Dália
Eu voltei para casa com o vestido dobrado cuidadosamente sob o braço e a sacola de remédios na outra mão. A casa estava silenciosa, o que era um alívio depois da tensão da cidade.
Abri a porta e entrei, os sapatos fazendo um leve som de madeira rangendo sob meus pés.
Kieran já estava em casa, sentado à mesa, com os cotovelos apoiados no tampo de madeira. Ele me lançou um olhar desconfiado assim que me viu entrar.
— Demorou — ele comentou, os olhos indo direto para o vestido embaixo do meu braço.
— Talvez porque você tenha me deixado sozinha — retruquei, estreitando os olhos para ele.
Kieran franziu o cenho, mas eu o ignorei e fui direto até a cozinha, colocando os remédios sobre o balcão.
Ouvi passos firmes atrás de mim, e meu pai surgiu no vão da porta. Alaric tinha a expressão fechada e os olhos escuros analisaram cada detalhe de mim — especialmente o vestido que eu segurava.
— O que é isso? — ele perguntou, a voz baixa e firme.
— Um vestido — respondi, sem muita vontade de dar mais explicações.
— Eu sei o que é um vestido, Dália. — Ele se aproximou, os olhos afiados. — O que quero saber é como você o comprou, já que saiu de casa apenas com o dinheiro para os remédios.
Eu apertei os lábios, já sentindo a discussão chegando. — Eu não comprei.
— Então de onde veio?
Suspirei. — Lucien me deu.
O rosto do meu pai endureceu na hora. Kieran, que estava em silêncio até então, ficou de pé num movimento brusco.
— Lucien? — Alaric repetiu, o nome dele saindo da boca dele como uma maldição.
— Sim.
Alaric se aproximou mais, o olhar ficando mais intenso. — O que você fez para esse vampiro te dar um vestido?
— Eu não fiz nada! — rebati, irritada. — Ele me encontrou na loja e decidiu me dar o vestido. Foi um presente, só isso.
— Não existe "só isso" com vampiros, Dália.
Revirei os olhos. — Você está exagerando.
— Eu estou exagerando? — Ele deu um passo à frente, o rosto sério. — Você tem ideia de quem ele é? Do que ele é capaz?
— Eu sei que ele não é uma ameaça para mim.
— Como você pode ter certeza? — Alaric retrucou, a voz ficando mais dura. — Vampiros não fazem nada sem um motivo. Ele te deu um presente, Dália. Ele espera algo em troca.
— Ele não quer nada em troca.
— Você é tão ingênua assim?
— Ou talvez você esteja sendo paranóico — retruquei, erguendo o queixo.
Alaric bufou, passando a mão pelos cabelos. — Você precisa se livrar desse vestido. Agora.
— Eu não vou fazer isso.
— Vai, sim.
— Não.
A expressão de Alaric ficou ainda mais sombria. — Dália, você não entende o que está fazendo. Esse presente é um símbolo de posse. Ele vai te ver usando esse vestido e vai pensar que você é dele.
— Ele não disse nada disso.
— Você acha que ele precisa dizer? — Alaric rosnou. — Ele é um vampiro. Os instintos deles são mais antigos que você. Ele vai tentar te marcar. Te reivindicar.
— Isso é ridículo.
— Você acha que eu não sei o que estou falando? — Alaric se aproximou ainda mais, o rosto a poucos centímetros do meu. — Lucien é mais perigoso que Viktor. Ele tem séculos de experiência em manipular humanos. Quando ele se cansar de você, Dália, ele vai te usar como uma bolsa de sangue até sugar a última gota.
Eu senti o sangue gelar nas veias.
Mas mantive a postura. — Eu não sou uma criança, pai. Eu sei o que estou fazendo.
— Você não sabe nada.
— Eu sei que ele salvou minha vida. Salvou minha mãe.
— Não significa que você deva confiar nele.
— Talvez ele não seja como os outros vampiros.
Alaric riu sem humor. — Essa é a primeira coisa que toda garota diz antes de ser destruída por um vampiro.
— Você está julgando ele sem nem conhecê-lo.
— Eu conheço vampiros.
— Mas não conhece Lucien.
— Eu não preciso conhecer Lucien para saber como ele funciona.
— Você está sendo injusto!
— Eu estou te protegendo! — Alaric gritou, a voz ecoando pela casa.
Eu fiquei paralisada por um momento, o coração batendo rápido demais.
Então ouvi passos leves atrás de nós. Minha mãe apareceu no corredor, os olhos preocupados analisando nós dois.
— O que está acontecendo aqui? — Saphira perguntou, com a voz suave.
— Seu marido está surtando porque Lucien me deu um vestido — falei, tentando manter o tom casual.
Saphira ergueu as sobrancelhas. — Lucien?
— Sim, Lucien — Alaric respondeu com o tom carregado de desgosto. — Ela está brincando com fogo.
— Ele só me deu um vestido — insisti.
— Isso é o que ele quer que você pense — Alaric rebateu.
Saphira suspirou e se aproximou de nós. — Alaric, você não acha que está exagerando um pouco?
— Ele é um vampiro!
— Sim, mas ele salvou a vida da nossa filha e a minha também.
— Isso não significa que ele é confiável.
— Talvez ele não seja — Saphira disse calmamente. — Mas talvez ele seja.
Alaric a encarou com incredulidade. — Você está do lado dela agora?
— Eu estou tentando trazer equilíbrio à situação. — Saphira colocou a mão no braço do marido. — Você não pode controlar cada passo que ela dá.
— Eu não estou tentando controlar. Eu estou tentando proteger.
— Eu não preciso ser protegida de tudo — murmurei.
Alaric fechou os olhos por um momento, os ombros tensos. — Eu só não quero perder você.
— Você não vai me perder.
Ele abriu os olhos, o rosto endurecido. — Você não sabe disso.
— Eu sei que não vou jogar fora um presente só porque você acha que ele tem segundas intenções.
— Você precisa ter cuidado com ele, Dália.
— Eu sei — respondi suavemente.
— Ele é velho, forte, manipulador.
— Eu também sou teimosa — repliquei, cruzando os braços.
Alaric soltou um suspiro cansado, passando as mãos pelos cabelos.
Saphira olhou para mim com um pequeno sorriso. — Eu acho que ela já decidiu o que vai fazer com o vestido.
— Claro que decidi — murmurei.
— Você não deveria aceitar nada de um vampiro — Alaric avisou.
— Se ele tentar qualquer coisa, eu mesma corto a garganta dele.
Saphira deu uma risadinha baixa. — Eu não duvido.
Alaric ficou parado por um momento, o rosto ainda tenso. Ele então se virou para sair da cozinha, os ombros rígidos com a tensão que ele não conseguiu aliviar.
Saphira sorriu para mim. — Você é mesmo teimosa.
— Eu puxei isso de alguém.
Saphira riu, depois se aproximou e acariciou meu rosto. — Só tenha cuidado, Dália.
— Eu sei me cuidar.
— Espero que sim.
Ela saiu, deixando-me sozinha na cozinha. Eu olhei para o vestido em minhas mãos, o tecido azul-marinho tão bonito contra minha pele clara.
Eu sabia que meu pai estava certo em ter medo. Lucien não era um homem comum. Ele era um vampiro antigo, perigoso, alguém que poderia destruir qualquer um sem esforço.
Mas ele também foi gentil comigo.
E talvez… talvez eu quisesse descobrir por quê.