Lado a Lado

1266 Palavras
A chuva começa a cair contra os vidros do prédio como um aviso. Grossa. Constante. Incômoda. O tipo de tempestade que combina com crises… e decisões erradas. Damien m*l havia saído da sala do conselho quando Claire o alcança no corredor, passos rápidos, respiração controlada demais para ser casual. — Temos um problema. Ele não para de andar. — Temos vários. — Esse já vazou. Isso o faz parar. Devagar. — Como? — Imprensa internacional. A ação que a doutora Moreau mencionou… — ela hesita por um segundo — já está sendo investigada. Silêncio. Um segundo. Dois. Damien gira levemente o rosto. — Onde ela está? — Minutos depois. — A porta da sala jurídica se fecha atrás deles com um clique seco. Agora, não há conselho. Não há pai. Não há plateia. Apenas os dois. Élise está de pé ao lado da mesa, várias telas acesas refletindo nos olhos dela. Documentos espalhados, anotações rápidas, nomes destacados. Ela não se vira imediatamente. — Achei que você levaria pelo menos uma hora para vir até aqui — diz, folheando um relatório. Damien se aproxima. Sem pressa. — E perder o início do incêndio? Ele para ao lado dela, próximo demais para ser confortável… longe demais para ser íntimo. — Nunca. Ela finalmente o encara. E há algo diferente agora. Menos provocação. Mais urgência. — A subsidiária na Bélgica. — Ela desliza um tablet na direção dele. — Manipulação de contratos. Pagamentos ocultos. Se isso for confirmado… — Não é “se” — ele interrompe, analisando os dados. — É “quando”. Um breve silêncio. Ela observa o perfil dele. — Você nem cogita negar? Ele solta um leve riso nasal. — Negar é para quem ainda acha que controle vem da ilusão. Ele levanta o olhar para ela. — Nós controlamos a narrativa. Nós. Ela percebe. Mas não comenta. — A imprensa já tem parte do material — ela continua. — Se reagirmos errado, isso vira um escândalo internacional em horas. — Então reagimos certo. Ele se inclina sobre a mesa, apoiando uma mão ao lado dela. Agora, próximos de verdade. — Me diga, doutora Moreau… — a voz dele baixa, mais íntima, mais perigosa — isso faz parte da sua prova… Ele inclina um pouco mais. — …ou você acabou de me jogar no fogo sem aviso? Ela não recua. Nem um centímetro. — Eu disse que você já estava nele. Um segundo. Dois. A tensão entre eles é quase palpável. Então ela se move — passando por ele, pegando outro arquivo. Mas não se afasta de verdade. — Temos duas opções — diz, retomando o tom profissional. — Abafar… ou expor. Damien se vira lentamente. — Abafar é perder controle. Ela concorda, com um leve aceno. — Então expor. Silêncio. Eles se encaram. E, pela primeira vez, estão completamente alinhados. — Vamos assumir antes que descubram — Damien conclui. — Mas do nosso jeito. — Uma coletiva — ela completa. — Com posicionamento jurídico sólido e… — Responsáveis já definidos — ele finaliza. Ela estreita os olhos. — Você já tem alguém em mente. Ele sustenta o olhar. — Sempre tenho. Um pequeno sorriso surge nos lábios dela. Não de humor. De reconhecimento. — Frio. — E você? — ele rebate. — Sempre tão confortável no caos? Ela fecha a pasta com firmeza. — Eu não sou confortável no caos. Um passo na direção dele. — Eu sou eficiente nele. Silêncio. A chuva continua batendo contra o vidro. Mas agora… Não é ameaça. É trilha sonora. Damien observa ela por mais um instante… longo demais para ser apenas profissional. — Então acho que vamos trabalhar muito bem juntos. Ela inclina levemente a cabeça. — Não confunda eficiência com parceria. Ele se aproxima só o suficiente para que a voz dele não precise subir. — Não confunda resistência com indiferença. Um segundo. O olhar dela cai brevemente para os lábios dele. E volta. Firme. Controlado. — Temos uma empresa para salvar, senhor Poulin. Ele sustenta o olhar. — E uma guerra para vencer, doutora Moreau. — E pela primeira vez… Eles estão do mesmo lado. O que, de alguma forma, é ainda mais perigoso. As luzes são fortes. Cegantes. O calor dos refletores invade o ambiente, misturado ao murmúrio constante de jornalistas, câmeras sendo ajustadas, microfones sendo testados. O logo da empresa domina o fundo do palco — imponente, impecável. Mas hoje… vulnerável. A coletiva já estava ao vivo. — Estamos recebendo informações de que a empresa pode estar envolvida em irregularidades internacionais… — Há fontes dizendo que documentos foram vazados— — O nome Poulin está diretamente ligado a— O caos cresce. Até que eles entram. Lado a lado. Damien Poulin e Élise Moreau. E, por um segundo… tudo para. Não por respeito. Por impacto. Ele, postura reta, olhar frio, terno perfeitamente alinhado — como se estivesse entrando em um jantar, não em uma crise pública. Ela, elegante, precisa, expressão inabalável — como se já tivesse vencido aquela batalha antes mesmo de começar. Os flashes explodem. Perguntas são lançadas de todos os lados. — Senhor Poulin, o senhor n**a as acusações? — Doutora Moreau, há base legal nessas denúncias? — A empresa está sendo investigada formalmente? Damien não responde. Não ainda. Ele apenas observa. Mas não a imprensa. Ela. Élise. Por um breve segundo, os olhos dele encontram os dela. E ali… existe um acordo silencioso. Sem confiança. Mas com entendimento. Ela dá um passo à frente. Toma o controle. — Boa tarde. A voz dela não precisa ser alta. O silêncio vem até ela. — Antes de qualquer especulação… vamos estabelecer fatos. Ela apoia as mãos no púlpito, firme. — Sim, existe uma investigação em curso envolvendo uma subsidiária internacional. — diz, direta — E não, até o momento, não há qualquer prova que conecte a presidência ou a diretoria executiva a práticas ilegais. As perguntas voltam, mais intensas. — Então há irregularidades? — Quem é responsável? — O senhor Damien já tinha conhecimento disso? Élise não recua. Mas, dessa vez… ela não responde. Ela olha para Damien. Agora. É a vez dele. Um movimento quase imperceptível. Ele avança. E quando fala— A sala prende o ar. — Vocês querem culpados. Simples. Direto. Frio. — Eu quero controle. O silêncio que segue não é confuso. É atento. Perigoso. — Se houve falha… — ele continua — eu vou encontrar. Se houve crime… eu vou expor. Ele inclina levemente o rosto. — E, se alguém nesta empresa acredita que pode se esconder atrás do nome da família Poulin… Uma pausa. Os olhos dele percorrem as câmeras. Como se estivesse falando com alguém específico. — Está enganado. Um jornalista se levanta, quase interrompendo: — Isso é uma admissão de que há corrupção interna? Damien sorri. Dessa vez… sem calor algum. — Isso é uma promessa. Silêncio absoluto. E então— — Senhor Poulin! — outra voz surge — O conselho ainda confia no senhor para assumir a presidência? Agora… é Élise quem reage primeiro. Um leve inclinar de cabeça. Quase imperceptível. Mas Damien vê. E entende. Ele se aproxima um pouco mais do microfone. — Depois de hoje… Ele não olha para ela. Mas a presença dela está ali. Constante. — …a pergunta não é se eles confiam em mim. Uma pausa. Controlada. Calculada. — É se conseguem funcionar sem mim. Explosão. Perguntas. Flash. Tensão. Mas, no meio do caos— Eles não se movem. Não recuam. E, por um breve segundo, enquanto o mundo tenta desmontá-los ao vivo… Damien e Élise permanecem exatamente onde devem estar. No centro. Do controle.
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