Caça

1270 Palavras
A porta se fecha atrás deles com um clique seco. Dessa vez, não há conselho. Não há plateia. Não há máscaras necessárias. Só eles dois. O som dos passos ecoa pelo corredor silencioso enquanto caminham lado a lado — rápidos, precisos… sincronizados de uma forma quase irritante. Élise quebra o silêncio primeiro. — Você sabia. Não é uma pergunta. Damien não responde imediatamente. Apenas continua andando, como se a acusação fosse irrelevante. — O vazamento — ela continua, agora virando o rosto para ele — você não reagiu. Você… esperou por isso. Ele para. Devagar. E então se vira para ela. Perto demais. — Eu não espero por crises — diz, a voz baixa, controlada. — Eu as reconheço. Os olhos dela estreitam. — Isso não é reconhecimento. É antecipação. Silêncio. Tenso. Carregado. Ele inclina levemente a cabeça, analisando-a como se estivesse decidindo algo. — Você quer mesmo essa resposta, doutora Moreau? Ela não hesita. — Quero saber com quem estou trabalhando. Um segundo. Dois. Então ele se aproxima mais. Agora não há espaço entre eles. — Então preste atenção — murmura. A mão dele sobe… não a toca, mas para perigosamente próxima ao braço dela. — Isso não começou hoje. O olhar dela muda. Sutilmente. — Esses contratos… essa subsidiária… — ele continua — alguém vem construindo isso há meses. Talvez anos. — Eu sei disso — ela corta. — Não — ele rebate, firme. — Você sabe o que está no papel. Uma pausa. — Eu sei quem ganha com isso. Silêncio. Pesado. Élise sustenta o olhar. — Então diga. Ele observa o rosto dela por um momento… como se estivesse avaliando risco. Ou confiança. — Meu pai. O impacto não é barulhento. Mas é profundo. Ela não reage de imediato. Mas o leve tensionar de sua mandíbula entrega tudo. — Isso é uma acusação grave. — Isso é uma leitura lógica. Ele finalmente se afasta, caminhando até a janela. A cidade brilha lá fora — indiferente ao que está prestes a ruir. — Jacques não construiu um império sem saber exatamente onde estão seus pontos de ruptura — Damien continua. — E ele acabou de nos entregar o maior deles… com prazo. Élise cruza os braços. — Você está dizendo que isso tudo… — ela faz um gesto vago, abrangendo o escândalo, a coletiva, o caos — é um teste? Ele olha por cima do ombro. — Não. Uma pausa. Um leve sorriso. Perigoso. — É uma seleção natural. Silêncio. Ela absorve. Rápido. Inteligente. Perigosa também. Então, lentamente, um sorriso surge nos lábios dela. Não de surpresa. De entendimento. — Então temos duas opções — ela diz, aproximando-se novamente. — Ou somos as presas… Ela para na frente dele. Muito perto. — …ou nos tornamos o problema. Os olhos dele escurecem levemente. Interesse puro agora. — Finalmente estamos falando a mesma língua. Mais um segundo de silêncio. Denso. Carregado de algo que já não é só estratégia. — O denunciante — ela diz, voltando ao foco — se ele falar antes de nós, perdemos o controle. — Ele não vai falar. Ela arqueia a sobrancelha. — E você sabe disso como? Damien se inclina levemente. E então, quase como um segredo: — Porque eu sei exatamente onde ele está. Silêncio. Total. O tipo de silêncio que muda tudo. O olhar dela trava no dele. Agora não há mais dúvida. Não há mais distância. Só uma conclusão inevitável: Ela não está trabalhando com um herdeiro. Está trabalhando com alguém muito mais perigoso. E talvez… Pela primeira vez na vida… Ela tenha encontrado alguém à altura. — Então vamos buscá-lo — ela diz, firme. Ele sorri. Dessa vez, sem disfarçar. — Não, Élise… Uma pausa. E então, mais baixo: — Vamos caçá-lo. A chuva cai pesada sobre a cidade quando Damien sai do prédio. O carro já está à espera. Motor ligado. Porta aberta. Mas ele não entra. — Você vem? — pergunta, sem olhar para trás. Um segundo de silêncio. Saltos ecoam no mármore. Élise. — Eu não trabalho para você — ela diz, parando ao lado dele, cruzando os braços. Ele inclina levemente a cabeça, um quase sorriso surgindo. — Ainda não. Ela sustenta o olhar. — Eu vou porque quero respostas. — Ótimo — Damien responde, finalmente entrando no carro. — Porque eu vou porque quero alguém. Ela entra logo em seguida. A porta fecha. E o mundo lá fora fica… distante. Dentro do carro, o clima é outro. Mais fechado. Mais denso. Um tablet aceso entre eles, exibindo dados fragmentados — contas offshore, transferências suspeitas, nomes apagados às pressas. — O denunciante não é amador — Élise diz, deslizando o dedo pela tela. — Ele sabe exatamente o que está fazendo. Isso aqui não é vazamento impulsivo… é construção. Damien observa. Silencioso. — Ele quer nos expor — ela continua. — Mas no tempo dele. — Não — Damien responde, finalmente. — Ele quer negociar. Ela vira o rosto na direção dele. Interesse imediato. — Com o conselho? — Com poder. Um breve silêncio. Então o carro desacelera. — Chegamos. O lugar é… errado. Um prédio antigo. Luzes falhando. Muito longe do padrão corporativo da Poulin. — Você realmente acha que ele estaria aqui? — Élise pergunta, descendo do carro, olhando ao redor. Damien ajusta o paletó. — Não. Ele começa a andar. — Mas alguém que leva até ele… está. Dentro, o ar é pesado. Cheiro de mofo. E tensão. Eles sobem dois lances de escada. Sem segurança. Sem equipe. Só os dois. — Isso é imprudente — Élise murmura. — Isso é necessário — ele responde, sem parar. Ela acelera o passo, alcançando-o. — Se isso for uma armadilha— — Então vamos descobrir juntos. Ela segura o braço dele. Firme. Forte. Ele para. Olha para baixo… para a mão dela. Depois para os olhos dela. Muito próximos agora. — Você não tem medo, Damien? — ela pergunta, baixa. Um segundo. Dois. Ele se inclina ligeiramente. A voz dele sai quase como um segredo: — Eu tenho. Ela prende a respiração. — De quê? Um olhar direto. Cru. — De alguém chegar antes de mim. Silêncio. Pesado. Elétrico. Ela solta o braço dele lentamente. Mas não se afasta. — Então vamos acabar com isso — ela diz. A porta no fim do corredor está entreaberta. Luz acesa. Um som baixo vindo de dentro. Teclado. Alguém está lá. Damien empurra a porta. Sem aviso. Sem hesitação. — Acabou. O homem dentro da sala congela. Olhos arregalados. Um laptop aberto exibindo arquivos… da empresa. — Eu… eu posso explicar— — Não precisa — Élise corta, já entrando, fechando a porta atrás deles. O homem olha entre os dois. Confuso. Desesperado. — Vocês não entendem… isso é maior do que vocês— Damien avança um passo. Devagar. Controlado. — Eu sei exatamente o tamanho disso. Outro passo. — A diferença… Ele para bem na frente dele. O olhar agora… frio de verdade. — …é que você não sabe o tamanho de quem você acabou de provocar. Silêncio. O som da chuva lá fora aumenta. E então— O celular do denunciante vibra sobre a mesa. Todos olham. Uma mensagem. Número desconhecido. Mas Damien reconhece o padrão. Lento. Preciso. Perigoso. Ele pega o celular. Lê. E… pela primeira vez… o sorriso dele desaparece. Élise percebe. Imediatamente. — O que foi? Damien ergue os olhos. Agora não há ironia. Nem jogo. Só algo novo. Mais escuro. — Isso não começou com ele. Uma pausa. — E também não termina aqui. Ele vira o celular para ela. Uma única frase na tela: “Pergunte ao seu pai.”
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