A sala de coletiva está cheia.
Luzes fortes. Câmeras apontadas. Microfones alinhados como armas sobre a mesa. O logo da empresa atrás deles reforça o peso do momento.
Damien e Élise estão lado a lado.
Muito próximos.
Muito perigosos.
— Como já foi esclarecido — Élise diz, com a voz firme e impecável — a empresa está passando por um processo interno de reestruturação estratégica, e qualquer alegação—
Um barulho seco interrompe.
Um celular vibra alto demais sobre a mesa de um jornalista.
Depois outro.
E outro.
Em segundos, o ambiente muda.
Não é mais atenção.
É inquietação.
Os olhos começam a cair para as telas.
Testas franzem.
Sussurros.
— Isso… isso já está online?
— Não pode ser…
— Publicaram tudo?
Damien não se move.
Mas percebe.
Claro que percebe.
Élise para de falar no meio da frase.
Algo está errado.
Muito errado.
Um dos jornalistas levanta, sem conseguir conter:
— Senhor Poulin… a empresa pretende comentar o vazamento de documentos internos?
Silêncio.
Cortante.
Outro já emenda, mais agressivo:
— Contratos ilegais, transferências suspeitas… paraísos fiscais. Isso tudo aconteceu sob a gestão da família Poulin?
O caos começa a se formar.
Vozes sobrepostas.
Perguntas disparadas sem controle.
— Há quanto tempo vocês sabiam disso?
— Isso envolve diretamente o senhor?
— É por isso que a sucessão está sendo acelerada?
Élise vira o rosto, finalmente olhando para Damien.
E, pela primeira vez…
há urgência em seus olhos.
— Isso não estava no cronograma — ela murmura, baixo o suficiente para só ele ouvir.
Damien, porém…
sorri.
Não surpreso.
Não irritado.
Mas perigosamente… interessado.
Ele se inclina levemente para o microfone.
E bate com os dedos uma única vez na mesa.
O som ecoa.
E, estranhamente…
o barulho diminui.
— Já que todos parecem… tão bem informados — ele começa, a voz calma, controlada — vamos evitar especulações desnecessárias.
Uma pausa.
Os olhos dele percorrem a sala.
Dominando.
Controlando.
— Sim. Houve um vazamento.
O impacto é imediato.
Mas ele não para.
— E sim… os documentos são reais.
Agora o choque é completo.
Élise vira o rosto para ele, surpresa de verdade dessa vez.
Isso não era a estratégia.
Não daquele jeito.
Damien continua:
— O que ainda não está claro… — ele inclina levemente a cabeça — é quem decidiu que este seria o momento ideal para divulgá-los.
Silêncio absoluto.
A mudança é sutil.
Mas poderosa.
Agora… não é só escândalo.
É caça.
Ele recosta na cadeira, os olhos frios brilhando sob as luzes.
— Porque isso — continua, com um leve sorriso — não é apenas uma crise.
Uma pausa.
Calculada.
— É uma tentativa de sabotagem.
As câmeras disparam flashes.
Os jornalistas se inclinam, famintos.
E então…
ele olha diretamente para Élise.
Por um segundo.
Só um.
Mas o suficiente.
Como se dissesse:
Agora você também está dentro disso.
Ela sustenta o olhar.
Sem recuar.
Sem quebrar.
Mas agora sabe.
As “provas” começaram.
E alguém…
já deu o primeiro golpe.
A sala de reuniões já está vazia quando a ordem vem.
Não do conselho.
De Jacques.
— Vocês dois ficam.
A porta se fecha atrás dos últimos conselheiros com um clique seco que ecoa mais do que deveria.
Silêncio.
Pesado. Carregado.
Damien permanece de pé, ajustando lentamente o relógio no pulso, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Élise não se move de imediato.
Ainda de pé do outro lado da mesa, ela mantém os olhos nele — atentos, avaliando cada micro reação.
Jacques se levanta.
— A ação judicial que mencionei não é uma hipótese — diz, sem rodeios. — É uma bomba prestes a explodir.
Ele desliza um dossiê sobre a mesa.
Direto para o centro.
— E vocês dois vão lidar com isso.
Damien nem olha para o documento.
— “Nós dois”?
Jacques sustenta o olhar do filho.
— Você quer a presidência. Ela quer ter certeza de que você não vai destruir a empresa.
Uma pausa.
— Trabalhem juntos… ou falhem juntos.
E então ele sai.
A porta se fecha.
Dessa vez, mais alto.
Agora, estão sozinhos.
Por alguns segundos, nenhum dos dois fala.
A cidade se estende pelas janelas de vidro, distante… irrelevante.
Élise é a primeira a se mover.
Ela pega o dossiê, abre, folheia com rapidez — seus olhos correm pelas páginas com familiaridade assustadora.
— Subsidiária de Lyon — diz ela. — Contratos inflados, lavagem de ativos, e… — ela vira mais uma página — um denunciante disposto a falar com a imprensa em menos de 48 horas.
Ela fecha o arquivo com firmeza.
— Isso não é uma crise. É um escândalo pronto.
Damien finalmente se aproxima.
Para ao lado dela.
Perto demais.
— E você já sabia — ele observa, a voz baixa.
Não é uma pergunta.
Élise vira o rosto levemente, ficando a poucos centímetros dele.
— Eu sou a diretora jurídica. É literalmente o meu trabalho.
— Não — ele rebate, ainda mais baixo. — Você sabia antes.
Silêncio.
Tenso.
Ela não n**a.
Mas também não confirma.
— Agora não importa — diz, firme. — O que importa é que temos dois dias antes disso sair na mídia.
Damien pega o dossiê da mão dela.
Seus dedos roçam os dela no processo.
Rápido.
Mas intencional.
Ele folheia algumas páginas, então fecha.
Decidido.
— Nós não vamos apagar isso.
Élise estreita os olhos.
— Claro que não. Vamos conter.
— Não — ele corta, virando-se para ela. — Vamos expor.
Silêncio.
Pesado.
— Você enlouqueceu? — ela pergunta, pela primeira vez deixando a calma oscilar. — Isso pode derrubar a empresa.
— Ou salvar — ele responde, imediato.
Ele dá um passo à frente.
Ela não recua.
— Se isso vazar por outra fonte, perdemos controle — ele continua. — Se formos nós a revelar… controlamos a narrativa.
Os olhos dela analisam os dele.
Profundamente.
Calculando.
— Você está sugerindo transformar um escândalo em estratégia.
— Estou sugerindo sobreviver.
Mais um segundo de silêncio.
Então…
Um leve sorriso surge nos lábios dela.
Perigoso.
— Arriscado.
— Eficiente.
— Imprudente.
— Necessário.
Eles estão muito próximos agora.
Muito.
Élise inclina levemente a cabeça, estudando-o como se fosse a primeira vez.
— Você não é nada do que eu esperava.
Damien segura o olhar dela.
— Isso é um problema?
Ela sustenta por mais um segundo…
E então se afasta, pegando o tablet.
— Ainda não.
Ela começa a digitar, já entrando no jogo.
— Precisamos identificar o denunciante antes que ele fale. Se vamos controlar a narrativa, precisamos saber o que exatamente ele tem.
Damien observa.
Um pequeno sorriso surge.
Não de ironia.
De reconhecimento.
— Então vamos trabalhar, doutora Moreau.
Ela lança um olhar rápido para ele, enquanto caminha em direção à porta.
— Tente acompanhar, senhor Poulin.
Ele a segue.
Sem pressa.
Mas agora…
Claramente interessado.