PRÓLOGO

396 Palavras
Ecbátana, Astiáges - 200 a.C Na penumbra gélida da madrugada a casa estava silenciosa, todos haviam se recolhido aos seus aposentos, exceto ela. A chorosa mulher, balançava seu corpo sobre os joelhos para frente e para trás, era quase dia, mas ela já havia perdido a noção do tempo. Havia passado toda a noite naquela mesma posição: prostrada, os ombros derrotados, a cabeça baixa, as mãos entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. As lágrimas ainda desciam por seu rosto, e embora o piso de terra batida machucava-lhe a carne, ela já não sentia dor. Não a dor física. As lágrimas vinham da dor que dilacerava-lhe a alma. Protegia-se com um fino manto que cobria a longa camisola, o corpo tremia, mas ela não sentia mais o frio. A pouca iluminação do ambiente, vinha da vela quase derretida por completo. Mas ela não se importava. Estava a tantas horas de olhos fechados que a escuridão não lhe incomodava... Havia muito que as sombras a acompanhava, faziam parte de sua vida mesmo durante a claridade do dia. Mental e espiritualmente, estava cansada. Já não tinha forças para prosseguir, não encontrava sentido em continuar a viver, sua honra estava ferida, sua dignidade maculada, as terríveis provações a enfraqueciam. Sua crença estava abalada. Com o sopro de fé que lhe restava, fazendo uma última tentativa – antes de desistir de si, antes de desistir de Deus – ela caiu de joelhos e pôs-se a orar. Sua mente perturbada não conseguia mais raciocinar, então ela clamou, repetidas e incontáveis vezes a mesma oração em murmúrio: "São Miguel Arcanjo, defendei-nos neste combate, cobri-nos com o vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Instante e humildemente vos pedimos, que Deus sobre ele impere e vós, Príncipe da milícia celeste, com esse poder divino, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas. Amém." A luz enfim, chegou aos seus olhos, "já é dia!", pensou. Ao abri-los, viu a finda chama da vela tilintando-se até não restar um lampejo, apesar do adiantado da hora, o sol ainda não havia se mostrado e a lua continuava a imperar, assustada e confusa, buscou ao seu redor e nada encontrou. Por fim, rendeu-se à exaustão e ali mesmo, no chão, entregou-se ao sono. Estava sozinha – acreditou – na completa escuridão.
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