Dia 8

967 Palavras
Quanto mais os dias passam mais me sinto melancólico, não é só uma chance que estou tentando conseguir para Nancy de recuperar sua saúde e viver de uma forma saudável, mas também que quando acontecer, não estarei vivo para prestigiar as conquistas dela ou as minhas. São os últimos dias de minha vida se é que posso dizer assim, mas posso afirmar que agora estou mais conformado que antes sobre tudo o que aconteceu. A vida é assim: não temos controle sobre tudo e é nossa obrigação viver o máximo possível e correr atrás dos nossos sonhos, nos expressar para quem amamos antes que seja tarde demais, a gente tá sempre esperando um momento certo para fazer as coisas, para agir, mas não existe momento certo, existe o agir. Quando você não age vê sua vida passando diante de seus olhos, e por mais que eu tivesse sonhos, tivesse feito coisas incríveis e outras nem tanto, deixei muitas oportunidades passarem como o fato de não ter expressado meus sentimentos para Nancy. Se eu pudesse voltar no tempo, faria muitas coisas diferentes, mas essa é a questão, precisamos errar para aprender e agora, percebo que tudo valeu a pena. Não estou mais em estado de negação, estou começando a aceitar tudo isso. — Quero te mostrar uma coisa! — Morte diz e eu assinto com a cabeça sem questionar. — Você se arrepende do que fez em vida ou deixou de fazer? — questiono enquanto olho pra ela. Parece estranho dizer agora, mas a tenho notado com maior intensidade nesses dias: ela é toda fechada e a*******e, mas sei que faz isso para se proteger. Se eu estivesse nas mesmas condições que ela, acho que agiria do mesmo jeito. — Muito. Como te disse, eu não era exatamente um exemplo de pessoa. Eu afastava as pessoas porque tinha medo que elas me machucassem e no fim, eu é que machuquei todo mundo. — Você não é uma pessoa r**m por isso. — retruco e ela me encara — tá, no máximo egoísta. A maioria das pessoas são assim, elas só pensam nelas mesmas e querem sair por ai julgando, mas eu não julgo você. — Você não é bom em confortar as pessoas. Eu começo a rir — Sei disso. Há quantos dias você está aqui? Você disse que seu tempo passou, que não deveria estar mais aqui. Ela parece pensar antes de responder — Uns trezentos dias talvez, ou mais de seis meses. Eu não sei mais, o tempo perde o sentido aqui. Como você pode ver, pra nós não existe exatamente dia e noite. É como se fosse um dia longo que parece não ter fim. — Você gostaria de voltar a vida? — Não poderia nem se eu quisesse. Meu corpo já foi enterrado e cada dia que passa sinto a energia esvair dessa alma. Eu já aceitei meu destino. O que não aceitei é o fato de quererem me mandar para o inferno porque não consegui... não consegui tirar a vida de alguém que amava. Olho em volta reconhecendo o Hospital, no começo, pensei que ela me trouxe aqui para visitar Nancy, mas então seguimos para outro quarto e estanquei quando passei pela porta. Não consegui me aproximar da cama porque percebi que era o meu corpo desacordado lá, muito ferido e cheio de tubos e isso me fez lembrar que é a primeira vez que vejo meu corpo depois do acidente, estava tentando evitar pensar nisso e me ver ali, todo impotente. Mas não foi isso que chamou minha atenção, ao lado da cama, sentada estava a mãe da garotinha que eu salvei, e segurando minha mão, a garotinha, tentando colocar uma florzinha na minha mão, mas por a cama ser mais alta que ela, ela ficava dando pulinhos. — Não faça isso querida. Ele está descansando. — Ele precisa acordar, mamãe, pegar minha “florzinha”. A mãe levanta e vai até a garotinha, pegando-a no colo e colocando a flor ao lado da minha cama, junto a outras em um jarro. Fico emocionado ao ver a cena. — Ele ficará bem filha. — Se não fosse por você, hoje a garotinha não estaria bem. Dificilmente teria sobrevivido. — Morte explica e olho pra ela — Elas vêm te visitar todos os dias desde o acidente. Você mudou a vida das duas Carter. Você pode achar que isso só se trata de ceifar vidas, mas é além. Tudo que você faz influencia outra coisa: toda ação tem uma reação. Quando você se arriscou, salvou a garota. Mudou a vida dela. — Eu entendo! — Pode não ter sido o fim que você imaginou, mas foi honroso. Você tem mais coragem do que muitas pessoas terão durante toda a vida. — Eu fico tão feliz por saber que ela está bem e saudável. Jamais imaginei que me visitariam aqui. — Quis te mostrar pra saber que nada é em vão! — Ela desvia o olhar do meu e me dá as costas — Vou dar um tempo pra você, mas seja rápido. Hospitais não são os melhores lugares para nos escondermos. Por causa dos Ceifeiros que sempre estão pelos hospitais ceifando vidas. Eu agradeço a elas por me visitar, e fico contente em vê-las tão bem, sei que meu ciclo está se encerrando e sou mais grato por muitas coisas na minha vida. Então vou até Morte e desaparecemos como sempre. Minha missão de hoje é ceifara vida de um assassino que ataca pessoas aleatórias, em um confronto com a policia ele se descuida e é baleado. Eu pensei que teria mais tempo para pensar em uma estratégia para ajudar Dona Morte, mas não tive, e assim, se foi o meu oitavo dia. Restando somente agora, dois dias para o grande final.
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