A primeira reação que eu tenho obviamente é de choque, eu automaticamente paro de falar e o sorriso some da minha cara enquanto a encaro com as sobrancelhas tão arqueadas que parecem que vão pular do meu rosto. Ela não diz nada e sei que está tão chocada quanto eu, mas isso não muda nada.
Eu ando de um lado para o outro querendo xingar todo os nomes que me vem a mente, só pode ser um a brincadeira de muito m*l gosto, não é possível.
— Você tá te brincadeira, não é? — Repito, acho que pela quinta vez é uma piada? Porque não tem a menor graça ainda mais sabendo o humor estranho que você tem.
— Não, não é uma piada e não me olhe assim. Não sou eu que crio essas missões e você sabe muito bem disso.
— Isso é uma palhaçada, não tem o menor sentido. Eu fiz tudo o que fiz para chegar aqui e me jogarem uma coisa dessas na cara? É engraçado para vocês?
— Eu te disse que eles costumam fazer isso! — Ela diz na defensiva
— Eu não gosto de ser testado, não é legal.
Eu ando de um lado para o outro muito estressado, e tremendo:
— E-eu... eu não posso! Não posso. Não posso fazer isso com a Nancy O acordo não foi esse.
Mal percebo que estou chorando quando percebo as lagrimas caindo do meu rosto, até eu me surpreendo porque achei que não pudesse chorar — Morte também está surpresa — depois de, sei lá, quantos anos.
Eu não posso fazer isso com a Nancy, só aceitei fazer tudo isso para poder ajuda-la já que minha alma está condenada de qualquer jeito. Não vou conseguir.
10h00min
Passou um dia e hoje é o grande final, não consegui ceifar a alma de Nancy e me recusei a isso mesmo Morte tentando insistir uma vez, mas não muito porque ela passou por isso antes e sabe como estou me sentido. Eu quero muito, muito mesmo ficar com raiva dela, mas sei que ela não faz as missões, sei que eles devem estar com tanta raiva dela por ter desobedecido as regras — e agora de mim — que jogaram essa missão na minha direção.
Eu vi que Nancy não estava bem, mas tinha esperanças que ela iria melhorar, fiz tudo o que fiz por ela e pelo visto, não conseguirei salvar a vida dela e muito menos a minha alma.
Provavelmente o Ceifeiro fez isso para nos irritar, e conseguiu.
— Ela não está bem. O piorou muito depois que você saiu, ela vai para a sala de cirurgia à noite. — ela respira fundo — Carter... você n******e ceifar outra vida no lugar dela.
— E vocês acharam que poderiam se esconder de mim por muito tempo? — Eu dou um pulo parando na frente dela, quando a voz nos atinge e vejo o Ceifador parado a minha frente.
De repente, tudo está escuro e aquelas almas ainda estão ali sussurrando, mas estávamos tão distraídos que não percebemos a chegada dele.
— Você tem menos de vinte e quatro horas — ele parece sorrir — pouco tempo até sua alma ser minha.
Eu me preparo para o impacto quando o vejo se teletransportar na minha frente, ele me agarra pelo pescoço me suspendendo no ar e sacudo tentando me soltar.
Morte corre na direção dele que com apenas a força da mão, a joga no chão, nesse momento consigo me soltar e a expressão dele muda, Morte se levanta mais uma vez quando ele estende a foice apontando para a direção dela e o copo dela levanta no ar, aproximando-se cada vez mais dele, eu corro e me jogo na frente, abraçando o corpo dela quando somos atingimos e saímos rolando.
Antes de conseguirmos nos levantar ele a puxa pelo pescoço arremessando-a contra uma rocha e a foice dela cai; nesse momento me jogo no chão pegando a foice dela e jogando na minha frente para me defender do ataque dele, ele grita como se isso se isso tivesse doido, e as almas da foice dele correspondem enquanto o mesmo cambaleia, então faço algo muito louco: me jogo na direção dele, acertando com a foice mais uma vez e ele grita, nesse momento arranco a foice da mão dele e corto o ar em sua direção com a mesma.
Ele dá um grito ensurdecedor e partes dele parecem se desfazer no ar com ele repetindo inúmeras vezes “não”, e nesse momento entendo, a foice dele pode machuca-lo. Antes que eu consiga fazer algo esse se recupera e se joga pra frente flutuando, eu corro na direção da Morte que me encara com uma expressão de muito espanto no rosto, jogo a foice dela em sua direção e bato a minha, recém adquirida no chão sumindo no mesmo instante, tudo o que escuto antes de desaparecer é o grito ensurdecedor do Ceifeiro e a Morte gritando “Carter, não”.
Sei que devo ter feito algo muito grave ao roubar a foice dele e ter tentado atacá-lo, mas isso clareou minha mente: ele é o ceifeiro, pelo que tudo parece ele está por cima das Mortes, os que têm a missão de encaminhar as almas, ele mantem a ordem nessa dimensão, mas o problema é que eu não concordo com isso, ele me sacaneou quando me deu a chance de salvar Nancy e chegando no meu último dia pedindo para que ceifasse a alma dela. Eles fizeram isso porque sabiam que eu não faria e sendo assim teriam a chance de me levar, mas isso não vai acontecer.
Eu precisava de uma estratégia para ajudar dona Morte, agora consigo pensar em uma, o problema é que, o que eu estou pensando são só suposições, preciso que Morte me confirme se essa foice pode realmente eliminar aquele Ceifeiro.
Ele está atrás da gente, se eu o tirar do caminho Morte terá tempo de arrumar uma estratégia para se libertar e eu... bom, não sei o que vai acontecer comigo. Só sei que não vou ceifar a alma de Nancy.
— Você é louco ou o que? — Dou um pulo assustando e olhando para trás.
— Eu precisava de tempo pra pensar por isso fugi de você! — Digo a ela.
— Você n******e fugir de mim, Carter. Minha obrigação é cuidar de você aqui, pode ir para qualquer lugar que conseguirei te encontrar. Mas não estava falando disso — ela aponta para a foice na minha mão — Você perdeu o juízo? Enfrentar um ceifeiro daquele jeito e roubar a foice dele?
— Eu não tenho nada a perder mesmo! — retruco — Vocês já tirarm tudo de mim.
Ela se contrai como se eu tivesse a atingido.
— Não é verdade. Você sabe que não fiz isso, só quero que você fique bem. Eles são muito severos, você o deixou muito aborrecido, ele não vai parar até mandar sua alma para o inferno.
— Eu tenho um plano — dou um passo para perto dela — Essa foice pode acabar com ele, não é?
Ela pisca varias vezes, confusa até compreender onde quero chegar, e então balança a cabeça negativamente.
— Não é uma boa ideia, mas sim. Só que, ele não vai morrer, não eternamente pelo menos, a ama dele será presa na foice e quando ele conseguir sair, porque ele é um ceifeiro, ele pode fazer isso, ele voltará muito, muito bravo.
— Não importa. Eu tenho só esse dia mesmo, o que precisamos é uma forma de conseguir nosso ticket e dar o fora daqui.
Ela abaixa a cabeça e sei que tem algo de errado
— O que é?
— Eu não fiz. Eu não consegui tirar a vida da sua amiga porque você não fez. Agora eles viram atrás de mim e não será nada bom. — ela me olha — Você entende o que eu quer dizer?
Eu assinto com a cabeça, se eles chegarem até ela levaram sua ama para o...
— Não vai acontecer — dou um passo em sua direção — Posso não ter conseguido ajudar Nancy e nem salvar a minha vida, mas vou salvar você.
Ela me encara completamente chocada
— Nancy está em estado grave, depois da operação ela piorou muito, Carter. Se vamos fazer isso, precisamos ser rápido porque se você conseguir sua passagem, talvez Nancy receba sua segunda chance.
Eu assinto com a cabeça e ela caminha em minha direção entrelaçando, sua mão na minha.
— Tenho sua próxima missão!
17h00min
— Geralmente quando você ceifa alguém com grandes crimes a pessoa tem passagem direta para o... inferno — ela estremece ao dizer isso e pressentindo o nosso caminho se não formos rápidos.
Tenho poucas horas para ceifar duas almas e nem sei se isso me garante uma passagem, creio que não, acabei de roubar a foice do ceifeiro e pode se que ele controle o portal, se é que tem um portal, também não sei.
— Vamos ser rápidos e se dermos sorte conseguirei de designar outra missão.
Olho pra ela
— Não está com medo do seu destino? — pergunto
— Você já me perguntou isso! — ela retruca e sei que está tentando mudar de assunto.
— Eu sei!
— Estou! Mas também estou conformada. Acho que meu tempo aqui já deu. Se eu conseguir pelo menos ajudar você ficarei feliz em ir.
Seguimos para um prédio depois disso, e ela me explica sobre o empresário que matou duas pessoas e que alguém decidiu vingar acabando com a vida dele.
Eu o faço na hora certa e depois disso, partimos para tentar achar a última alma.
23h30min
Você deve estar pensando que é fácil achar alguém para ceifar já que o tempo todo no mundo tem alguém morrendo, mas a questão é que existe um Ceifeiro por detrás de cada morte, então, não, não posso simplesmente chegar e ceifar uma vida.
E aqui estou, com menos de trinta minutos para um destino incerto, eu pensei que estaria mais assustado, mas não estou.
Estou conformado.
Eu fiz tudo o que podia, tentei o meu melhor, mas o meu melhor não incluía ter que tirar a vida de Nancy, e se for por isso, vou muito feliz mesmo assim.
Se que não me arrependo de mais nada, a não ser claro, o fato de que devia ter vivido mais e me expressado mais, mas todas minhas escolhas me trouxeram até aqui, então vou em paz.
— Não quero que aquele louco ceife minha alma — olho pra ela — Prefiro que você o faça. Leve a minha alma... talvez assim você receba uma chance de conseguir sua passagem. Eu roubei um Ceifeiro, cometi um ato grave, se me levar, eles devem perdoar você.
— Não! — ela n**a com a cabeça — Não posso fazer isso! Passamos por situações difíceis até chegar aqui. Era pra você conseguir.
— Era pra conseguirmos juntos! Eu peguei a foice, pra te conseguir uma segunda chance...
— E vocês acharam que com isso me impediriam de chegar nesse momento? Que sairiam impune de roubar a minha foice?
Paro na frente de Morte que me puxa pelo punho, impossibilitando-me de andar.
O Ceifeiro estende a mão no ar e sou lançado atingindo alguma coisa e caindo no chão, Morte corre até mim ajudando-me a levantar, e em seguida, alguma coisa a atinge e eu arregalo os olhos, assustado.
— Pensaram que poderiam me enganar pra se salvarem? Vocês já estão condenados.
Olho pra Morte e vejo através dela, literalmente, como se a alma dela estivesse sumindo e é exatamente isso.
— Não! — grito, levantando-me e ela se joga contra mim fazendo-nos desaparecer.
O Ceifeiro não está perto
— Não! — repito quando vejo tudo a nossa volta escurecer, sei que está chegando a minha hora assim como está chegando a hora dela.
— Carter, escuta! — ela me segura pelo ombro e de repente sua cor volta.
Arregalo os olhos, confuso.
— A melhor parte da minha morte passei ao seu lado, sou grata por ter sido designada a você. Você é uma pessoa incrível, tem um bom coração.
— Não se o que fazer, eu falhei.
— Não, você foi incrível. A melhor coisa que me aconteceu — ela sorri — Se tivesse te conhecido em vida eu tenho certeza que seria uma pessoa melhor, alguém que pudesse inspirar os outros e foi isso o que você fez. Nancy é feliz por ter te conhecido.
Eu a abraço com força
— Você é incrível sim e sei disso porque teve capacidade de reconhecer suas falhas, a maioria das pessoas morre negando. Não se existe vida após a morte, mas se houver, espero conhecer você.
Ela me olha, toda emocionada e se joga contra mim, eu a abraço com força, e de repente ela se afasta e me beija.
Eu retribuo o beijo com intensidade, é como se nos conectássemos, é esquisito porque estamos mortos, mas não posso negar que queria fazer isso muito antes que ela.
— Obrigada por ter feito parte da minha morte! — ela sorri
— Obrigado você por ter feito parte da minha. Foi um prazer te conhecer.
Ela estende a mão na minha direção
— Pegue, a minha foice.
— Por quê?
— Vamos trocar, me dê o do Ceifeiro e fique coma minha para se proteger. Com a dele posso afastá-lo o suficiente para você ganhar tempo, saia o mais rápido possível e ceife uma alma condenada, talvez você consiga uma chance para nós dois.
— Mas a foice dele é poderosa, podemos...
— Pode ser que consiga eliminá-lo, mas perderemos tempo, ele é forte, Carter, e tempo é uma coisa que não temos.
Olho pra ela, muito confuso e, então assinto com a cabeça mesmo sabendo que essa história não faz o menor sentido.
— Aliás, qual o seu nome? Quando era humana?
— Lana! — e, então ela pisca pra mim
O tempo está mais escuro que antes, sinto frio, apesar de saber que não deveria e que isso indica meus últimos minutos, antes de darmos um passo, Morte, nessa caso, Lana, toma a minha frente com a foice em sua frente, e vejo o que ela está encarando.
Ele sorri pra ela com um riso diabólico e ela dá mais um passo desaparecendo da frente dele e fico sozinho, no momento seguinte ela aparece atrás dele, mas prevendo a ação ele a paralisa no ar sem nem tocá-la.
Eu corro na direção dela na intenção de usar a foice nele pelo menos para ganhar tempo, sabendo que a foice da Morte n******e realmente machucar o Ceifeiro, mas algo inesperado acontece.
No momento em que uso a foice no ar, Morte aparece na minha frente e é atingida, eu grito, o Ceifeiro grita e seu corpo — nesse caso sua ama — cai em minhas mãos.
— Desculpa! — ela diz
— Po... Por quê?
— Você conseguiu sua última alma. — e ri — a de uma garota perdida! Você me salvou.
— Não! — começo a chorar e algo dentro de mim se aperta
— Só minha foice podia ceifar minha alma por alguém que não seja... o Ceifeiro. Por isso fiz você trocar. Obrigada, Carter.
Eu ainda estou balançando a cabeça negativamente quando ela some, o ceifeiro some e de repente, tudo a minha volta some.
— Obrigada, Lana!
00h00min
O cenário a minha volta some e me vejo, na sala de hospital quando meus batimentos param, quando desligam o aparelho, vejo Nancy se recuperando, sorrindo, vejo Nancy recebendo a noticia de minha morte.
Depois vejo todo o funeral, tenho um deslumbre de seu futuro, ela inspirando pessoas a vejo se tornando melhor feliz e isso me faz feliz, agora sei que conseguir salvar não só Nancy, como Lana também e no fim, a mim.
Estou feliz também
Então, sumo.