Ela Está De Volta.

3057 Palavras
Respiro fundo enquanto a mulher passa a fita métrica ao redor da minha cintura, estou a manhã inteira avaliando tecidos e a procura de um modelo ideal para o baile de apresentação das damas escolhidas. Há cinco dias atrás quando minha vó me entregou o broche e a orquídea sagrada, minha vida mudou drásticamente, eu tenho vivido os últimos dias a beira da loucura, afinal, Melina Sallow não facilitaria em nada para mim, é como tia Alina me disse uma vez, não dá pra pensar na possibilidade dela pegar leve comigo só porque sou sua neta, na verdade isso a faz triplicar o grau de dificuldade de todas as tarefas para mim e eu sei que isso é porque ela acredita no meu potencial, pois eu posso ver em seus olhos o brilho do orgulho quando eu concluo as tarefas que ela me passa com perfeição. Tem sido tudo tão corrido e exaustivo que as vezes eu só queria poder ouvir uma piadinha da Pandora para me sentir melhor. Eu não consigo entender porquê ela ainda não despertou. Tem sido tudo tão estranho sem ela, as vezes eu sinto que estou ficando perdida em meio a tantas mudanças drásticas em tão pouco tempo, mas é aí que eu a imagino dizendo algo que só ela poderia e então me sinto mais confiante para lidar com tudo isso, para me tornar uma dama excepcional que irá liderar todas essas pessoas que estão aqui e as que ainda irão chegar. Eu tenho aprendido sobre a história da ordem, tudo que a envolve, seu papel e propósito, entre tantas outras coisas, esse estudo tem me permitido ver que a ordem é muito mais do que pessoas devotas ao demônio de Jersey, há um legado por trás de tudo isso, há história, disciplina, um modo de vida voltado para um bem maior, baseado em lealdade e respeito. Há tanto sobre o passado, o presente e o anseio para um futuro próspero. Há tanto que sequer consigo imaginar o que está por vir. Qual será o rumo que a ordem tomará quando Pandora acordar? Segundo Machiavelli, Pandora não ligava muito para a ordem e deixava tudo que a envolvia sobre os cuidados dele e de Kora, com suas próprias palavras ele disse " ela estava passando por um momento complicado e a ordem não era sua prioridade ", então eu me pergunto se agora será diferente, se ela irá ser mais ativa e ocupar seu lugar na ordem. Eu gostaria que ela acordasse e me contasse sobre seu passado, sobre a tal penitência que Machiavelli tem citado para mim em nossas breves conversas, mas principalmente eu quero saber como será de agora em diante. Suspiro chamando a atenção de minhas tias e minha mãe, as três voltam seus olhares de coloração única para mim e sorriem de canto com uma expressão divertida, no entanto tia Sienna é a primeira a se pronunciar, seu jeito tagarela não permitiria que fosse tia Alina ou minha mãe. - Isso pode ser cansativo, mas acredite, quando você estiver dançando com seu demônio favorito no meio da multidão depois que tudo ocorrer perfeitamente em seu conclave, tendo aqueles olhos azuis voltados só para você, tudo valerá apena. - diz divertida e eu suspiro. - Você estará no lugar mais alto da ordem e será temida por alguns e respeitada pela maioria. - diz tia Alina com uma expressão tranquila e eu a olho. - Isso significa que há pessoas descontentes dentro da ordem e que isso se voltará para mim? - pergunto e ela olha para minha mãe que a olha de volta por alguns segundos antes de voltar sua atenção para mim. - Em qualquer lugar, organização, cidade, país ou qualquer coisa do tipo, sempre haverá pessoas descontentes com aqueles que governam e estão acima deles. - responde minha mãe e eu fico atenta as suas palavras. - E isso nem sempre significa que a gestão seja r**m, mas sim que há pessoas que nunca estão cem por cento satisfeitas com o que tem, há pessoas que querem mais do que podem ter e para alcançar isso usam meios sujos para chegar ao topo. - continua e em seguida suspira. - Lembre-se de uma coisa, você é a dama mais importante dessa ordem agora, mas isso não significa que não terá que lidar com algumas pessoas tentando tomar seu lugar, então esteja pronta para lidar com os descontentes e suas tentativas de trapaça durante a sua preparação e até mesmo no conclave. - completa e eu suspiro olhando para a costureira pessoal da minha família que permanece em silêncio focada em sua tarefa. - Nossa mãe certamente lhe avisou sobre a regra de não agressão entre damas selecionadas, certo? - questiona tia Alina e eu assinto. - Bem, há uma família em particular que irá tentar te desestabilizar e te fazer quebrar tal regra, então comece a trabalhar a sua paciência a partir de agora, pois eles chegam essa noite. - completa com um tom divertido e eu suspiro. - Ally, não confunda a nossa sobrinha com a sua versão adolescente de loba raivosa e encrenqueira, porquê Luna obviamente puxou a Safira, apesar de ter genes de um lobo alfa, ela tem a graciosidade e paciência da mãe e ela será uma dama excepcional. - diz tia Sienna com uma expressão divertida. - Okay, não está mais aqui quem falou. - diz tia Alina levantando os braços em sinal de rendição e minha mãe ri. - Eu senti falta dessas interações. - diz minha mãe entre risos e eu sorrio por vê-la assim. - Enfim, o que acha de uma pausa dos deveres meu amor? - pergunta olhando para mim com um expressão divertida. - Por favor, eu preciso respirar um pouco. - respondo e elas riem. Esses momentos com elas são incríveis, ter a minha família comigo tem sido importante para mim, tem me feito muito feliz e aliviado as tensões, agora só falta ter a Pandora de volta para que minha felicidade esteja completa. Com ela de volta, não haverá nada que possa me abalar. ____________________________________________ Está quase na hora. Eu posso sentir que será essa noite. Sorrio observando Kora tocar a melodia do Titanic em seu violino colorido com detalhes verde e dourado e desenhos de máscaras que representam o seu título de " louca ", tal título lhe foi concedido no dia de seu nascimento pela bruxa do destino, ainda me lembro da mulher puxar a carta do arcano maior em meio ao ritual de iniciação e assim minha irmã herdou o título, suspiro de alegria ao me lembrar da primeira vez que seus olhos azuis brilharam, n**o com a cabeça pensando no quanto minha irmã mais nova cresceu e tem um gosto muito peculiar, mas devo confessar que essa mistura de cores é interessante, principalmente em um violino, e não posso me esquecer dos desenhos, eles dão um contraste final ao seu instrumento o tornando uma peça única. Uma das peças que completam o quebra cabeça que envolve sua loucura. Noto uma presença familiar e não demora para que a pequena Chloe abra a porta da sala de música com seus olhos azuis vibrantes e curiosos procurando pela criatura executora da melodia que encanta qualquer ser que esteja nas proximidades. A pequena observa Kora com atenção e admiração, seus olhos azuis brilham a cada nota tocada, ela está tão envolvida com a melodia e focada em Kora que sequer percebe que estou sentado no canto da sala, penso em chamar sua atenção, mas por fim deixo que Kora lide com isso. - Você conhece essa melodia? - pergunta minha irmã elevando seu tom de voz para que a garota a ouça. Ela tem essa capacidade de tocar sem perder a concentração, sem errar sequer uma nota e eu sempre admirei isso nela e em Pandora, ambas conseguem fazer qualquer coisa enquanto tocam, inclusive matar. - Sim, eu ouvia com frequência na minha antiga casa. - responde com um tom tímido. - Então só gosta dessa melodia? - questiona Kora e a garota n**a rápidamente e minha irmã a encara por cima do ombro. - Eu gosto do instrumento e do som que ele faz. - responde e minha irmã junta as sobrancelhas em meio a uma careta. - O que acha do meu violino? - pergunta minha irmã com uma expressão avaliativa e os olhos da garota brilham de empolgação. - É lindo! - exclama um pouco empolgada demais fazendo um gesto engraçado com os braços e minha irmã sorrir de canto, enquanto a garota se encolhe timidamente ao notar que se excedeu um pouco. - Gostaria de aprender a tocar algo? - pergunta Kora com uma expressão divertida e os olhos da garota brilham de felicidade enquanto ela assente frenéticamente. - Não se importa de ouvir alguns ruídos estranhos, não é mesmo irmão? - pergunta e eu n**o rápidamente tendo os olhos azuis da garota voltados para mim pela primeira vez desde que ela abriu a porta. - De maneira alguma, fiquem a vontade. - digo com um tom tranquilo, no entanto, sinto Melina e Delphine se aproximando da sala e minha irmã me olha com uma expressão curiosa, porém discreta. - O que acha de ir apreciando a beleza do meu violino, enquanto eu resolvo alguns assuntos? - pergunta Kora e a menina assente pegando o violino da mão de minha irmã que anda em minha direção em seguida. - Parece que temos novidades e elas chegaram bem na hora, m*l posso esperar pela noite. - diz divertida e eu assinto. - Confesso que estou até um pouco ansioso para o que está por vir. - digo com meu habitual tom tranquilo, ouvindo batidas na porta e em seguida Melina e Delphine passam por ela. Ambas nos cumprimentam com um gesto de reverência antes de nos dirigir a palavra, e como sempre, Melina está esbanjando elegância, tranquilidade e poder apenas com sua expressão imponente e seu olhar gélido. Algo que eu particularmente adoro nela. Pessoas imponentes esbanjam charme e tudo que exala charme me chama a atenção. - Peço desculpas por interrompermos esse momento de descontração de ambos, mas algumas das famílias mais influentes da ordem estão a caminho desta propriedade, creio que talvez seja necessário apressar os preparativos para a cerimônia de a******a do conclave e a comemoração do retorno da nossa adorada demônio de Jersey. - diz Melina com seu habitual tom cordial e eu olho para Kora que me olha de volta. - A cerimônia e a comemoração podem ser unificadas em um único evento, afinal minha irmã do meio não é muito fã de multidões, apesar de se comportar bem em grandes eventos. - digo divertido e Kora sorrir de canto, me encarando com uma expressão divertida. - No entanto, deve ser um evento elegante e de certa forma discreto, não queremos atrair olhares curiosos, afinal há um prelúdio de uma guerra impiedosa batendo na nossa porta. - diz Kora e eu balanço a cabeça concordando com ela. - E as damas selecionadas e eleitas devem estar prontas para mostrarem do que são capazes. - digo olhando para Melina que assente. - A loba recém saída das fraldas está pronta para lidar com a oposição? - questiona Kora com uma expressão avaliativa e Melina a encara por alguns segundos e em seguida sorrir. - Acredito que não há nada com o que ela não possa lidar. - responde com um tom tranquilo. - Também acredito que não há motivos para nos preocuparmos, uma vez que minha neta foi a escolhida do destino. - completa com um tom divertido e Kora sorrir. - Nesse caso, vamos estourar alguns champanhes está noite em uma reunião privada. - diz minha irmã e Melina assente. - Como desejar. - diz Melina e em seguida se despede com um aceno de cabeça e então se retira com Delphine. E antes que eu possa dizer algo, Kora se vira e segue em direção a Chloe que tenta posicionar o violino da forma correta sobre seu ombro e então eu as observos a seguir, tendo a plena certeza de que os eventos a seguirem serão vários pratos cheios nos quais eu adorarei me esbaldar. ____________________________________________ Quando minha mãe falou em fazer uma pausa, eu não pensei que seria uma tarde inteira, mas o mais surpreendente é o número de pessoas que tem chegado a propriedade de Mikhaela hoje, a maioria parecia inofensiva, no entanto, uma certa minoria me enche de desconfiança, mas principalmente o clã " Vaughn ". A maneira como agem cheios de arrogância me faz pensar no quanto terei que lidar com pessoas assim, mas principalmente com gente insatisfeita e essa família em particular não me parece nada contente com o fato de eu ser uma das damas selecionadas. No entanto... Eu sei que o problema não sou eu, mas sim meu sobrenome. Sallow. Nenhuma outra sacerdotisa permaneceu tanto tempo neste cargo quanto a minha avó, Melina Sallow está marcada na história da ordem como nenhuma outra dama poderia e isso incomoda aqueles que não aceitam suas derrotas por falta de méritos, o fato de algumas damas que queriam se candidatar ao cargo de sacerdotisa não poderem mais devido ao fator indiscutível da seleção, onde só garotas que faram dezoito anos em breve ou fazem no século de seleção de damas podem participar, trás um pouco de rancor para aquelas que perderam suas oportunidades pelo fato de Pandora ter ficado mil anos ausente, o que paralisou toda a ordem. O fato é que há vários clãs descontentes com o rumo que a ordem tomou durante a ausência de Pandora, e para essas pessoas a minha avó não foi uma boa escolha. Quero ver falarem isso na cara da Pandora e dos irmãos dela. Suspiro observando as várias tendas armadas na propriedade e as fogueiras deixando todo o ambiente iluminado por uma luz natural, gosto de ver esse lugar tão movimentado, apesar dos pesares. Sorrio desejando a minha demonia aqui comigo, queria tanto ouvir sua voz agora, devolver seus sarcasmos e sentir seu toque, o gosto do seu beijo. Aperto a borda da barra de proteção da sacada na tentativa de conter minha frustração e para minha surpresa, a voz que escuto não é a de Pandora, mas sim a de uma das fãs reversas de minha avó como diz tia Sienna. - Luna Blackwood Sallow. - diz a mulher se aproximando com sua filha, uma garota aparentemente da minha idade, dona de olhos azuis escuros, gélidos e nada especiais, ela é um pouco mais alta que eu, tem um corpo bem magro, mas torneado, seu vestido longo na cor vermelha quase me deixa tonta de tão chamativo e seu cabelo loiro parece sem vida. - Esse é um nome muito simplório e amaldiçoado, mas lhe cabe bem, afinal você não tem o que é necessário para ser uma dama dessa ordem. - completa a mulher. - A senhora está equivocada, pois não há nada de simplório em carregar o peso de dois sobrenomes que fazem parte da história do mundo sobrenatural, mas se ser um legado de algo grandioso é ser simplória, então eu sou com muito prazer. - respondo de imediato sem me preocupar com a possibilidade dela ter um lugar na alta patente da ordem. - Quanto ao meu lugar nesta ordem e a minha aptidão para ser uma dama, não cabe a você julgar, então guarde suas insatisfações para você. - completo olhando em seus olhos e ela aperta a mandíbula me encarando com uma expressão furiosa. - Como ousa falar assim com a minha mãe? - questiona a garota finalmente se pronunciando e eu desvio minha atenção da mulher para ela. - Nosso clã não irá perdoar tamanho desrespeito. - completa e eu reviro os olhos. - E qual seria o seu clã? - questiono com um tom sarcástico. - Vaughn. - responde com um tom orgulhoso e eu não consigo conter o riso. - Desculpa, é que vocês tem tanto respaldo quanto uma criança que mente para conseguir comer o seu doce favorito. - digo e a garota me encara com os olhos semicerrados. - Você se acha superior, mas só está aqui porque a sua vovó é a sacerdotisa da ordem e quer a todo custo que sua família continue no lugar mais alto da mesma e então inventou essa história de que você foi escolhida pessoalmente pelo demônio de Jersey, porque se não fosse isso, você sequer seria uma pré-candidata. - diz me olhando nos olhos com um ar de deboche que me irrita de uma maneira que me faz cerrar os punhos para conter os ânimos, enquanto me preparo para respondê-la a altura, no entanto, toda a irritação se vai assim que ouço a voz que venho ansiando por dias. - Ela não só foi escolhida pessoalmente por mim, como também estava destinada a se tornar a sacerdotisa dessa ordem há mil anos atrás. - diz Pandora com um tom tranquilo e uma expressão neutra, encarando a garota, a sua direita e esquerda estão seus irmãos que observam tudo com uma expressão divertida. - E isso não é conversa fiada do demônio de Jersey, mas sim uma profecia de um milênio feita pela bruxa do destino, a mais poderosa bruxa de todo o mundo, então se tem reclamações a fazer, guarde para o conclave e mostre com atitudes que você é uma escolha melhor que a minha e da bruxa do destino. - completa com um tom divertido, apesar de sua expressão agora demonstrar um pouco de sarcasmo. A garota e sua mãe alternam seu olhar de mim para Pandora e seus irmãos com uma expressão temerosa e eu tento me manter neutra, mas quando elas simplesmente saem em silêncio, eu finalmente tenho aqueles olhos azuis voltados para mim e então fica impossível não sorrir quando ela me chama da maneira que mudou minha vida para sempre, a maneira que marcou minha alma e coração, a tornando parte de minha vida, parte da minha alma e meu alívio nos dias mais sombrios. - Eu estou de volta, lobinha. - diz Pandora me encarando com uma expressão divertida e em seguida sorrir de canto. Esse sorriso... Como eu senti falta dele. Ela está de volta. Ela finalmente voltou para mim. _________________ Continua ________________
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