Ouço vozes familiares um pouco distantes e sinto que minha cabeça está tão pesada que não consigo abrir os olhos de imediato para conferir com os meus olhos os donos das vozes, no entanto, eu os conheço muito bem, tão bem que antes de finalmente conseguir abrir os olhos posso vê-los sorrindo para mim, e isso se confirma quando ouço a voz de Machiavelli e há animação em seu tom.
- Não acha que já dormiu demais irmãzinha? - questiona divertido e eu tento abrir os olhos lentamente. Abro os olhos minimamente e posso ver a imagem borrada de meus irmãos diante de mim, os fecho novamente sentindo a luz incomodar minha visão e meu ouvido latejar quando meus sentidos parecem despertarem de uma só vez me fazendo sentar na cama rápidamente cobrindo as orelhas com as palmas da mão em meio a uma careta.
- Que barulho infernal! - exclamo sentindo minha garganta arranhar.
- Você esteve no purgatório por tempo demais, então é normal que as vozes estejam bem altas agora, mas vai passar. - diz Machiavelli e eu tento abrir meus olhos outra vez e dessa vez minha visão está embaçada, mas as vozes estão bem mais altas agora e posso ouvir os corações batendo em frequências diferentes, sentir as intenções das pessoas próximas de onde estou e saber exatamente tudo sobre elas, pois de certa forma elas fazem parte de mim e essa sensação é bem estranha agora.
- Você acha mesmo que ela ficaria atormentada por aquelas almas estúpidas no purgatório? - questiona Kora de maneira sarcástica. - A gente tá falando da Pandora e não de uma criatura qualquer. - completa com um tom óbvio e eu suspiro.
- Nunca se sabe o quanto aquele lugar pode mexer com você, eu tenho a impressão de que talvez você tenha ficado complexada por causa dele, irmãzinha. - diz Machiavelli divertido e posso sentir a fúria se agitar dentro Kora e isso faz com que minha cabeça gire por um instante e então fecho os olhos outra vez.
- Talvez eu devesse te jogar lá por mil anos pra gente descobrir se você suportaria aquele lugar por tanto tempo e se tornaria mais um demônio complexado nessa família. - diz Kora de maneira sarcástica e eu decido intervir antes que se inicie una discussão.
- Já chega! - exclamo chamando a atenção dos dois para mim, abro os olhos e suas esferas azuis estão voltadas para mim. - Os meus sentidos estão tinindo e vocês com essa briga irrelevante agora, estão deixando tudo pior, então por favor, não me faça matar vocês. - peço com um tom tranquilo e leva alguns segundos até que eles comecem a gargalhar.
Os observo rirem frenéticamente por alguns segundos, um sentimento de nostalgia invade meu peito e quando vejo já estou de pé entre os dois e os puxo para mim, os abraçando em seguida.
- Eu senti falta de vocês. - digo sentindo os braços deles me envolverem. - Pelo menos a parte de mim presa naquele purgatório sentiu, já a outra metade estava cagando pra vocês. - completa divertida e em seguida rimos disso.
- É bom te ter de volta e não estou me referindo a você se lembrar da gente, isso é importante, mas me refiro mais a você está sendo aparentemente você antes daquela maldição. - diz Machiavelli e eu me afasto para encarar não somente ele, mas também Kora.
- As minhas memórias, elas estão embaralhadas ainda, mas eu consigo destinguir o que é passado e presente, no entanto é um pouco confuso, quase como se eu fosse duas pessoas um só corpo. - digo e Kora sorrir, enquanto Machiavelli me observa com a tranquilidade que sempre teve.
- Parte da sua alma esteve no purgatório por mil anos e a outra parte estava vazia perambulando por aí, então é comum que se sinta assim, mas talvez você realmente seja duas pessoas agora, afinal você viveu duas vidas de forma diferente e não dá pra apagar isso, mas você pode unificar essas vidas e se tornar uma só, tirando tudo que não te acrescenta e deixando apenas o que sempre te tornou a mais forte de nós. - diz Kora e eu faço uma careta me perguntando quando foi que minha irmã mais nova que adorava brincar de pega coração comigo cresceu tanto, porque eu só consigo olhar para ela e me lembrar dela tentando arrancar meu coração fora e falhando miseravelmente e ficando emburrada por isso.
Quanto tempo eu perdi com eles.
Tudo isso por culpa dele.
Aquele maldito!
Eu nunca o perdoarei pelo o que nos fez.
Me lembrar de tal criatura, me faz prestar atenção no que está a minha volta, posso sentir que parte da ordem está aqui, posso sentir meu sangue correndo em suas veias, mas dois corações batendo em frequências diferentes chamam minha atenção e não posso evitar de sorrir e encarar minha irmã.
- Você o tirou de lá. - digo para Kora que dá de ombros.
- Não foi nada demais, ele é bem bobo e tão bondoso que irrita, mas você gosta dele, então eu não poderia deixá-lo naquele lugar. - diz minha irmã como se não tivesse feito nada demais.
- Ela tá crescendo tão rápido. - diz Machiavelli fingindo emoção e Kora o soca, o fazendo rir.
- Eu nunca esquecerei isso, mas acredito que poderei retribuir tal ato de bondade em algum momento. - digo e ela dá de ombros e Machiavelli coloca seu braço em volta de seu pescoço e bagunça seu cabelo.
- Ela não só trouxe o James de volta, como também trouxe a Selene Blackwood. - diz meu irmão e ouvir o nome de Selene me causa uma sensação de nostalgia.
- Minha gratidão será dobrada então. - digo divertida e Kora sorrir.
Respiro fundo me lembrando dos últimos acontecimentos antes de ter aquele encontro comigo mesma no purgatório, a guerra entre Luna e seu pai, eu não preciso perguntar quem venceu, pois seu cheiro está no ar, seu coração bate tranquilamente e posso sentir que há algo em seus pensamentos que a deixa inquieta.
- O que está havendo lá fora? - pergunto ao notar que há uma aglomeração.
- Preparativos para a comemoração da sua volta. - responde Machiavelli com uma expressão tranquila e eu reviro os olhos.
- Você sabe que eu odeio comemorações, principalmente quando ela é voltada para mim. - digo e ele dá de ombros.
- São seus suditos, então se vire para atender as necessidades mais básicas deles. - diz com um tom divertido.
- A única necessidade que ela pretende atender é a daquela loba palestrante que ela ama. - diz Kora me encarando com uma expressão divertida e sua sobrancelha levemente arqueada me faz sorrir ao notar que ela ainda.
- Ela tem ralizado grandes feitos na sua ausência. - diz Machiavelli me encarando de maneira avaliativa.
- Ela nasceu para isso. - digo tranquila e ele sorrir.
- Acho que você deveria ir vê-la agora, é bom aproveitar enquanto as coisas andam tranquilas, depois trataremos de assuntos passados, presentes e futuros. - diz meu irmão e eu assinto concordando com ele.
- Vê-la é a primeira coisa que eu pretendia ao passar por aquela porta. - digo e ele sorrir, enquanto Kora faz uma careta.
- Iremos te acompanhar até você se encontrar com sua amada. - diz Machiavelli e eu dou de ombros.
- Como desejarem. - digo caminhando em direção a porta sendo seguida por eles.
Saio do quarto sabendo exatamente para onde ir, meus sentidos não estão cem por cento, mas eu consigo senti-la por perto, assim que passo pela porta tenho uma sensação esquisita de que há algo errado, meus sentidos parecem se misturar e tudo a minha volta gira por um instante.
- Irmã? - Kora chama minha atenção, mas ao invés de vê-la diante de mim, eu o vejo.
- Pandora? - chama Machiavelli estalando seus dedos proximo ao meu rosto e eu o olho com antenção. - Está tendo alucinações? - questiona e eu dou de ombros em meio a uma careta.
- Algo assim. - respondo e ele me encara de forma séria.
- Acho que você deveria repousar após uma breve aparição. - diz e eu arqueio uma sobrancelha o encarando com uma expressão divertida.
- Não há o que temer meu irmão, estou de volta e não poderia estar melhor. - digo divertida e olho para Kora que sorrir.
- Você já quer sair por aí matando né? - questiona divertida e eu faço minha melhor cara de paisagem.
- Não faço ideia do que está falando. - digo divertida e em seguida ouço vozes que chamam minha atenção.
Olho na direção de onde vem o som, reconhecendo imediatamente a voz de Luna e então sigo até a varanda sendo acompanhada por meus irmãos, torno minha presença indetectavel para poder ouvir o que falam sem ser notada e o que ouço me deixa curiosa sobre o que estaria acontecendo ali.
- Como ousa falar assim com a minha mãe? - questiona uma garota de olhar arrogante. - Nosso clã não irá perdoar tamanho desrespeito. - completa e eu avalio a garota, a mulher ao seu lado e então tudo se torna irrelevante quando meus lhos caem sobre aquela que me fez sentir tamanha emoção, tamanho sentimento e desejo.
A minha lobinha!
Luna Blackwood Sallow.
A alfa mais destemida que esse mundo conhecerá.
- E qual seria o seu clã? - question Luna com um tom sarcástico e isso me faz sorrir.
- Vaughn. - responde a garota com um tom orgulhoso e eu não consigo evitar de associar tal nome a uma certa memoria que me faz sorrir de maneira diabolica internamente.
- Desculpa, é que vocês tem tanto respaldo quanto uma criança que mente para conseguir comer o seu doce favorito. - diz Luna com desdem e a garota a encara com os olhos semicerrados.
- Você se acha superior, mas só está aqui porque a sua vovó é a sacerdotisa da ordem e quer a todo custo que sua família continue no lugar mais alto da mesma e então inventou essa história de que você foi escolhida pessoalmente pelo demônio de Jersey, porque se não fosse isso, você sequer seria uma pré-candidata. - diz olhando nos olhos de Luna com um ar de deboche que me faz arquear uma sobrancelha e me sentir de certa forma irritada com tanta prepotência vinda de uma só pessoa e então decido me apresentar.
- Ela não só foi escolhida pessoalmente por mim, como também estava destinada a se tornar a sacerdotisa dessa ordem há mil anos atrás. - digo com um tom tranquilo e uma expressão neutra, encarando a garota, posso sentir que meus irmãos estão se divertindo com a surpresa nos olhares das mulheres. - E isso não é conversa fiada do demônio de Jersey, mas sim uma profecia de um milênio feita pela bruxa do destino, a mais poderosa bruxa de todo o mundo, então se tem reclamações a fazer, guarde-as para o conclave e mostre com atitudes que você é uma escolha melhor que a minha e da bruxa do destino. - completo com um tom divertido, tentando conter meu sarcasmo.
A garota e sua mãe alternam seu olhar de mim para Luna e meus irmãos com uma expressão temerosa, me mantenho neutra enquanto as duas mulheres simplesmente se retiram em silêncio, e então eu volto toda a minha atenção para aquele par de olhor verdes vibrantes, eu senti falta desses olhos voltados para mim, me fitando com essa intensidade que agita meu corpo, eu senti tanta falta dessa lobinha curiosa acabando com a minha sanidade e me desmontando por inteira com apenas um olhar.
Um simples, fodido e maldito olhar!
Luna Blackwoood Sallow, a garota da profecia.
A garota destinada a quebrar a minha maldição.
- Eu estou de volta, lobinha. - digo a encarando com uma expressão divertida e em seguida sorrio de canto, e não demora para que ela retribua o sorriso e se jogue em meus braços me fazendo rir.
- Eu te amo. - sussura deitando sua cabeça em meu ombro e meu coração se agita.
- Eu senti sua falta, minha lobinha curiosa. - sussurro e ela afasta sua cabeça de meu ombro, sorrir de uma maneira tão linda que me sinto hipnotizada e quando ela me beija logo em seguida, eu vou direto para o paraíso.
Eu esperei mil anos para encontrá-la, e quando a encontrei sequer pude ter noção de que era ela a garota destinada a mudar meu destino, a quebrar a minha maldição e me tornar alguém capaz de sentir outra vez.
Luna.
Minha Luna.
Se eu tivesse que esperar mais mil anos para te encontrar, eu o faria com paciência e com a certeza de que não há espaço para mais nada em meu peito que não seja o seu amor, e nem mesmo mil maldições lançadas contra mim, me fariam esquecer esses olhos e o gosto desse beijo que me arrepia até a alma.