Matheus narrando
O despertador tocou às 06:00, mas eu já estava acordado. Diferente do que eu disse para a Lua, meu "trabalho em obra" não envolvia levantar prédios, mas sim estudar como derrubar as defesas dos mais seguros. Fui até a mesa de centro da sala, onde três plantas arquitetônicas de uma agência central estavam abertas sob a luz de um abajur.
Eu não era engenheiro, mas sabia ler uma planta melhor que muitos deles. O crime, quando feito no meu nível, exigia uma precisão matemática que não dava margem para erros.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso da mentira. Eu não mentia porque queria ser um canalha; eu mentia porque a verdade me condenava à solidão. Que mulher aceitaria um homem que ganha a vida arquitetando roubos a bancos? Que acorda pensando em rotas de fuga e dorme checando se a criptografia do rádio está segura? Eu queria uma família, queria o risoto, as comédias românticas e a paz de um domingo à tarde... mas o mundo que eu escolhi não tinha espaço para essas coisas. Até agora.
Peguei o celular e abri a foto de Lua. 1,65m de uma beleza que parecia brilhar através da tela. Olhos verdes que pareciam ler minha alma — o que era um perigo.
Eu tinha que ser cuidadoso. O Matheus que ela conheceu — o engenheiro sensível e apaixonado — era a minha melhor atuação, mas também era o homem que eu gostaria de ser se a vida tivesse tomado outro rumo. não menti sobre cozinhar, sobre meus gostos, apenas sobre meu modo de ganhar a vida.
Sentei no sofá, ignorando por um momento o esquema de câmeras do banco que eu precisava finalizar, e comecei a digitar.
Matheus: Bom dia para a dona dos olhos mais bonitos do meu aplicativo. Já de pé para a reunião ou atrapalhei seu sono ontem?
Sorri amargamente. Eu era um mestre em invadir sistemas, mas aquela mulher estava começando a invadir algo que eu mantinha trancado a sete chaves. E pela primeira vez, eu não estava tentando impedir a entrada.
Continuei meu trabalho na mesa da sala, precisava saber tudo sobre meu alvo.
8 da manha, fechei o notebook e dobrei as plantas que estavam na mesa e as empilhei uma sobre a outra. O café, agora frio, desceu amargo. O dia não seria de "obras", mas de reconhecimento de campo.
Vesti uma calça jeans gasta, uma camisa polo discreta e um boné. O objetivo era ser invisível. Se eu fizesse meu trabalho direito, ninguém lembraria do meu rosto cinco minutos depois de eu passar. Peguei as chaves do carro — um modelo popular, prata, o carro mais comum da cidade — e saí.
Enquanto dirigia, meu celular vibrou no console. Era uma notificação da Lua. Meu peito deu um solavanco, uma reação física que eu não podia controlar, mas não abri a mensagem. No meu mundo, a distração mata. Ou pior: te prende.
Parei o carro a duas quadras da agência alvo. Caminhei calmamente, cronometrando mentalmente o tempo de resposta das patrulhas que passavam pela avenida. Parei em frente a uma vitrine, fingindo olhar os preços, mas meus olhos estavam fixos no sistema de eclusa da entrada do banco.
Um, dois, três segundos para a trava liberar.
Observei os sensores de movimento no teto. Notei o posicionamento das câmeras externas. Um erro de cinco centímetros no ângulo e o plano inteiro desmoronaria. Eu não usava armas se pudesse evitar; preferia o silêncio de um código bem quebrado e a precisão de um cronômetro. Eu era o fantasma que entrava e saía sem disparar um alarme.
De repente, um carro de polícia passou com a sirene ligada, indo para outro chamado. Senti minha pulsação acelerar, não de medo, mas de adrenalina. É esse o vício. É isso que me impede de ser o homem que a Lua merece.
Voltei para o carro e, só então, me permiti respirar. Peguei o celular. A mensagem dela dizia: "Bom dia, gigante! Já estou na segunda xícara de café. Boa obra hoje!"
Um nó se formou na minha garganta. "Boa obra". Se ela soubesse que a minha estrutura era feita de segredos e que o meu alicerce era criminoso, ela ainda estaria tomando café comigo?
respondi:
Matheus: "O trabalho aqui está pesado, mas pensar em você faz o dia parecer mais leve. O que acha de a gente transformar aquele risoto em realidade amanhã à noite?"
Eu estava jogando um jogo perigoso. Misturando o sangue frio do roubo com o calor de um novo amor. O problema de arquitetar grandes roubos é que você sempre sabe onde estão as saídas de emergência. Mas, com a Lua, eu sentia que estava entrando em um lugar do qual eu não queria sair.
Estacionei o carro em uma rua sem saída, a poucos metros do galpão que usávamos como base. Antes de descer, olhei o celular. Dez minutos. Vinte minutos. Meia hora. Nada.
A Lua não tinha respondido o meu convite para o jantar de sábado.
Uma irritação estranha começou a subir pelo meu pescoço. Eu, que mantinha a calma enquanto decidia como desarmar sistemas de segurança de milhões de reais, estava me sentindo um adolescente ansioso porque uma mulher de 1,65m não visualizou minha mensagem.
Foco, Matheus. Terça-feira está logo ali.
Entrei no galpão. O cheiro de óleo de motor e metal era forte. Renan estava lá, debruçado sobre uma moto de alta cilindrada, limpando uma pistola automática com o desleixo de quem limpa um talher. Ele era o oposto de mim: impulsivo, barulhento e perigoso. Mas era o melhor piloto de fuga e o único com estômago para "colocar a cara" enquanto eu monitorava tudo pelas sombras.
— A planta da agência central tá na mão? — Renan perguntou, sem tirar os olhos da arma. — Terça-feira é o pagamento de uma galera grande, o cofre vai estar cheio.
— Tá tudo mapeado. O sensor de vibração do chão é o nosso único problema real, mas eu já sei como neutralizar — respondi, minha voz saindo fria, profissional. — Você entra, faz o que tem que fazer em 120 segundos. Se passar disso, eu não garanto a rota de fuga limpa.
— Relaxa, mestre. Eu coloco o terror lá dentro e você me tira de lá como um fantasma, como sempre. — Ele finalmente me olhou, soltando uma risada seca. — Você tá estranho. Tá com cara de quem não dormiu. Algum problema com o esquema?
— Nenhum. Só estou cansado.
Menti. O problema era o celular no meu bolso. Eu sentia o peso dele. O plano de terça-feira era perfeito, mas pela primeira vez, eu não conseguia parar de pensar no "depois". Se algo desse errado, eu não teria o risoto, não teria o filme clichê e, principalmente, não teria a Lua.
— Não se suja agora, Renan. Guarda isso — apontei para a arma. — Vou revisar o tempo dos semáforos da avenida.
Saí de perto dele e fui para o fundo do galpão, onde ficavam meus monitores. Abri o aplicativo de novo. O "visto por último" dela tinha mudado, mas a resposta não veio.
A dúvida começou a corroer: será que eu fui rápido demais? Será que ela percebeu alguma coisa? No meu mundo, o silêncio é sinal de emboscada. E o silêncio da Lua estava me deixando mais paranoico do que qualquer viatura de polícia.
Renan tem um instinto animal para farejar fraqueza. Ele não entende de plantas arquitetônicas ou de códigos de segurança, mas entende de homens. E ele sabia que o Matheus que estava ali, naquela manhã, não era o mesmo que planejou o golpe da joalheria no ano passado.
Eu estava com os olhos fixos na tela, mas não via os códigos. Estava esperando a notificação. O silêncio da Lua estava gritando nos meus ouvidos.
— Tá esperando o sinal da central ou o da namoradinha? — A voz de Renan veio logo atrás de mim, carregada de deboche.
Eu não me mexi. Não podia dar a ele o gosto de saber que tinha acertado.
— Foca no seu trabalho, Renan. A manutenção da moto tá pronta?
Ele deu dois passos à frente e se encostou na bancada, bloqueando minha visão dos monitores. Ele limpou as mãos sujas de graxa em uma estopa e me encarou com aqueles olhos de quem não tem nada a perder.
— Eu vi você, "mestre". Vi o sorrisinho ontem à noite e vi essa cara de enterro hoje porque o celular não apitou. Quem é ela? Alguma bonitinha que você conheceu por aí?
— Não é da sua conta — respondi, minha voz baixando um tom, o que geralmente era meu sinal de aviso.
— É da minha conta sim! — Ele bateu com a mão na mesa, fazendo as ferramentas pularem. — Terça-feira eu vou colocar o meu pescoço na linha. Eu entro na p***a do banco, eu aponto a arma, eu sou o alvo. E eu preciso que o cara que vai me tirar de lá esteja com a cabeça na rota de fuga, não na cor da calcinha de uma qualquer.
— Ela não é uma qualquer — disparei, antes mesmo de pensar.
Renan soltou uma gargalhada ruidosa, mas sem nenhuma alegria.
— Ah, pronto. O gênio se apaixonou. Logo agora, Matheus? Logo no maior golpe do semestre? Mulher é problema. Mulher é o que faz o cara querer se aposentar, querer ficar "limpo". E cara como a gente não fica limpo, a gente só apodrece ou é preso.
— Eu sei exatamente o que eu estou fazendo, Renan. Minha lealdade ao plano não mudou.
— Tomara que não. Porque se eu perceber que você hesitou um segundo porque estava pensando em voltar vivo pra "Lua" — ele leu o nome que brilhou rapidamente na tela do meu celular que acabara de vibrar e acender —, eu mesmo resolvo o problema. E você sabe que eu não resolvo as coisas com plantas e cálculos.
Ele se afastou, deixando um rastro de cheiro de gasolina e uma ameaça velada no ar. No mesmo instante, o celular vibrou novamente.
Lua: "Oi, gigante!
Lua: Desculpa a demora, o trabalho aqui virou um caos total hoje, não consegui nem respirar. Mas eu adoraria esse jantar... Se você prometer que o risoto é bom mesmo, eu aceito o convite! Sábado à noite?"
Olhei para a mensagem e depois para as costas de Renan, que voltava para a moto. Eu estava vivendo dois sonhos diferentes ao mesmo tempo, e o problema é que um deles, obrigatoriamente, teria que destruir o outro.
Engoli em seco e guardei o celular no bolso da calça sem responder de imediato. Eu precisava ser frio. Precisava ser o arquiteto que Renan respeitava, ou melhor, o arquiteto que Renan temia.
— Você está vendo fantasmas onde não tem, Renan — eu disse, levantando-me e caminhando até ele com uma postura rígida. — A mulher é só um álibi. Se eu pretendo estar limpo para a polícia depois de terça-feira, preciso de uma rotina, de vizinhos que me vejam saindo com alguém normal, de um rastro de "bom moço".
Renan parou de mexer na moto e me olhou, semicerrando os olhos.
— Um álibi, é? E precisa desse sorriso de i****a pra construir um álibi?
— O nome disso é atuação. Coisa que você não sabe fazer porque resolve tudo no grito — retruquei, sustentando o olhar. — Sábado eu vou sair com ela, vou ser visto em um restaurante bacana e vou deixar registrado que sou apenas um engenheiro civil de folga. Enquanto você está se escondendo nesse buraco, eu estou lá fora garantindo que, quando o dinheiro cair, ninguém olhe para a minha direção.
Renan cuspiu no chão, parecendo parcialmente convencido pela lógica fria, mas ainda desconfiado.
— Que seja. Só não esquece: terça-feira, 10h da manhã. Se você não estiver no ponto de extração porque estava comprando flores, eu te caço até no inferno.
Voltei para a minha mesa. Meu coração ainda batia rápido, mas por motivos diferentes. Eu precisava de um compartimento estanque na minha mente: de um lado, a planta do banco, os sensores de vibração e a brutalidade do Renan. Do outro, a suavidade da Lua.
Esperei Renan sair para buscar peças em outro lugar da cidade e só então peguei o celular. Digitei a resposta para Lua, mas dessa vez, as palavras pareciam pesar toneladas.
Matheus: "Sem problemas, eu imagino a correria! O risoto é uma promessa de honra, você vai ter que me dar uma nota de 0 a 10. Sábado à noite está perfeito. Passo para te pegar às 20h? Me manda sua localização."
horas depois ela me respondeu, quando ela enviou o endereço, meu estômago deu um nó. A rua dela ficava na rota exata que eu tinha planejado para a fuga de terça-feira. Uma coincidência c***l do destino. Eu passaria pela porta dela com o carro cheio de malotes roubados, enquanto ela provavelmente estaria tomando café e pensando no nosso jantar de sábado.
Apaguei o histórico da conversa e limpei o cache do aplicativo. Por fora, eu era o fantasma de sempre. Por dentro, eu estava começando a me sentir como um prédio com a estrutura condenada.