam em vestimentas, as casas já estavam em pé, algumas crianças ali nasceram, e a antiga "Terra sem nome" agora era um vilarejo com pouco mais de quinhentos habitantes.
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De cima de um morro, o antigo braço direito do falecido rei observava o sol se pôr no horizonte de Lucena. Sereno, sentiu que não estava só.
— Já era hora, meu irmão! – Sentou sobre um manto e trouxe os joelhos para junto do peito. — Achei que não receberia mais a sua visita.
— Tenho andado ocupado. Não é fácil administrar e solucionar tantos conflitos! – Disse um homem que permanecia em pé, poucos metros atrás do velho.
— Acha que eu não sei? – Respondeu o primeiro, enquanto contemplava as tochas que começavam a se ascender em frente às casas, abaixo de suas vistas.
— Tem feito um bom trabalho por aqui. – O recém chegado juntou-se ao velho. — Estou orgulhoso de você. – O guerreiro aposentado agradeceu meneando a cabeça. — E nosso pai também! – O segundo pousou a mão sobre os ombros cansados do ex guerreiro.
— Isto é... reconfortante!
— Sabe que pode declinar se julgar que seja o melhor!
— Trabalhei duro para chegar até aqui. Não vou abandonar este povo agora que eles têm alguma esperança. – Os olhos azuis do velho vibraram. — Não sou homem de abandonar uma missão!
— Obrigado, meu irmão. Eu sabia que você era a minha melhor escolha.
Sentados ladeados, mantiveram o silêncio por longos minutos até que a noite cobriu por completo o céu.
— Diga-me: que notícias tens para mim? Você não viria pessoalmente se nosso pai não tivesse algo muito sério a me dizer. – O velho quis saber.
— A semente já foi lançada. Aqui, será um bom lugar para a chegada dela! – Respondeu o visitante.
— Isto significa que o tempo de paz está quase no fim. – Concluiu, sereno com a notícia que não inspirava qualquer conforto.
— Não posso lhe assegurar nada quanto a isso. Mas aconselho que se prepare, prepare seus melhores homens e coloque-os de prontidão!
— Não precisa me alertar neste sentido. Fui treinado e preparado por você, deveria saber que meus homens sempre estarão prontos e alertas! – Apontou para as pequenas tochas em frente a cada porta. Ao lado delas, homens altos, fortes e de expressões duras, empunhavam suas espadas sem piscar uma vez sequer.
— Eles estão felizes por serem úteis e por estarem de volta ao lugar onde nasceram. – A voz calejada do velho demonstrava o orgulho por seu feito.
— Estão dispostos ao sacrifício? – Perguntou o homem de aparência jovial, apesar de séria e comportamento maduro, quem o visse, não lhe daria mais que três décadas.
— Estão em busca de redenção! – Foi incisivo.
— Se assim o for... Serão recompensados! – Assegurou o segundo.
— E nossos irmãos? Por onde andam? Como estão?
— Em suas missões, como sempre! – O visitante ergueu os ombros sem dar maiores detalhes. — Nosso irmão Diplomata está em uma missão ao sul do oriente médio, não tem planos de voltar tão cedo!
— Até que ela chegue... – o guerreiro deduziu.
— Se conseguir manter a ordem por aqui, ele não precisará regressar... Não precisará sequer saber que ela voltou!
— Assim espero! – O mais velho balançou a cabeça concordando.
Colocaram-se em pé. O visitante não podia se estender por mais tempo, precisavam se despedir.
— Lucena, então?
— Já faz muito tempo... – Pela primeira vez em anos, arriscaria dizer décadas, os olhos do homem encheram-se de lágrimas. — Achei que sua lembrança merecia ser eternizada!
— É justo!
O velho sabia que seu irmão entendia seus sentimentos, mas não teve coragem de perguntar o que seu coração tanto queria saber.
— Ela está bem. Eu mesmo cuidei de leva-la até nosso Pai. Ele a recebeu de braços abertos e tratou de todas as suas enfermidades pessoalmente. – Apertou o ombro do outro e sorriu. — Ela está feliz!
O velho apesar de já muito alto, ossos fortes, parrudo e de ombros largos, sentiu-se inflar e deixar-se encher de vida novamente.
— Você me deu a melhor das notícias! – Abraçou o visitante. — Leve meus mais sinceros e eternos agradecimentos ao nosso Pai.
— Ele já os recebeu!
Antes de se separarem e seguirem por lados opostos, os irmãos entreolharam-se com cumplicidade. Curvaram suas cabeças e pousaram a mão direita cerrada no lado esquerdo do peito. E então cada um virou-se na direção do seu caminho.
— Irmão! – O velho ouviu a voz do visitante.
— Sim?
— Eu sei que você dará o seu melhor por aqui. Mesmo assim, sabe que pode contar comigo sempre que precisar. basta chamar por mim e eu virei.
— O mesmo eu digo a você. Afinal, foi o que sempre nos ensinou, não é mesmo? Devemos cuidar uns dos outros!
— Mesmo que não concordemos com as atitudes, sentimentos ou pensamentos dos outros... – Completou o segundo.
— Eu entendo o nosso irmão. Por isso aceitei estar aqui de bom coração! Por ele, eu aceitei!
— Ela também é nossa irmã. Merece uma nova chance. Me pediu ajuda, e meu dever é defende-la e assim o farei.
— Conte comigo!
Sem mais delongas o velho pegou seu manto do chão, sacudiu e colocou sobre os ombros. Virou-se para o seu Vilarejo, olhou para o céu e sorriu levemente.
Sabia que deveria aproveitar seus dias de calmaria. Descansar, porém sem baixar a guarda. Na verdade, como todo guerreiro, uma pontada de inquietação e anseio por uma nova batalha brotava em seu peito. Não menosprezara o aviso recebido, mas a segunda mensagem o deixou feliz ao ponto não se preocupar com o que chegaria. Ele estaria pronto. Estaria a espera e suas forças estavam renovadas.
O visitante, permaneceu no lugar, observando o irmão até que este sumisse do seu raio de visão.
— Boa sorte, Samuel. Que Deus seja convosco! – Disse antes de partir.