A porta se fecha atrás deles com um clique seco.
Dessa vez, não há conselho.
Não há plateia.
Não há máscaras necessárias.
Só eles dois.
O som dos passos ecoa pelo corredor silencioso enquanto caminham lado a lado — rápidos, precisos… sincronizados de uma forma quase irritante.
Élise quebra o silêncio primeiro.
— Você sabia.
Não é uma pergunta.
Damien não responde imediatamente. Apenas continua andando, como se a acusação fosse irrelevante.
— O vazamento — ela continua, agora virando o rosto para ele — você não reagiu. Você… esperou por isso.
Ele para.
Devagar.
E então se vira para ela.
Perto demais.
— Eu não espero por crises — diz, a voz baixa, controlada. — Eu as reconheço.
Os olhos dela estreitam.
— Isso não é reconhecimento. É antecipação.
Silêncio.
Tenso.
Carregado.
Ele inclina levemente a cabeça, analisando-a como se estivesse decidindo algo.
— Você quer mesmo essa resposta, doutora Moreau?
Ela não hesita.
— Quero saber com quem estou trabalhando.
Um segundo.
Dois.
Então ele se aproxima mais.
Agora não há espaço entre eles.
— Então preste atenção — murmura.
A mão dele sobe… não a toca, mas para perigosamente próxima ao braço dela.
— Isso não começou hoje.
O olhar dela muda.
Sutilmente.
— Esses contratos… essa subsidiária… — ele continua — alguém vem construindo isso há meses. Talvez anos.
— Eu sei disso — ela corta.
— Não — ele rebate, firme. — Você sabe o que está no papel.
Uma pausa.
— Eu sei quem ganha com isso.
Silêncio.
Pesado.
Élise sustenta o olhar.
— Então diga.
Ele observa o rosto dela por um momento… como se estivesse avaliando risco.
Ou confiança.
— Meu pai.
O impacto não é barulhento.
Mas é profundo.
Ela não reage de imediato.
Mas o leve tensionar de sua mandíbula entrega tudo.
— Isso é uma acusação grave.
— Isso é uma leitura lógica.
Ele finalmente se afasta, caminhando até a janela. A cidade brilha lá fora — indiferente ao que está prestes a ruir.
— Jacques não construiu um império sem saber exatamente onde estão seus pontos de ruptura — Damien continua. — E ele acabou de nos entregar o maior deles… com prazo.
Élise cruza os braços.
— Você está dizendo que isso tudo… — ela faz um gesto vago, abrangendo o escândalo, a coletiva, o caos — é um teste?
Ele olha por cima do ombro.
— Não.
Uma pausa.
Um leve sorriso.
Perigoso.
— É uma seleção natural.
Silêncio.
Ela absorve.
Rápido.
Inteligente.
Perigosa também.
Então, lentamente, um sorriso surge nos lábios dela.
Não de surpresa.
De entendimento.
— Então temos duas opções — ela diz, aproximando-se novamente. — Ou somos as presas…
Ela para na frente dele.
Muito perto.
— …ou nos tornamos o problema.
Os olhos dele escurecem levemente.
Interesse puro agora.
— Finalmente estamos falando a mesma língua.
Mais um segundo de silêncio.
Denso.
Carregado de algo que já não é só estratégia.
— O denunciante — ela diz, voltando ao foco — se ele falar antes de nós, perdemos o controle.
— Ele não vai falar.
Ela arqueia a sobrancelha.
— E você sabe disso como?
Damien se inclina levemente.
E então, quase como um segredo:
— Porque eu sei exatamente onde ele está.
Silêncio.
Total.
O tipo de silêncio que muda tudo.
O olhar dela trava no dele.
Agora não há mais dúvida.
Não há mais distância.
Só uma conclusão inevitável:
Ela não está trabalhando com um herdeiro.
Está trabalhando com alguém muito mais perigoso.
E talvez…
Pela primeira vez na vida…
Ela tenha encontrado alguém à altura.
— Então vamos buscá-lo — ela diz, firme.
Ele sorri.
Dessa vez, sem disfarçar.
— Não, Élise…
Uma pausa.
E então, mais baixo:
— Vamos caçá-lo.
A chuva cai pesada sobre a cidade quando Damien sai do prédio.
O carro já está à espera.
Motor ligado.
Porta aberta.
Mas ele não entra.
— Você vem? — pergunta, sem olhar para trás.
Um segundo de silêncio.
Saltos ecoam no mármore.
Élise.
— Eu não trabalho para você — ela diz, parando ao lado dele, cruzando os braços.
Ele inclina levemente a cabeça, um quase sorriso surgindo.
— Ainda não.
Ela sustenta o olhar.
— Eu vou porque quero respostas.
— Ótimo — Damien responde, finalmente entrando no carro. — Porque eu vou porque quero alguém.
Ela entra logo em seguida.
A porta fecha.
E o mundo lá fora fica… distante.
Dentro do carro, o clima é outro.
Mais fechado.
Mais denso.
Um tablet aceso entre eles, exibindo dados fragmentados — contas offshore, transferências suspeitas, nomes apagados às pressas.
— O denunciante não é amador — Élise diz, deslizando o dedo pela tela. — Ele sabe exatamente o que está fazendo. Isso aqui não é vazamento impulsivo… é construção.
Damien observa.
Silencioso.
— Ele quer nos expor — ela continua. — Mas no tempo dele.
— Não — Damien responde, finalmente. — Ele quer negociar.
Ela vira o rosto na direção dele.
Interesse imediato.
— Com o conselho?
— Com poder.
Um breve silêncio.
Então o carro desacelera.
— Chegamos.
O lugar é… errado.
Um prédio antigo.
Luzes falhando.
Muito longe do padrão corporativo da Poulin.
— Você realmente acha que ele estaria aqui? — Élise pergunta, descendo do carro, olhando ao redor.
Damien ajusta o paletó.
— Não.
Ele começa a andar.
— Mas alguém que leva até ele… está.
Dentro, o ar é pesado.
Cheiro de mofo.
E tensão.
Eles sobem dois lances de escada.
Sem segurança.
Sem equipe.
Só os dois.
— Isso é imprudente — Élise murmura.
— Isso é necessário — ele responde, sem parar.
Ela acelera o passo, alcançando-o.
— Se isso for uma armadilha—
— Então vamos descobrir juntos.
Ela segura o braço dele.
Firme.
Forte.
Ele para.
Olha para baixo… para a mão dela.
Depois para os olhos dela.
Muito próximos agora.
— Você não tem medo, Damien? — ela pergunta, baixa.
Um segundo.
Dois.
Ele se inclina ligeiramente.
A voz dele sai quase como um segredo:
— Eu tenho.
Ela prende a respiração.
— De quê?
Um olhar direto.
Cru.
— De alguém chegar antes de mim.
Silêncio.
Pesado.
Elétrico.
Ela solta o braço dele lentamente.
Mas não se afasta.
— Então vamos acabar com isso — ela diz.
A porta no fim do corredor está entreaberta.
Luz acesa.
Um som baixo vindo de dentro.
Teclado.
Alguém está lá.
Damien empurra a porta.
Sem aviso.
Sem hesitação.
— Acabou.
O homem dentro da sala congela.
Olhos arregalados.
Um laptop aberto exibindo arquivos… da empresa.
— Eu… eu posso explicar—
— Não precisa — Élise corta, já entrando, fechando a porta atrás deles.
O homem olha entre os dois.
Confuso.
Desesperado.
— Vocês não entendem… isso é maior do que vocês—
Damien avança um passo.
Devagar.
Controlado.
— Eu sei exatamente o tamanho disso.
Outro passo.
— A diferença…
Ele para bem na frente dele.
O olhar agora… frio de verdade.
— …é que você não sabe o tamanho de quem você acabou de provocar.
Silêncio.
O som da chuva lá fora aumenta.
E então—
O celular do denunciante vibra sobre a mesa.
Todos olham.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
Mas Damien reconhece o padrão.
Lento.
Preciso.
Perigoso.
Ele pega o celular.
Lê.
E… pela primeira vez…
o sorriso dele desaparece.
Élise percebe.
Imediatamente.
— O que foi?
Damien ergue os olhos.
Agora não há ironia.
Nem jogo.
Só algo novo.
Mais escuro.
— Isso não começou com ele.
Uma pausa.
— E também não termina aqui.
Ele vira o celular para ela.
Uma única frase na tela:
“Pergunte ao seu pai.”