Caos

1534 Palavras
Na manhã seguinte, o caos começa antes mesmo do café esfriar. O primeiro alerta surge nos celulares. Depois outro. E mais um. Em questão de minutos, o nome da empresa Poulin está em todos os lugares. “Escândalo internacional expõe práticas ilegais em subsidiária europeia.” “Documentos vazados indicam manipulação financeira e suborno.” “Grupo Poulin sob investigação.” No último andar do prédio, a televisão ligada transmite o noticiário em volume baixo. Alto o suficiente. Para incomodar. Damien está parado diante da parede de vidro, a cidade pulsando abaixo dele como se nada tivesse mudado. Mas mudou. Claire entra sem bater dessa vez. — Já está em todos os portais — diz, rápida, sem esconder a urgência. — A imprensa conseguiu documentos internos… contratos… nomes. Ela engole seco. — Inclusive o seu. Silêncio. Damien não se vira imediatamente. Seu reflexo no vidro permanece imóvel. — Quantos veículos? — pergunta, como se estivesse tratando de números comuns. — Todos. Agora ele se move. Lentamente. Olha para a tela. Um comentarista fala sobre “herdeiros despreparados” e “impérios prestes a ruir”. O canto da boca de Damien se curva. Quase um sorriso. — Rápido demais para ser coincidência… — murmura. Claire cruza os braços, tensa. — Você acha que foi interno? Ele não responde direto. Apenas pega o controle e aumenta o volume. “…fontes indicam que a diretoria estava ciente…” Os olhos âmbar dele escurecem. Agora sim. Interessante. — Quem assinou os contratos? — ele pergunta. Claire já tem a resposta. — Conselho jurídico… e aprovação final… Ela hesita. — …do seu pai. Uma pausa. Curta. Perigosa. Damien desliga a TV. O silêncio volta — mais pesado do que antes. — Perfeito — diz ele. Claire franze a testa. — Isso não é perfeito, Damien. Isso pode derrubar a empresa. Ele finalmente a encara. E há algo novo ali. Foco absoluto. — Não… — corrige. — Isso pode derrubar alguém. Ele pega o celular. Já discando. — Reúna o conselho em uma hora. — Uma hora? — Claire se espanta. — A imprensa está lá fora, investidores estão entrando em pânico— — Ótimo. Ele veste o paletó com calma irritante. — Quero todos assistindo. Ela hesita por um segundo. — E a doutora Moreau? Damien faz uma pausa ao ouvir o nome. Um segundo. Só um. — Principalmente ela. Claire sai apressada. Damien permanece sozinho por um instante. Olha novamente para a cidade. Então, quase como um sussurro: — Crise… Seus olhos brilham com algo frio. Calculado. — Primeira prova. E, pela primeira vez, ele parece exatamente onde queria estar. No centro do incêndio. A sala do conselho nunca estivera tão cheia. Câmeras. Microfones. Luzes fortes demais para um ambiente que, até então, sempre viveu de decisões feitas nas sombras. Hoje, não. Hoje, tudo era público. O nome Poulin estava estampado em cada tela de notícia. E no centro de tudo… Damien. Ele permanece de pé, diante da longa mesa, as mãos apoiadas com leveza sobre o vidro. Atrás dele, um painel exibe gráficos, manchetes, números — a crise já não é mais um sussurro interno. Virou espetáculo. Um jornalista levanta a voz: — Senhor Poulin, como responde às acusações envolvendo a subsidiária internacional? Há indícios claros de irregularidades financeiras— — Há indícios — Damien interrompe, sem elevar o tom. — Ou há conveniência em chamá-los assim? O murmúrio cresce. Alguns flashes disparam. Ele continua: — Porque, até agora, tudo que vi foram interpretações apressadas… de pessoas que nunca administraram nada além de narrativas. Um conselheiro se inclina, desconfortável. Outro evita olhar diretamente para a imprensa. Mas Damien… Ele está completamente à vontade. — Esta empresa não está em crise — ele diz, firme. — Está sendo testada. Seus olhos percorrem rapidamente o conselho. Param em Élise. Por um segundo. Só um. — E testes… revelam mais sobre quem observa do que sobre quem está sendo observado. Élise não desvia. Mas cruza os braços lentamente. Atenta. A imprensa não recua: — Então o senhor n**a qualquer irregularidade? Damien inclina levemente a cabeça. — Eu n**o a narrativa de que já existe uma conclusão. Ele se afasta da mesa. Agora, caminhando lentamente, dominando o espaço. — Por isso, a partir de hoje, estou abrindo uma auditoria independente completa. Internacional. Transparente. — pausa — E transmitida. Silêncio. Pesado. Um dos conselheiros praticamente engasga: — Você não pode— Damien se vira, olhar afiado. — Posso. E então… ele finaliza: — Porque se há algo errado, eu serei o primeiro a expor. Mais um passo. Mais perto das câmeras. — E se não houver… — seus olhos escurecem levemente — todos que apostaram contra esta empresa vão precisar explicar por quê. O impacto é imediato. A imprensa explode em perguntas. O conselho… em pânico silencioso. Mas não acabou. Porque, do outro lado da mesa, Élise se levanta. Calma. Precisa. E, pela primeira vez… ela entra no jogo diante de todos. — Auditoria independente… ao vivo — diz ela, olhando diretamente para ele. — Uma jogada ousada. Ela dá um passo à frente. — Mas transparência sem controle pode destruir mais rápido do que qualquer escândalo. Os olhos deles se encontram. De novo. Agora mais intensos. — Tem certeza de que está pronto para isso, senhor Poulin? — pergunta ela, sem suavizar. Um segundo de silêncio. A tensão quase palpável. Damien sorri. Devagar. Perigoso. — Doutora Moreau… — ele diz — eu não faço movimentos sem calcular o custo. Uma pausa. — A diferença é que eu não tenho medo de pagá-lo. Silêncio absoluto. E então— Flash. Flash. Flash. O jogo deixou de ser interno. Agora… o mundo inteiro está assistindo. A reunião termina. Não com aplausos. Não com consenso. Mas com um silêncio carregado de promessas não ditas. Um a um, os conselheiros deixam a sala, evitando cruzar olhares — como se tivessem presenciado algo que ainda não compreendem totalmente. Damien não sai. Ele permanece de pé, ao lado da cadeira, observando a vista através do vidro… como se a cidade lá fora fosse apenas mais uma peça no tabuleiro. A porta se fecha. Um clique suave. Ele não se vira. — Você ensaia esse tipo de entrada… ou é natural? — a voz dela surge atrás dele, baixa, controlada. Élise. Sozinha com ele. Agora, sem plateia. Damien sorri de leve, ainda olhando para frente. — E você? — responde, com a mesma calma. — Sempre desafia quem pode te demitir… ou hoje foi um dia especial? O som dos saltos dela ecoa pelo chão enquanto se aproxima. Sem pressa. Sem hesitação. — Se eu tivesse medo de perder meu cargo… — ela para a poucos passos dele — não estaria onde estou. Silêncio. Ele finalmente se vira. Devagar. O olhar dele encontra o dela — e dessa vez, não há distrações, não há política corporativa para esconder o que está acontecendo ali. É confronto puro. — Trinta dias — ele diz, aproximando-se um passo. — Você poderia ter me dado mais tempo. Ela não recua. — Eu não estou interessada em te dar vantagem. Mais um passo. Agora a distância entre eles é mínima. Tensa. Perigosa. — Não — ele murmura. — Você está interessada em ver até onde eu vou. Ela sustenta o olhar. — Estou interessada em saber se você quebra… ou se quebra os outros. O silêncio que se segue é quase físico. Pesado. Denso. Damien inclina levemente a cabeça, analisando cada detalhe do rosto dela — como se estivesse tentando decifrar algo raro. — Você já decidiu que não gosta de mim — ele observa. Um leve sorriso surge nos lábios dela. — Não seja presunçoso. Ela se inclina um pouco mais perto. Agora, a voz dela é mais baixa. Mais íntima. — Eu ainda estou decidindo se você é um risco… — uma pausa curta — ou uma oportunidade. Algo muda no olhar dele. Não é irritação. É interesse… mais profundo agora. Mais perigoso. Ele levanta a mão devagar — não tocando, mas parando a poucos centímetros do rosto dela, como se testasse um limite invisível. — Cuidado, doutora Moreau — ele diz, em um tom quase suave. — Oportunidades costumam cobrar caro. Ela não se afasta. Nem um centímetro. — E riscos costumam ser subestimados — ela rebate. Os dois ficam assim por um instante. Parados. Próximos demais. Como se qualquer movimento pudesse mudar tudo. Ou pior… confirmar. Então, Élise recua primeiro. Apenas o suficiente para quebrar a tensão — não para dissipá-la. — Comece pela crise jurídica — ela diz, voltando ao tom profissional. — Os documentos vão chegar até você ainda hoje. Ela caminha até a porta… mas para antes de sair. Sem olhar para trás: — E, Damien… Uma pausa. — Não confunda meu interesse com lealdade. Ele observa. Silencioso. Ela abre a porta. — Você ainda não provou que merece nenhuma das duas. A porta se fecha. Dessa vez, o silêncio é diferente. Não é vazio. É carregado. Promissor. Damien passa a mão lentamente pelo maxilar, um sorriso quase imperceptível surgindo. — Finalmente… — murmura para si mesmo. E, pela primeira vez desde que o jogo começou… Ele não estava pensando em vencer. Estava pensando nela.
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