CAPÍTULO 4
ALANNY NARRANDO
Cheguei em casa com o coração em pedaços, a cabeça latejando e o corpo tremendo. Assim que a porta fechou atrás de mim, desabei na sala. As lágrimas escorreram sem eu conseguir segurar. Meu pai ficou parado no canto, quieto, como sempre, com aquele olhar de quem já sabia que eu ia desabar.
— Por que, pai? — minha voz saiu engasgada, cortando o silêncio. — Por que cê deixou eles fazerem isso comigo?
Ele suspirou fundo, se jogou na cadeira velha, passando a mão pela cara.
— Filha… eu não tinha o que fazer. Aqui no morro é assim, ordem do patrão é lei. Se eu tivesse aberto a boca, era minha vida e a tua que iam pro saco.
Me levantei num pulo, chorando mais ainda, a raiva queimando dentro de mim.
— Então cê preferiu me vender pra eles? Me entregar como se eu fosse um objeto?! — gritei, a voz falhando. — Eu não sou mercadoria, pai! Eu não quero isso pra mim!
Ele bateu a mão na mesa, a voz embargada, mas tentando soar firme:
— Para com isso, Alanny! Eu tô pensando no teu futuro. Tu vai ser a primeira-dama do morro. Não vai faltar nada pra tu. Vai ter roupa boa, casa, respeito… coisa que nenhuma outra daqui tem.
Olhei pra ele com os olhos cheios de lágrimas, mas firme, com todo o fogo que eu carregava dentro de mim.
— Eu não quero respeito assim! — gritei, sentindo meu peito doer. — Eu não quero ser primeira-dama de nada, eu só queria viver minha vida… estudar, sair daqui, ser livre!
Ele desviou o olhar, como se não aguentasse me encarar. Ficou calado por alguns segundos, até falar baixo:
— Liberdade aqui dentro não existe, filha, aprende isso.
Naquele momento, um silêncio pesado tomou conta da sala. Eu chorava, sentindo um nó na garganta que parecia me sufocar. Meu pai abaixava a cabeça, como sempre fazia diante dos donos do morro. E eu entendi, com toda a dor do mundo, que ninguém ia me salvar.
Só que, dentro de mim, a chama queimava cada vez mais forte. Eu podia ser só uma menina de quinze anos, mas eu jurei naquele instante: ia lutar contra aquilo até o fim.
Os dias foram passando e nada parecia voltar ao normal. Toda vez que eu acordava pra ir pra escola, já sabia que ia ter sombra no meu caminho. Eu, Bruna e Tainá descendo a ladeira juntas, e atrás da gente… sempre o mesmo vapor, de fuzil no ombro, fingindo que não tava ali por mim, mas eu sentia cada passo.
Se eu parava no mercado, ele parava. Se eu comprava bala no bar da esquina, ele ficava encostado na porta. Até quando resolvi chupar um sorvete com as meninas depois da aula, lá tava ele, sentado no meio-fio, olhando tudo. Era como se eu tivesse algema invisível no meu pulso, arrastada dia e noite.
— Amiga, eu juro que vi o Carioca ontem na laje com duas piranhäs — Tainá cochichou, mordendo o canudo do suco, como se fosse fofoca leve. — As mina se jogando nele, e ele só rindo.
Bruna confirmou, revirando os olhos:
— Esse moleque se acha demais. Só porque é filho do dono, pensa que pode ter todas.
Eu respirei fundo, senti o gosto amargo do sorvete na boca e bati a casquinha com força na lixeira.
— Fodä-se ele. — falei seca, com raiva queimando no peito. — Que fique com todas as piranhäs do morro, eu não tô nem aí.
As duas ficaram me olhando meio sem jeito, como se esperassem que eu fosse me importar. Mas eu não ia dar esse gostinho. Por dentro, a revolta era tanta que queimava, mas o que saía era só desprezo. Porque no fundo, eu sabia, que ele podia tá com quem fosse, podia rir, se exibir, mas no fim… o mundo todo já me tratava como se eu fosse dele. E isso era a corrente mais pesada que eu podia carregar.
Era mais um dia igual aos outros, eu e as meninas descendo a rua depois da escola. O sol batendo forte, caderno pesado no braço e a sensação de estar sempre sendo seguida. Bruna falava sem parar sobre um menino do asfalto que ela tava ficando, Tainá ria de qualquer besteira… mas minha mente tava longe, cansada daquele cerco que parecia não ter fim.
Foi então que eu vi.
Do outro lado da rua, encostado na Hornet preta, ele. Carioca. Capacete no guidão, braço cruzado, cordão brilhando no peito. Só me olhando.
Meu coração disparou na hora, mas eu não dei o gosto de baixar a cabeça. Segurei firme os livros contra o peito, ergui o queixo e encarei de volta. Os olhos dele eram frios, intensos, como se me atravessassem. Nenhum sorriso, nenhuma palavra. Só silêncio.
As meninas repararam.
— Olha lá… — Bruna sussurrou, cutucando Tainá. — É ele.
Tainá mordeu o lábio, nervosa.
— Caralhø, Alanny… ele não tira o olho de tu.
Fingi indiferença, mesmo com o coração quase saindo pela boca.
— Que olhe. — respondi firme, engolindo a raiva junto com o medo. — Ele pode encarar o quanto quiser, eu sigo meu caminho.
E foi o que eu fiz. Apertei o passo, segui com elas pela calçada como se nada tivesse acontecendo. Atrás de mim, eu ainda sentia o peso do olhar dele grudado, queimando minhas costas. Mas, por mais que eu tentasse me convencer que não, no fundo eu sabia que aquele silêncio dele dizia mais do que qualquer palavra.
Eu segui firme, sem virar o rosto, mesmo sentindo o peso do olhar dele queimando minhas costas. O barulho da moto ainda ecoava no fundo da minha cabeça, mesmo depois que a gente dobrou a esquina. Bruna, do meu lado, deu uma risadinha nervosa e me cutucou:
— Ô, amiga… vou te falar real… cê devia se aproveitar disso. Pelo menos ele não é feio, vai. O Carioca é bonito, tem presença… e tu sabe, né? Vai ser o dono do morro.
Tainá concordou com a cabeça, ajeitando a mochila no ombro.
— Bruna tem razão. Tem menina que matava pra tá no teu lugar. Tu ia ter vida boa, respeito, luxo…
Parecia fácil quando saía da boca delas. Como se fosse um prêmio, como se minha vida tivesse virado bilhete premiado. Mas pra mim era uma prisão. Parei de andar de repente, respirei fundo e encarei as duas, com os olhos marejando mas a voz firme:
— Vida boa pra vocês é ser vendida como se fosse objeto? É acordar todo dia sabendo que não tem escolha? — perguntei, quase cuspindo as palavras. — Eu não quero luxo, não quero ser a primeira-dama. Eu só queria ser livre, caralhø. Só isso.
As duas se calaram. O silêncio caiu pesado entre a gente. Continuei andando, batendo o tênis no chão com raiva. Dentro de mim, eu sabia que pra todo mundo parecia sorte, pra mim era a pior das condenações. O resto do caminho até em casa eu fiz no automático. As vozes das meninas ficaram distantes, como se estivessem falando debaixo d’água. O que pesava mesmo era o nó no meu peito.
Entrei no barraco e joguei a mochila no canto. Sentei na beira da cama e fiquei olhando pro nada, o coração apertado. Quantas vezes já não pensei em fugir? Juntar minhas coisas, sumir pela estrada, me esconder em algum canto do asfalto onde ninguém soubesse meu nome. Quantas vezes não imaginei me livrar desse destino que jogaram nas minhas costas sem nem me perguntar nada?
Mas toda vez que essa ideia vinha, uma sombra maior ainda caía em cima de mim: meu pai.
Eu sabia como era a lei do morro. Se eu sumisse, se eu desobedecesse, não iam só atrás de mim. Ele ia ser o primeiro a pagar o preço. E por mais raiva que eu tivesse dele por ter se calado, por ter abaixado a cabeça diante deles, eu não tinha coragem de botar a vida dele em risco. Limpei as lágrimas com força, mas elas insistiam em cair. Senti o gosto salgado na boca e pensei, sou eu que vou pagar essa conta.
Continua.....