Os dias na França nem sempre tinham sol, na maioria das vezes o céu estava cinzento e quando o sol estava bom o rei e rainha tomavam café a luz do sol no jardim real. Eu tomava sozinha dentro do quarto, só olhava pela janela com vidros escuros.
Sempre pensei em como seria pegar sol sem ninguém pra atrapalhar, livre, sozinha e sem problemas, apenas eu e o sol. Eu tomava sol, só que não ao ar livre. No castelo tem uma estufa no meio de uns dos corredores que levavam ao salão real, ele era todo em vidro e la dentro haviam as mais belas rosas. O meu pai construiu pra minha mãe que sempre foi apaixonada por rosas, e aquelas da estufa era magnífica. Eu passava horas do dia la dentro sentada, onde o sol batia através da vidraçaria do teto, era perfeito.
— Majestade
Madeleine da duas batidas na porta e entra.
— Bom dia
Ela faz uma breve referência e eu sorrir.
— Hoje não estou atrasada.
Ela da um sorriso balançando a cabeça em negativa.
— Como quer o banho hoje?
Todos os dias eu podia escolher tomar banho no chuveiro ou na banheira, mais geralmente eu tomava banho sozinha no chuveiro.
— Eu vou tomar banho sozinha e você pode escolher um vestido.
Ela assentiu em concordância e eu fui para o banho.
Quando cheguei na mesa estava apenas meu pai. Não hesitei em perguntar o porque dela não está lá e ele apenas disse que ela estava indisposta. O café seguiu silencioso até o meu pai resolver quebrar o silêncio.
— Preto cai bem em você, está parecida comigo.
Ele sorri e devolvo o sorriso
— Obrigada Pai, espero que entenda tudo o que isto significa pra mim.
Ele me mira brevemente nos olhos e os desvia.
— Eu sei o que é ficar presa minha filha, também não tive uma adolescência fácil, mais nada comparado ao que você vive. Pela primeira vez vai poder saber o que é viver de verdade e eu não me importo, quero que seja feliz, apesar das responsabilidades.
Meus olhos encheram de lágrimas rapidamente e levanto pra abraçar o meu pai.
— Queria que a mamãe entendesse o meu lado, mais ela não quer entender.
Meu pai se afasta um pouco pra olhar em meus olhos.
— No fundo tudo que sua mãe sente é medo de te perder, você é nossa única filha.
O abracei novamente e ficamos ali por breves momentos.
No ateliê encontrei Madeleine com várias sacolas de roupas, seriam as roupas que eu usaria la fora. Tinham muitas calças jeans e casacos de frio, nada de marca pra não chamar atenção. Blusas de frio, meias e tênis, botas e vestidos.
— Nada igual ao que estou habituada.
Olho pras peças sobre a mesa.
— Por isso acostume-se a usá-las antes de sair do castelo, e lembre-se sempre de falar normalmente, sem muita etiqueta e nem palavras muito difíceis, os jovens lá fora são mais leves.
Madeleine me da um sorriso contido e eu imagino como será minha adaptação la fora, sem conhecer ninguém.
— Será que vou fazer amigos ou não vou conseguir nenhum.
A possibilidade de não ter nenhum amigo me assustava.
— Claro que vai, logo estará enturmada.
Visto uma calça jeans e me acho estranha, só usava vestidos desde que me lembro, as únicas vezes que usei calças foram nas aulas de montaria, que aliás não faço desde que tudo aconteceu.
Acabei perdendo muita coisa com o atentado, uma vida inteira. As únicas coisas que me salvaram foi quando comecei a faculdade online, eu cursava Ciências Políticas e ao mesmo tempo literatura, eu amava, só pude fazer se fosse uma ótima aluna em Ciência Políticas, e eu fui, acho que a melhor, nunca tirei um nove na vida. Meus pais sempre me diziam que uma rainha estava sempre acima da média, jamais abaixo.
— Majestade.
Madeleine se aproxima com uma caixa na mão.
— O que é isto?
Perguntei curiosa, e ela me estendeu a caixa.
— O Luke pediu pra lhe entregar, é um celular, é um dos mais avançados que tem hoje.
Ela me da um de seus sorrisos contido e abro a caixa.
O celular era rosa, junto veio também um notebook novo.
— É lindo demais
Eu realmente estava muito feliz, essa é a primeira vez que eu tinha um celular, só podia usar as redes sociais com perfis falsos e quando meus pais descobriam me tomavam o notebook.
— Nossa, isso parece um sonho, tenho medo de acordar e ser tudo minha imaginação.
Ponho a mão sobre o rosto aflita e nervosa.
— Claro que não menina, logo logo estará la fora.
Ela deu mais um sorriso e se foi.
Luke e Madeleine já haviam passado um roteiro que fizeram sobre mim umas cinquenta vezes, eu ja tava cansada de tanto falar.
—Mais uma vez.
Luke se levanta e eu reviro os olhos cansados.
— Sem preguiça, vossa excelência que quis essa aventura.
— Eu me chamo Sophia de Valois, filha de Viola de Valois e Armand de Valois, sou de Reims e meus pais são donos de uma pequena vinícola que sustenta toda nossa família.
— E o que mais?
Luke me olha com uma sobrancelha levemente arqueada.
— Sou filha única.
Ele finalmente bateu palmas e deu pulinhos com Madeleine.
— E se as pessoas quiserem pesquisar sobre mim? Elas vão descobrir que é tudo mentira e ai acabou tudo.
Me jogo apreensiva no sofá a frente e Luke se aproxima.
— Ninguém vai querer pesquisar sobre uma garota de Reims, filha de pais pobres.
Olho incrédula e Luke me olha de volta.
— É verdade, você só vai ser uma garota como qualquer outra na universidade.
Minhas malas estavam prontas, Luke me informou que dois agentes vão me vigiar, pois não era seguro eu ficar sozinha sem nenhuma p******o.
Mesmo protestando acabei concordando, mesmo que eu tenha sido treinada pra me defender eu não estava pronta pra sofrer um ataque, logo no melhor momento da minha vida.
Sentada de frente pra janela escura olhava o sol se pôr ao longe, meus olhos enchiam de lágrimas todas as vezes que contemplava aquilo, eu prometia pra mim mesma que iria um dia ver de perto, sem medo, como uma garota comum.
Naquela noite o jantar foi no quarto, no dia seguinte eu partiria, acho que não conseguiria dormir só de imaginar. Amigos, passeios, bibliotecas, praças e shoppings, tudo que eu tinha vontade de fazer, está tão próximo a mim que tinha medo de acordar e ser tudo um sonho distante.
Eu ja tinha lido tudo sobre a Universidade de Paris, olhado imagens do campus e me animava só de pensar em colocar os pés fora daqui. Imaginava os amigos que poderia fazer e claro, em arrumar um serviço de meio período, meu pai não concordou com essa parte, mais era algo que eu queria fazer.
— Alteza.
Madeleine entra no enorme quarto com alguns livros na mão.
— Que livro são esses?
vou em direção a ela e à ajudo.
—Alguns guias de Paris, pontos turísticos, bibliotecas e praças.
— Sério? Faz tanto tempo que estou aqui que nem sei se ainda é a mesma coisa.
Uma pontada de tristeza bate em mim e fico a pensar, Madeleine dá tchau e deseja boa noite.
Amanhã eu realizarei meu maior sonho : Viver!