Pré-visualização gratuita A Morte
Eu não me lembro de muita coisa antes daquilo, o que é muito estranho.
É claro que ninguém espera por algo assim, mas sempre pensei que seria o tipo de cara que morreria velho e sozinho ou com pelo menos um gato ao meu lado. Mas parece que o destino tinha outros planos pra mim.
Tudo o que me lembro é de me sentir desnorteado e completamente confuso, olhei para aquele rosto e sabia. Eu não estava vivo.
Deixe-me explicar-lhe corretamente desde o começo, eu tenho certeza que meu raciocínio estranho está confundindo você. E tenho certeza que vai confundir mais ainda quando eu terminar de contar a minha história.
Meu nome é Carter Burnier, recém-formado na faculdade e um mestre quando se trata de computadores, dominando a arte da programação. Posso hackear qualquer sistema sem dificuldades, embora não o faça regularmente, quer dizer, só se me acrescentar em algo. Enfim... Eu tenho 20 anos, ou melhor dizendo, tinha.
Hoje o dia amanheceu lindo de morrer, o que realmente aconteceu, desculpe o trocadilho, manhã de quinta com clima moderado era tudo o que eu precisava para chegar até lá, porque para variar acordei atrasado para uma entrevista de emprego, então juntei todos os meus pertences de forma desorganizada dentro da minha mochila, coloquei minha bicicleta para fora do prédio e sai correndo feito louco. Eu sei que você deve estar pensando que esse foi o meu erro; e foi mesmo não vou negar, mas convenhamos, quando você sai atrasado da sua casa você não imagina que algo terrível vai acontecer no seu percurso. Pelo menos eu morri de uma forma nobre e acho que por isso tive outra chance.
Eu pedalei rápido pela Avenida Granford, parecia que todas as pessoas estavam agitadas essa manhã, tanto que o transito estava uma loucura; o sinal mudou para vermelho e eu parei enquanto balançava o pé impacientemente esperando o sinal abrir para que eu voltasse a correr; no caso pedalar. E foi exatamente nesse cruzamento que tudo aconteceu.
A garotinha loira de cabelo encaracolado saiu correndo do prédio do outro lado da rua, ela estava vestindo um vestidinho branco rodado, parecia uma princesinha, ela correu rumo à rua ao mesmo tempo em que veio um carro em alta velocidade, tudo pareceu acontecer em câmera lenta; uma moça saiu correndo do prédio gritando, eu gritei abandonando minha bicicleta no meio da rua atravessando freneticamente pelos carros que passavam, buzinavam e xingavam e empurrei a garotinha em direção à moça que com toda certeza deveria ser mãe dela, pois elas pareciam, nesse momento senti algo me atingir e eu não vi mais nada. Quer dizer, estava deitado imóvel em alguma coisa com os olhos abertos olhando em direção a garotinha com a mulher, ela tampava o rosto da menininha impedindo-a em olhar na minha direção, enquanto a mesma chorava e gritava “Chamem uma ambulância”, no começo, eu sentia-me quase anestesiado, eu não conseguia me mexer, nem mesmo pensar, começava a me sentir mais leve e minha visão sumir lembro-me de ter ficado ali assim olhando para a moça e me perguntando “Por que ela está me encarando assim? Por que não me ajuda a levantar desse chão?”.
Mas ai estava o meu erro, eu não estava no chão e muito menos estava ali.
†
Abri os olhos lentamente porque tudo o que eu sentia era dor, ou pelo menos achava que sentia, eu pisquei não uma, não duas e não três, mas várias vezes ao perceber o que estava parado à minha frente ou no caso quem:
— Um anjo! — gaguejei atordoado observando aquela beleza na minha frente.
Era isso, eu estava morto e um anjo veio me buscar. Pelo menos eu tenho passagem para o céu, posso ir em paz.
Ela me encarou de sobrancelha erguida com um sorriso diabólico no rosto.
— Não! Eu sou a morte!
Oh, d***a!
Que morte mais bela!