Dia 2

3584 Palavras
Sempre pensei em vida após a morte, mas não exatamente dessa maneira. Pensava que as pessoas boas em vida, não que eu achasse que estivesse tão nesse cargo, fossem para o céu, outras para um tipo diferente de inferno, mas acreditava em ambas as coisas. Pensei que quando morresse e recebesse minha chance estaria em um lugar melhor, uma espécie de terra, mas sem todo aquele sofrimento, lógico que pessoas sensatas chamam isso de paraíso, e é mais ou menos o que eu estou tentando dizer. Claro que a Morte tinha outros planos pra mim, além de perder a minha vida estava quase perdendo a de uma amiga também, trágico, eu sei. Só que eu ainda tinha uma chance, uma pequena chance de fazer uma coisa boa para alguém antes de desaparecer completamente do universo. Salvar a Nancy se tornou minha prioridade, ela teria um bom futuro pela frente, se tornaria uma garota muito mais inteligente e conquistaria o mundo. Eu daria essa chance a ela. A Morte bateu com a foice no chão e novamente aquele clarão aconteceu, eu precisaria muito mais que um dia para me acostumar com isso, acho que ela o fazia porque sabia o quanto incomodava. Parecia que ela gostava de provocar. Constatei outra coisa, eu sempre desmaiava nessas “transportações”. Quando isso passou, estávamos ambos parados frente à uma grande mansão em um tom alaranjado, com algumas decorações extravagantes de estatuas em varias posições, algumas até mesmo nuas; olhei em volta e automaticamente reconheci. Olhei para a dona Morte boquiaberto. — Você está brincando, não é? Está tirando uma com a minha cara? Essa é a parte em que você me diz que tudo não passa de uma brincadeira de mau gosto? Ela me empurrou rumo a casa. — Não! — Bati o pé firmemente, n******e ser quem eu estava pensando. Ela continuou andando ignorando completamente minha presença ali, vi dois cachorros enormes e pretos parados, olhando em nossa direção e apressei os passos, poderia estar semimorto, mas não era b***a, aqueles cachorros realmente pareciam estar sentindo minha presença. — Cachorros e crianças geralmente podem ver essas coisas — ela começou a falar quando cheguei perto dela — a energia deles é diferente das dos adultos, então não se assuste se um desses tentar atacar você. — O-oque? Eles podem? Dessa vez ela parou bruscamente fazendo-me tombar com ela e bater com o queixo em seu ombro. — Tem certeza que tem um QI elevado? É claro que não, seu tapado, eles podem te ver e tentar atacar, mas não vão pegar você. Continuamos andando quando os dois cachorros se aproximaram, e eu mostrei língua aos dois. — Quero ver me pegarem agora. — Me senti infantil com isso, mas triunfante, sempre tive medo de cachorros. — Eu não quero pegar você. — Dona Morte falou olhando-me de sobrancelha erguida, ela parecia confusa. —O-quê? — Não quero pegar você, pare de ficar insinuando coisas. O que? Qual o problema dela? Eu não estava... — Eu não estava... Eu não estava insinuando nada. — Então porque pediu pra eu pegar você? Não sei como funcionava no seu mundo com as garotas, mas aqui não funciona assim não. Ela estava realmente achando que eu insinuei que queria pegar ela? A Morte? A MORTE? Ela era realmente louca. — Eu não estava falando com você e sim com os cachorros. — Além de tapado é louco — resmungou entrando na mansão. Mulheres... Nem iria perder meu tempo tentando retrucar, percebi que não fazia mais diferença. Eu a acompanhei pelo ressinto atravessando a porta com ela, o bom de estar nessas condições é que eu não precisava bater, era só ir entrando e pronto, muito mais fácil. Fiquei olhando para a enorme mansão com decorações sofisticadas e artefatos que provavelmente valiam muito mais que meu apartamento, sem sombras de dúvidas, eu conhecia o lugar só de ver pela televisão, já tinha uma noção de quem era. — Nora Stanford! Uma das mais aclamadas atrizes recentemente. Uma grande carreira devo confessar. Ainda adoro aquele filme que ela gravou ao qual todas as pessoas morrem por um maníaco psicopata e no final do filme ele ainda sai por cima. É lindo, quero dizer, ele tinha um jeito tão peculiar de fazer as coisas e ninguém nunca desconfiava. — Você é louca, né? — Falei. Ela curtia coisas bizarras demais, mas para alguém acostumado com a morte, no caso alguém que era a morte, ela estava completamente bem com isso. Ela ignorou meu comentário enquanto subíamos as escadas e paramos frente a uma porta grande de madeira, notei como possivelmente sendo o quarto da atriz. — Eis aqui sua primeira missão. Faça as honras. Encarei a porta fechada sem saber se estava realmente pronto para isso, fiquei hesitando e hesitando até a maluca me empurrar e eu cair no quarto. Fiquei olhando em volta completamente assustado esperando que ela aparecesse para me auxiliar, mas não o fez. Foi ai que avistei Nora na cama, ela estava de camisola branca rendada seus cabelos encaracolados e ruivos caiam sobre o ombro quase sem vida, cabelos que outrora davam inveja a qualquer garota que a via tão deslumbrante, mas naquele momento, ela parecia tão fragilizada, era a primeira vez em que a via assim, em seus filmes ela sempre demonstrava confiança, em entrevistas e tudo o mais, mas nunca poderíamos saber o que escondiam por detrás daqueles sorrisos. Aproximei-me dela, ela estava completamente pálida, vários remédios estavam espalhados pelo recinto e mesa, coisas sujas pelo chão; roupas, sapatos e até mesmo comida, o lugar estava começando a feder. Ela estava com uma agulha na mão, algum liquido que não consegui identificar, automaticamente ela injetou em sua veia, foi questão de minutos para que começasse a fazer efeito, ela parecia ter entrado em um êxtase, estava esboçando um sorriso no rosto com seus olhos fechados, e então seu pequeno corpo começou a tremer. Ela começou a se contorcer na cama, seu corpo todo tremendo e revirou os olhos, sua boca começou a espumar e eu entrei em pânico correndo para perto dela, eu não sabia o que fazer, não sabia o que fazer para ajudá-la, tentei tocá-la, mas minhas mãos passavam por ela, eu estava morto, era obvio que isso aconteceria. —E-eu não sei o que fazer. — Comecei a gritar — Alguém ajude, Nora precisa de ajuda. — Você sabe exatamente o que fazer, aliás, ninguém vai te escutar então pare de gritar porque há somente nós dois aqui e ela. —E-eu não sei... — Implorei olhando para ela, não sabia o que fazer. A mulher que muitas garotas invejavam, que estava fazendo sucesso e sendo aclamada estava tendo uma convulsão por ter ingerido drogas e eu não sabia o que fazer para salvá-la, salvar... Eu não tinha que salvá-la, era isso. — Não! — gritei — Não sou capaz disso, eu não vou conseguir. Não posso simplesmente tirar a vida de alguém. Ela puxou-me pelo braço até onde Nora se contorcia e me fez olhar pra ela, eu desviei o olhar. — Se você não ceifar a alma dela, ela sofrerá com isso depois. Será hospitalizada e passará o resto da vida dela na cama. Ela não vai conseguir se recuperar, ela está muito fraca, ela ingeriu muitas drogas. Se você não ceifar a alma dela agora, ela terá uma vida difícil pela frente. —E-eu... — sentia v*****e de vomitar — Você não tem muito tempo. — Não posso tirar uma vida para salvar a minha. É errado. — Não está tirando nada pra se salvar. Está na hora dela, Carter. Você sabe disso. Eu sabia. Sabia por que via o estado decadente em que ela estava; estava tendo convulsões e se retorcendo, sofreria varias sequelas e poderia passar o resto da vida na cama, ela não aguentaria viver assim. — Precisa ser feito. — ela estalou os dedos e uma foice apareceu. — Seu tempo está acabando. Tique taque, tique taque. Não se esqueça das palavras magicas, “sua alma será ceifada. Descansará eternamente no vale da morte”. Eu a fuzilei com os olhos pegando a foice de sua mão e ela saiu atravessando as paredes e sumindo. Bati com a foice no chão e olhei para ela. Ela parou de contorcer-se e pareceu, pela primeira vez me ver. Ela olhou no fundo dos meus olhos, sua boca ainda espumava e esboçou um sorriso fraco como se me agradecesse por aquilo. — Sua alma será ceifada. E novamente um clarão. Eu não sei onde fui parar depois daquilo, sei que tudo simplesmente sumiu e eu estava, agora deitado em uma grama verde com um dia ensolarado e lindo, pelo menos para outras pessoas. Eu estava completamente em choque, estava me segurando para não gritar. Em minha infância fui muito fã de Nora, ela era uma mulher brilhante, inspirava pessoas, era maravilhosa, mas seu estado começou a decair, ela começou a decair, estava se drogando e ninguém parecia notar, ou no caso preferiam fingir não notar, ela pedia ajuda e ninguém nunca notou. Ela era mais uma alma, entre tantas outras que pediam ajuda e ninguém ouvia. Eu estava em choque, não acreditava que tinha tirado a vida de Nora, uma mulher que antes eu tanto admirei, não tinha feito por um ato egoísta, para salvar a minha pele, mas mesmo assim ainda era triste. Ela praticamente pedia salvação com aquele olhar, ela sabia que era a hora dela e gostou disso, significava que já estava cansada demais para continuar, cansada demais do mundo lá fora. — Aqui está você! — Dona Morte apareceu do nada me assustando e desviei o olhar do dela, eu ainda estava muito abalado para ficar aturando ataques de uma morta. — Não estou no clima. — Daqui oito dias não vai estar mesmo. — Ela falou e a fuzilei com os olhos, chocado. — Tudo pra você é um joguinho? Ela deu de ombros em seu lugar ignorando-me completamente, levantei-me do chão onde estava e fiquei de pé ao lado dela fitando o horizonte. Ela respirou fundo varias vezes antes de falar, e eu esperei sem dizer nada também. — Não é culpa sua. A maioria das almas quando são designadas já estão perdidas. Elas precisam disso, do descanso. Algumas são drasticamente tiradas de suas vidas cedo demais, e causa um caos no mundo da morte, mas quando alguém parte daquele plano, para esse, significa que já estava na hora, Carter. Estava no destino dela. — Eu não acho — Falei. Era injusto, era injusto vidas serem perdidas por incompetência de outras pessoas, eram humanos tentando tirar vidas de outros humanos, e muitas das vezes pessoas que eram, da própria família. Algumas sofriam tanto que decidiam fazer isso por conta própria, a dor interna era tão grande que só a dor externa ocultava isso, o que obvio significava, depressão, automutilação e suicídio. A vida não era fácil e nunca seria, não estava reclamando disso. Só achava injusto a forma ao qual tudo acontecia, pessoas não tem o direito de simplesmente decidirem coisas sobre a vida dos outros. A morte era trágica, tragicamente dolorida. — Isso tem que acontecer. Há um plano pra todos, nem sempre as coisas saem como o planejado, mas é preciso ter fé. Eu a encarei — Você tem? — Sou um caso perdido. Minha fé sempre esteve pesando na balança, acho que por isso estou aqui. É porque mereço. Mas isso não vem ao caso, você pode mudar ainda. Ainda há tempo. Ceifar almas não é fácil, Carter, nunca é. Cada vez você carrega uma dor diferente com você, tristezas e muitas, muitas lágrimas. Não estou dizendo que vai ficar fácil, mas vai passar a entender. Nora estava sofrendo, há muito tempo ela vem fazendo uso dessas substâncias e ninguém nunca a ajudou. Ela estava sofrendo e sua alma descansará em paz. — Agora venha, tenho uma missão que preciso cumprir, Apenas observe. Eu a segui sem dizer nada, apenas observando o caminho pelo qual ela seguia. Fiquei me perguntando como ela conseguia, como conseguia ceifar a alma das pessoas assim, como se não fosse nada, eu tinha feito uma única vez até agora e ainda doía como se alguém tivesse cortado um pedaço de mim. Estava claro que o momento de Nora chegaria, eu mesmo já havia pensando nessa possibilidade muitas vezes quando estava vivo, quando ouvia e via as fofocas na teve e nas revistas, mas sempre ignorei pensando que ela conseguiria como outras conseguiram. Só que não. Nunca havia passado pela minha cabeça estar em um estado em que nem eu mesmo sabia descrever, eu sabia que estava quase morto, minha alma estava fora do meu corpo em uma dimensão que eu não entendia completamente ainda, mas de alguma forma eu ainda conseguia sentir: confusão, tristeza, agonia, e amor... amor por saber que ainda havia uma chance de salvar aquela garota no leito de um hospital. Enquanto seguia a senhorita Morte pelos vales dessa dimensão, fiquei imaginando também tudo o que ela já devia ter passado e quantas vidas teve que ceifar até chegar ao ponto de começar a aceitar e ver que aquilo era o natural, pelo menos onde ela vivia. Antes ela deveria ter sido uma garota cheia de sentimentos também, que infelizmente não teve a sorte de conseguir se salvar e, então, passou a viver uma vida assim. Era por isso que ela era tão ranzinza, tão chata comigo, já havia visto muitas mortes, muitas tragédias e doenças, tantas que simplesmente começou a aceitar viver desse jeito, afinal, ela não tinha escolha. De alguma forma me senti solidário por ela. — Essa é a minha missão! Você não vai precisar fazer nada, apenas assistir. Vai ver que nem tudo parece ser tão fácil quanto você imagina. Às vezes, temos que fazer escolhas difíceis. Eu não estava entendendo o que ela quis dizer com isso, mas assenti com a cabeça mesmo assim. Dessa vez ela me encarou e eu me senti meio intimidado com a atitude repentina. — O-o que foi? — Pare de ficar me encarando esse jeito! Arregalei os olhos — Que jeito? — contrai-me como se ela tivesse me dado um t**a, ela revirou os olhos. — De pena! Não tenha pena de mim. Minha vida não é tão miserável quanto você pensa. Eu a confrontei — Ah, é? Diga-me um ponto bom nisso tudo. O que vi até agora é só morte. Ela parou subitamente mantendo o olhar fixo em mim, aliás, parecia que ela estava vendo através de mim, porque simplesmente ficou parada como se tivesse acabado de ter uma visão. Então, de súbito, ela bateu sua foice no chão que soltou um enorme clarão. E o cenário mudou de novo, de repente, não estávamos mais naquele cenário decadente de antes, estávamos em um lugar ao qual eu sempre sonhei em visitar, o que, se eu estivesse vivo seria impossível, eu morava a milhas de distância daqui, seria preciso viajar muito e gastar muito caro para chegar aqui, algo que não conseguia, a não ser, claro, que conseguisse um bom emprego, juntasse dinheiro por um bom tempo ou simplesmente ganhasse na mega sena. — Não é possível! — Gaguejei, em seguida comecei a falar balbuciando e ela começou a rir da minha cara. Realmente começou a rir de mim. O que eu teria ficado ofendido se não fosse a forma ao qual ela fez isso, ela simplesmente jogou a cabeça para trás soltando uma gargalha que me fazia ter v*****e de rir junto, ao mesmo tempo ela colocava a mão na barriga como se rir, doesse a mesma, e então ao invés de ficar gaguejando e perdendo tempo sentindo-me ofendido comecei a rir junto com ela. Era a primeira vez desde que a conheci que vi uma atitude tão espontânea nela, uma risada boa e sincera, eu nunca a vi sorrir com tanta sinceridade. — Como conseguiu fazer isso? — Perguntei, incrédulo. — É a capacidade que temos de visitar qualquer lugar do mundo. Somos designados para todo tipo de missão, no Brasil, na África, no Japão, não importa. Onde houver algum acontecimento poderemos ir pra lá, não temos um lugar especifico para ceifar, o portal nos leva a qualquer lugar. Eu encarei o lugar de novo — Paris?! Sério que estamos em Paris? Quer dizer, eu sei que é muito clichê e provavelmente a maioria das pessoas no mundo quer conhecer esse lugar — apontei para a Torre Eiffel que estava próxima de nós — Mas... Não tem como não se encantar, é lindo. — É incrível, você tem razão. — Admitiu olhando para a torre, e ficou parada ali, simplesmente olhando, era como se aquele lugar trouxesse memórias à ela, e no fundo, acho que é verdade mesmo. Ela bateu seu ombro contra o meu que a encarei de cara fechada. — Não acredito que concordou comigo. Acho que estamos evoluindo. — Ela revirou os olhos de novo e senti o progresso ir embora — O que mais pode fazer com essa foice, hein? Ela bateu a foice novamente e um portão abriu-se, passamos por ele e de repente não estávamos mais em Paris, estávamos na Noruega observando as incríveis Auroras, depois visitamos Londres, passando pelo Japão onde conheci o incrível paraíso dos otakus, o Akibahara, local onde produziam muitos dos videogames que eu adorava jogar e também animes ao qual eu era viciado, é o que fazia em meu tempo livre quando não estava hackeando computadores e fazendo outras coisas. — É hora de irmos. Tenho que cumprir minha missão. — Ah, nem pelo menos visitar algum set de uma série? Sei lá, pode ser Game Of Thrones, ou quem sabe, The Flash, eu aceito até mesmo Supernatural. Vai ser muito massa conhecer os Winchesters. — Infelizmente já chega. Temos que ir, e, além disso, não posso ficar viajando por ai desse jeito, ou o Ceifador vai vir atrás da gente, principalmente atrás de você que é carne fresca por aqui. Com isso ela nos transportou dali de novo voltando para a minha cidade Natal; eu conhecia os prédios, as casas, a rua e a praça, que era exatamente para onde estávamos caminhando nesse momento. Segui a Morte pela pracinha silenciosa, não havia muitas pessoas, notei, só uma ou outra pessoa correndo, um casal brincando com bumerangue com o filho e duas pessoas sentadas em um banquinho, além, é claro de uma senhorinha que jogava alimento aos pombinhos, que era, exatamente para onde ela estava caminhando. E então entendi e me condói. A senhorinha devia ter mais que setenta ou oitenta anos, seus cabelos grisalhos estavam amarrados em um coque frouxo, ela jogava o alimento aos pombinhos enquanto os observava com uma expressão serena no rosto. — Ela já passou dos noventa e quatro anos. — Falou Morte — E provavelmente já fez muitas coisas e já ajudou muitas pessoas que qualquer outra que ainda esteja viva. — Ela continuou — Ela ajudava com doações e programas de voluntariados. Salvou muitas crianças da rua levando para lares de adoção, onde hoje em dia muitas vivem felizes, e ainda hoje, ela continua tentando ajudar sempre que pode, mesmo que seja por pequenos gestos — apontou — ou até mesmo seres vivos que não seja especificamente um ser humano. — E você quer que eu ceife a alma dela? — perguntei tentando não olhar muito para a senhorinha, se tivesse que fazer isso, pelo menos não guardaria o rosto dela em minha memória. Não quando ela parecia tão feliz. Ela deu um passo à minha frente e virou com a cabeça para observar-me. Eu estremeci. — Por mais que ela tenha feito todas essas coisas em vida, é a hora dela, Carter — Ela pronunciou meu nome com pesar, quase um chiado de lástima, era como se ela estivesse cansada. — Infelizmente não há nada que possamos fazer. — Ela poderia ter mais algum tempo. Morrer de forma natural. Não faça isso — Implorei encarando-a no fundo dos olhos para ver se ela demonstrava um pouco de piedade. — Se ela viver mais provavelmente vai sofrer, sofrer algum ataque cardíaco e parar no hospital ou outra coisa mais séria que irá prendê-la lá, ela não vai ser feliz assim. Vê? É o momento de ela partir, e no fundo ela sabe disso. Observamos a senhorinha mais uma vez, imaginei a família dela, o quanto sofreriam com sua morte, o quanto iriam lamentar, filhos, sobrinhos, marido ou qualquer outro parente que fosse. Ela era uma pessoa boa, provavelmente deveria conhecer muitas pessoas. Todas que sentiriam sua falta. — A morte faz parte da vida, assim como não existe noite sem dia, água sem fogo, tempestade sem calmaria. É a ordem natural das coisas e quando você tentar ultrapassá-la as coisas começam a dar errado. Tipo O Efeito Borboleta, quando você tenta mudar algo que já está escrito, coisas começam a dar muito errado. Eu voltei meu olhar para frente. A senhora sorriu como se nos visse aqui, e, aos pés da morte, pousou uma pombinha branca, ela assentiu com a cabeça surrando “minha missão está cumprida”, e, então levantando a foice, a Morte ceifou a alma dela. A senhora sabia que tinha chegado sua hora, e não se lamentava por isso. Fechei os olhos quando a senhora caiu no banco velho da praça, com um sorriso estampado em seu rosto.
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