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Bruna
Eu não aguento mais tantos papéis espalhados sobre a mesa.
Extratos bancários, notificações de atraso, hipotecas, promissórias de agiotas. Eu passo os olhos por cada linha como se, em algum lugar, fosse encontrar um erro, uma cobrança indevida, qualquer coisa que me desse esperança. Mas não tem. Está tudo certo — certo demais para estar errado. Tudo no vermelho. Tudo acabando. Nenhuma solução rápida. Nenhuma saída limpa.
Como essa situação chegou a esse ponto?
Eu respiro fundo, passo a mão no rosto e sinto um cansaço que não é só físico. É um cansaço de alma. De quem tentou fazer tudo certo e, mesmo assim, perdeu.
Meu nome é Bruna. Sou dona de um mercado que fica abaixo do Morro da Maré, quase colado no asfalto. A minha família sempre foi muito pobre, mas nunca fomos acomodados. Meus pais chegaram ali com quase nada e foram se virando como podiam. Minha mãe começou com um mercadinho pequeno, simples, daqueles que vendem arroz, feijão, pão e fiado para vizinho antigo.
Eu cresci ali dentro. Aprendi a fazer conta antes mesmo de aprender a escrever direito. Fui crescendo, estudando, ajudando e, quando me dei conta, já era eu quem estava tocando o negócio. Aos poucos fui aumentando, trazendo mais mercadoria, melhorando os preços. O mercado cresceu junto comigo. Passou a atender não só quem morava ali embaixo, mas também muita gente da favela.
Não era só sobre dinheiro. Nunca foi.
Era sobre dignidade. Sobre construir algo honesto. Sobre dar estabilidade para minha família. Sobre poder dormir em paz e acordar sabendo que, por mais difícil que fosse, eu estava no controle da minha própria vida.
Morávamos ali desde sempre. Não dentro da favela, mas no pé do morro, bem embaixo, de frente para o asfalto. Sempre evitei subir. Não por preconceito, mas por medo. Minha mãe também era assim. A gente sabia respeitar, sabia conviver, mas mantinha distância.
O mercado já tinha sido assaltado algumas vezes. Nada fora do esperado para quem trabalha ali. Mas, de repente, isso parou. Nenhum roubo, nenhuma ameaça. Na época, eu achei que fosse sorte. Achei que fosse uma fase melhor.
Hoje eu sei.
Hoje eu entendo.
E me sinto burra por não ter percebido antes.
Tudo começou a mudar quando conheci o Rodrigo.
Ele apareceu como quem não quer nada. Educado, carinhoso, atencioso demais para ser só aparência. Era bonito, tinha um sorriso fácil e um jeito de olhar que fazia a gente se sentir escolhida. Eu tinha vinte e três anos e nunca tinha me permitido amar ninguém de verdade. Sempre fui fechada, desconfiada, prática demais para romance.
Com ele, eu me permiti.
Foram meses felizes. Meses em que eu ri mais, dormi melhor, acreditei que talvez a vida estivesse finalmente me devolvendo algo bom. Eu me sentia protegida, desejada, importante. Não suspeitei de nada. Ou talvez tenha suspeitado, mas escolhi não ver.
Até descobrir quem ele realmente era.
Rodrigo não era só um traficante. Ele era um dos donos da Maré. Quando a verdade veio, veio como um soco. Vieram as mulheres me procurando, as ameaças disfarçadas de aviso, os olhares atravessados. Tudo fazia sentido tarde demais.
Eu tentei terminar. E terminei. Mas ele não aceitou.
Disse que eu ia me acostumar. Que era assim mesmo. Que eu era dele, com ou sem aliança, com ou sem concordar. Mesmo tendo mulher, mesmo vivendo aquela vida. Hoje eu entendo que ele ameaçou meus pais, outras pessoas, talvez até clientes, para que ninguém abrisse a boca e me contasse quem ele era de verdade.
E funcionou. Funcionou por tempo demais.
Quando recebi a notícia de que ele tinha morrido, senti algo que me envergonho até hoje de admitir: alívio. Achei que, finalmente, estaria livre daquele pesadelo. Duas semanas depois, descobri que estava grávida.
Chorei como nunca tinha chorado antes.
Mas aceitei.
Era um presente. Um recomeço. Um pedaço de mim que não tinha culpa de nada.
Foi aí que tudo começou a desmoronar de verdade.
Minha mãe adoeceu pouco tempo depois. Problemas nos rins. Foi rápido demais. Um dia ela estava reclamando de cansaço, no outro estava internada. E depois… não voltou mais. Ela morreu sem ver as netas nascerem. Sem segurá-las no colo. Sem saber que tudo o que ela construiu estava prestes a ruir.
A morte dela me quebrou.
Meu pai nunca mais foi o mesmo. Primeiro veio o silêncio, depois a bebida. Depois as drogas. Eu chorava toda vez que ele chegava em casa daquele jeito. Eu tentava conversar, ajudar, implorar. Nada adiantava. O dinheiro começou a sumir. As coisas da casa também. As dívidas chegaram sem pedir licença.
Eu estava no puerpério. Em luto. Tentando ser forte por duas bebês que dependiam de mim para tudo. Eu não tinha tempo para cair, mas caí mesmo assim.
Perdi o chão.
Fechei o mercado por dois meses. Não queria, mas precisava. Eu precisava respirar, me recompor, fingir que estava bem. Quando reabri, quase tudo tinha sido roubado. Prateleiras vazias. Geladeiras desligadas. Um vazio que doía mais do que qualquer palavra.
Peguei empréstimos. Um atrás do outro. Dívidas sobre dívidas. Pensei em procurar o dono do morro, mas não quis. Não queria dever nada a eles. Não queria contato com aquele mundo de novo. O que eu ia dizer? Que os próprios homens deles estavam me roubando? Eu conheço bem esse tipo de ajuda. Ela nunca vem de graça.
Lyon sempre me deu medo. Raiva. Depois de tudo o que vivi com o Rodrigo — o Caverna — eu passei a enxergar melhor quem realmente mandava ali. Eles chegaram a me oferecer ajuda. Recusei. Não quero nada deles. Nada.
Só queria esquecer que um dia passei por aquele inferno.
Com os empréstimos, consegui reabrir o mercado. Passei quase um ano em paz. Mas agora tudo se tornou impossível outra vez. Eu compro mercadoria, eles roubam. Eu tento pagar, as cobranças aumentam. Estou à beira de fechar de novo.
E como eu vou fazer?
Como trabalhar sem dinheiro para pagar uma babá para as meninas? Como sustentar duas crianças sozinha, cercada por dívidas, medo e promessas quebradas?
Eu olho para tudo isso e sinto o peito apertar.
O que eu vou fazer, Senhor?
Por que eu tenho que passar por tudo isso?