Guerra

1499 Palavras
A tensão muda de forma ali. Não desaparece. Ela evolui. Como se algo invisível tivesse acabado de entrar na sala com eles. Élise não pega o celular de imediato. Ela olha primeiro para Damien. E isso diz tudo. — Seu pai… — a voz dela sai mais baixa agora, mais calculada — isso está começando a ficar previsível demais. Damien não responde. O silêncio dele não é vazio. É… processamento. Rápido. Perigoso. Ele volta a olhar para o denunciante. Agora não como alvo. Mas como… peça. — Quem mais sabe? — pergunta, direto. O homem engole seco. — Eu… eu não sei do que você— Damien pega a cadeira ao lado. Arrasta. O som rasga o ambiente. Ele se senta. Calmo demais. — Você não construiu isso — ele diz, quase entediado. — Você só apertou “enviar”. O denunciante treme. Olha para Élise. Erro. Ela não o salva. — Ele está certo — ela diz, fria. — Você não tem estrutura pra isso. Nem cobertura. Nem timing. Ela se aproxima da mesa. Observa o laptop. Os arquivos. E então: — Mas você teve acesso. Ela levanta os olhos. — E isso é mais interessante. Silêncio. O homem hesita. E essa hesitação… condena. Damien inclina levemente a cabeça. — Alguém te abriu a porta — ele continua. — Alguém que não aparece. Uma pausa. — Quem? — Eu não posso— Damien ri. Baixo. Sem humor. — Pode. Ele se inclina pra frente. Os cotovelos apoiados nos joelhos. Olhar fixo. — A questão é se você prefere falar comigo… Um segundo. — …ou com quem te mandou essa mensagem. O impacto é imediato. O denunciante empalidece. — Você… você viu? Élise cruza os braços. Observando. Analisando. — Ele não só viu — ela diz. — Ele reconheceu. O homem começa a suar. — Eu… eu nunca encontrei ele. Eu juro. Era tudo por mensagem. Instruções. Arquivos já separados… Damien levanta. Devagar. — Como ele te encontrou? — Eu— eu postei em um fórum… sobre compliance… anonimato corporativo… ele respondeu. Élise solta um suspiro curto. — Amador — ela murmura. — Desesperado — Damien corrige. Ele pega o celular novamente. Lê a mensagem mais uma vez. E dessa vez… Ele vê o que passou antes. Um detalhe. Pequeno. Mas fatal. — Isso não é só uma provocação — ele diz. Élise se aproxima. — O que você viu? Ele mostra a tela. — O horário. Ela analisa. E então entende. — Enviado antes da gente chegar aqui… Um segundo. — Ele já sabia. Silêncio. Pesado. — Ele está assistindo — ela conclui. O denunciante olha ao redor, em pânico. — Não tem ninguém aqui— — Não aqui — Damien corta. Ele olha para cima. Como se pudesse ver através do teto. — Mais longe. Mais alto. Mais seguro. Um jogo maior. Élise dá um passo para trás. Agora isso não é mais só sobre o pai dele. — Isso foi planejado pra nos trazer até ele — ela diz. Damien concorda, quase imperceptivelmente. — E pra testar como reagimos. Um pequeno sorriso volta. Mas não é o mesmo de antes. Esse é mais frio. Mais afiado. — Ele quer saber se somos úteis… ou descartáveis. O olhar de Élise encontra o dele. Sem medo. Sem recuo. — Então vamos dar uma resposta. Silêncio. O tipo de silêncio que antecede decisões irreversíveis. Damien pega o celular. Digita. Rápido. Preciso. Para o mesmo número. Ele para por um segundo antes de enviar. Como se estivesse… saboreando o momento. Então envia. Élise observa. — O que você escreveu? Ele trava o telefone. Ergue os olhos. E dessa vez… o sorriso volta completo. Perigoso. — “Tarde demais.” Um segundo. O celular vibra novamente. Resposta imediata. Eles se entreolham. Damien desbloqueia. Lê. E dessa vez… ele ri. De verdade. Baixo. Quase impressionado. — Eu estava errado — ele diz. — Sobre o quê? — Élise pergunta. Ele vira a tela para ela. A nova mensagem: “Agora começou.” Silêncio. Mas não é mais o mesmo silêncio. Agora é… promessa. Do lado de fora, a chuva continua caindo. Mas lá dentro? Algo muito maior acabou de ser colocado em movimento. E nenhum dos dois… tem intenção de parar. O silêncio não se quebra. Ele… se reorganiza. Como peças sendo movidas num tabuleiro que nenhum dos três ali consegue ver por completo. Damien ainda está olhando para a tela. Mas não está mais lendo. Está… calculando. Élise percebe. — Você gostou — ela diz, baixa. Não é julgamento. É diagnóstico. Um canto quase imperceptível da boca dele se move. — Finalmente alguém respondeu certo. Ela inclina levemente a cabeça. — Isso não é resposta. É provocação. — Exato. Ele guarda o celular no bolso interno do paletó. Sem pressa. Como se o tempo agora… estivesse do lado dele. — Ele não quer dinheiro — Damien continua. — Não quer proteção. Um olhar rápido para o denunciante, que parece cada vez menor na sala. — Ele quer reação. Élise cruza os braços novamente. — E você acabou de dar exatamente isso. Damien se aproxima dela. Devagar. — Não. Uma pausa. — Eu dei algo melhor. Ela sustenta o olhar. — O quê? Ele chega perto o suficiente para que a resposta não precise ser dita em voz alta. Mas ainda assim ele diz. — Interesse. Silêncio. E isso… muda tudo. O denunciante tenta recuar discretamente. Erro número dois. Damien nem olha para ele. — Senta. A palavra sai baixa. Mas absoluta. O homem obedece. Quase automaticamente. Élise observa isso. Registra. Guarda. — Ele vai entrar em contato de novo — ela diz. Damien n**a levemente. — Não. — Não? — Agora não. Ele caminha lentamente pela sala. Olhos passando por cada detalhe. Porta. Janela. Tomadas. Roteador. Câmera improvisada no canto. Ele para. Um sorriso surge. — Ele já está em contato. Élise segue o olhar dele. A câmera. Pequena. Mal posicionada. Mas ativa. O denunciante arregala os olhos. — Eu não— eu não sabia disso— — Claro que não sabia — Damien responde, quase entediado. Ele se aproxima da câmera. Fica de frente pra ela. E por um segundo… não há Damien e Élise naquela sala. Há Damien… e quem quer que esteja assistindo. — Você queria ver como a gente joga — ele diz, calmo. — Agora está vendo. Silêncio. Pesado. Intencional. Ele inclina levemente a cabeça. — Sua vez de sair da sombra. Nada. Nenhuma resposta. Só o som da chuva. E a respiração irregular do denunciante. Élise se aproxima, ficando ao lado dele. Agora os dois estão enquadrados. Lado a lado. Como uma frente única. — Você cometeu um erro — ela diz, firme. — Você nos colocou no mesmo lado do tabuleiro. Uma pausa. — E nós não somos… controláveis. Silêncio. Mais um segundo. Dois. E então— O laptop sobre a mesa pisca. A tela muda. Linhas de código desaparecem. Substituídas por uma interface limpa. Minimalista. Fria. Uma chamada de vídeo. Sem imagem. Sem identificação. Apenas uma opção: ACEITAR O denunciante solta um som quase inaudível. — Eu não quero estar aqui… Ninguém responde. Porque isso… deixou de importar. Élise olha para Damien. — Se isso for uma armadilha— — Já é — ele interrompe. Um segundo. — A diferença é quem fecha. Silêncio. Eles se encaram. Muito próximos. Muito alinhados. Muito perigosos. — Então fecha você — ela diz. Desafio. Confiança. E algo mais. Damien não sorri dessa vez. Isso é raro. Ele apenas estende a mão. E toca na tela. ACEITAR. A chamada conecta. Por um segundo… nada. Estática. Som baixo. Interferência. E então— Uma voz. Distorcida. Irreconhecível. Mas… calma. Controlada. — Eu estava curioso. Silêncio absoluto. Damien responde primeiro. — Agora não está mais. Uma pausa do outro lado. Como se estivesse… sorrindo. — Não. A voz diz. — Agora eu estou interessado. Os olhos de Élise deslizam para Damien. Mesma palavra. Mesmo jogo. — Ótimo — ela diz, entrando sem pedir espaço. — Porque nós não temos tempo pra curiosidade. Silêncio. A voz volta. — Vocês dois são mais rápidos do que eu esperava. Damien inclina levemente a cabeça. — E você é mais previsível do que gostaria. Outra pausa. Mais longa. Mais pesada. — Ainda não — a voz responde. E então— A tela muda de novo. Um arquivo aparece. Único. Nome simples: "FASE_2" O ar na sala muda. De novo. — Isso não é sobre o vazamento — Élise murmura. Damien já sabe. — Nunca foi. Silêncio. — Isso é sobre sucessão — ele completa. Do outro lado… nenhuma negação. Nenhuma confirmação. O que é pior. Muito pior. — Baixe o arquivo — a voz diz. — E decidam. — Decidir o quê? — Élise pergunta. Um segundo. Dois. A resposta vem como uma lâmina: — Quem de vocês dois… merece ficar de pé no final. Silêncio. Dessa vez— cortante. Porque pela primeira vez… a ameaça não está fora. Está exatamente… entre eles.
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