Bruna
Eu estava limpando o mercado quando a minha prima me ligou. Rezei para não ser mais problemas.
Gabriely: A Aurora tá com febre, Bru. Acho melhor você vir pra casa. Esperei pra te ligar, mas não baixa por nada.
Bruna: Meu Deus… eu tô indo agora. A Bia tá bem?
Gabriely: Tá sim, mas tá chamando a mamãe.
Desliguei e fechei tudo correndo. Moramos na mesma rua do mercado, então qualquer coisa eu sempre corro pra casa. Tive as duas meninas de parto normal, e a tia Beta e a Gaby são toda a minha base. Graças a Deus, eu tenho elas comigo.
Quando cheguei, ajeitei a minha menina, que ardia em febre, cuidei da Bia também e me sentei. Elas não podem ficar doentes, meu Deus. Eu não posso passar por mais uma dessas.
Gabriely: Vou ficar aqui com vocês. Tá tudo bem, Bru?
Bruna: Não sei mais o que fazer, Gaby. As contas não fecham. Eu só tenho dois meses pra pagar o agiota e o banco. Ou eu perco a casa, ou eu perco tudo.
Gabriely: Eles não podem ficar te roubando assim, toda semana. Vai falar logo com aquele demônio. Ele tem que resolver. Não bate no peito dizendo que aqui tem ordem? Você é moradora, paga suas contas e ainda dá a parte deles no morro.
— Você não merece isso. Sem falar que as meninas são filhas de quem são, né?
— Enquanto aquela bruaca vive como herdeira do pai delas.
Bruna: Tá maluca, Gaby? Eu não quero nada deles. Não quero ver, nem que cheguem perto das minhas filhas. Do que vai adiantar eu contar? Eles voltam e ficam piores.
— Eu queria ir embora, recomeçar com as meninas em outro lugar, mas não tem como.
Gabriely: Eu tô preocupada com você. Eu vi as cartas do banco e vi também aquele infeliz do agiota te cobrando.
— Eu não queria te convidar pra isso, porque sei do seu respeito. Não que eu não tenha, porque você sabe… entre a miséria e a vida, eu prefiro uma vida boa. Sem roubar, sem passar por cima de ninguém.
Bruna: Eu não tenho coragem.
Gabriely: Você não pode brincar com a sorte. Esse homem é perigoso. E o banco toma sua casa. A gente te aceita aqui com as meninas, claro, mas eu sei que você não vai gostar.
Uma vez por mês tem um evento. Diferente do que eu faço todo dia.
— É tipo aqueles filmes. Fantasiados, ninguém conhece ninguém, os lances são altos e você não paga nada pra casa.
— Eu sei que a sua índole é outra, mas você tá à beira da loucura e não tem outra saída. Até tem, mas você não vai querer, né?
Eu olhei pra ela incrédula. A Gaby é garota de programa. Não dessas aqui do morro. De luxo. Muitas vezes nem acontece nada, ela só sai com os caras. Ela fez um bom dinheiro. Apesar do que pensam da profissão, a Gabriely tem um coração bom. Nem com os caras do morro ela sai. Eu nunca julguei. Sei que ela fez o que precisava ser feito.
Gabriely: Eu vou te ajudar em tudo. Posso até te emprestar um dinheiro, mas sei que você não vai ficar em paz devendo. Eu não tenho muito, tô gastando com a mamãe. Não quero que ela se vá como a tia.
— Isso é problema de família. E você tem que pensar nas meninas. Vai que um dia, Deus me livre, elas precisem de muito dinheiro? A vida não é justa. E como eu disse antes, você não merece isso. Não merece ficar refém de tantos problemas. Agora você só precisa escolher o que vai fazer você jogar o orgulho de lado.
Em três dias acontece o baile. Eu não vou falar mais nada sobre isso. Se você for, eu passo aqui, a gente vai juntas. Chegando lá, você se veste, fantasiada. Ninguém vai saber que é você. Só no quarto. E os caras de lá não perseguem ninguém, muito menos reconhecem. Você se diverte, faz o que tem que ser feito, volta com o dinheiro e vai amenizando as coisas.
Dá pra pagar aos poucos e depois reabrir o mercado em outro lugar. Se precisar, eu falo com o Lyon e peço proteção. Esses vagabundos tão passando dos limites.
— Pensa se você quer viver anos nessa miséria e se quer perder tudo o que é seu.
— Ninguém tem o direito de te diminuir. Aqui ninguém é exemplo. Eu mesma prefiro ser o que sou do que viver humilhada por salário mínimo ou igual às mulheres desse morro. Lá é profissional. Sem humilhação, só compromisso. E com sorte a gente até goza. Tem quanto tempo que você não sabe o que é isso?
— Você não é santa. Eu sei que você só não vive porque a vida insiste em te derrubar. E ainda te colocou alguém no caminho que te magoou logo de primeira. Então pensa bem, tá?
— Vou fazer um lanche pra nós. Fica com as meninas.