Estou na empresa, tenho ficado atolada de trabalho, meu avô está me mandando o máximo de tudo para me treinar, quer que eu assuma seu posto muito em breve, mesmo que parte do conselho não concorde com isso.
Os velhos conservadores têm problemas com mulheres no comando, mas isso não é problema para mim, sempre estive acostumada com homens me subestimando.
Olho pelo vidro no canto da minha sala, lá estão as minhas filhas, os frutos do meu amor que não deu certo, mas eu as amo mais do que minha própria vida, não sei o que seria de mim sem elas, acho que eu já teria enlouquecido.
O telefone em minha mesa começa a tocar, é minha secretaria, como passo a maior parte do meu tempo no escritório, e raramente vou a alguma reunião, eu achei desnecessário ter alguém para atender minhas chamadas, mas meu avô insistiu para que, como todos os outros, eu também tivesse alguém ali.
Luna – Sim?
- Senhora, tem uma pessoa aqui que insiste em vê-la. Eu já disse que não recebe visitas, mas disse ser sua mãe, como eu ainda não tinha visto...
Luna – Tudo bem, pode deixa-la entrar. – Já imaginando o quanto a dona Soraya deve ter assustado a pobre moça.
- Sim senhora.
Não demorou muito para minha mãe passar pela porta.
Luna – O que quer mãe? Sabe que estou trabalhando, não gosto de ser interrompida, poderia ter esperado até que eu estivesse em casa.
Soraya – Eu estou bem também querida, obrigada por me perguntar.
Suspirei, pelo que conheço minha mãe, ela não está aqui sem nenhum motivo, ou quer algo, ou fez algo, ou irá fazer algo e precisa de mim para isso.
Luna – Mãe, por favor, não é um bom momento, pode me dizer de uma vez o que quer?
Ela caminhou lentamente pela minha sala, olhando para as crianças e a babá.
Soraya – Você é a futura dona disso tudo aqui, por que acha que tem que se esforçar tanto? Seu avô vai deixar tudo pra você.
Luna - Para nós mãe... nós. Então? marcou a consulta que te pedi?
Soraya – Já disse que eu não sou louca, não preciso de ajuda, estou muito bem do jeito que estou e não pretendo mudar.
Luna – E se formos juntas?
Soraya – Você está mesmo precisando, onde já se viu... passar por tudo o que passou, e ainda assim inventar de se apaixonar, ter filhos, meu exemplo não valeu de nada.
Ela só pode estar brincando...
Luna – Você me deixou sozinha mãe, esqueceu? Tive que aprender do meu jeito, e não me arrependo, talvez...só de algumas coisas...
Soraya – Que seja, se você pensa assim, quem sou eu para tentar te mudar não é mesmo? Então pare de tentar mudar a mim.
Ela sempre acaba me tirando do sério, como eu poderia ser normal? Olha o tipo de pessoa que minha mãe é, sempre destilando veneno, sempre com a mente trabalhando para uma coisa r**m, e algo me diz que ela não veio aqui apenas saber como eu estou.
Luna – Tudo bem mãe, então me diga... o que quer?
Soraya – Como está seu relacionamento com o Carter? Anda bem depois da separação?
Luna – Nos esforçando para sermos bons pais mãe, tentando manter as coisas bem por elas. – Apontei para as nossas filhas. – Ele é um pai maravilhoso e não posso deixar de dar o devido crédito a isso.
Soraya – Claro, que ótimo, mas você já pensou em quando ele se envolver com outra pessoa? Será que será bom para as suas filhas? Que a nova pessoa vá gostar das suas filhas como sendo dela própria?
Senti uma pontada forte no meu peito, estamos separados, mas nenhum dos dois seguiu a vida, estamos apenas lambendo nossas feridas e deixando cicatrizar, mas eu não consigo imaginar algo que possa me ferir mais do que ele com alguém, apenas por imaginar, meu coração já errou várias batidas, sinto como se estivesse me afundando em desespero.
Mas não deixo nada do que eu to sentindo transparecer, é exatamente isso que minha mãe quer, alcançar a minha fraqueza, é assim que ela faz, me deixa exposta ao meu medo, para mostrar que amar é errado, é para os fracos. E eu não quero entrar nessa onda. Não quero deixar que ela me afete, nem que tente me colocar contra ele.
Luna – Uma hora vai ter que acontecer mãe, pode ser primeiro eu, ou primeiro ele, não sei, mas nós somos jovens, temos que seguir nossas vidas em algum momento.
Soraya – Mas quando esse momento chegar, vai estar preparada para isso? Quer dizer, já o esqueceu a esse ponto? Deixar que ele seja feliz?
O que diabos ela tem que vir aqui me perturbar com isso uma hora dessas? Por que minha mãe não pode ser normal?
Puxei a respiração com força, minha paciência já estava indo embora.
Luna – Talvez mãe, eu não sei, como posso saber? Por enquanto, estamos bem, sei que não é exatamente o que a senhora quer, mas eu e ele estamos bem, dando conta de estar no mesmo ambiente mesmo não estando juntos, isso é bom para nós e também bom para elas.
Soraya – Ele ainda tem tentado te reconquistar?
Luna – Que foi mãe? Desembucha de uma vez, o quer dizer? Sabe que não precisa fazer tantos rodeios, coloca pra fora, seja lá o que for, e me deixa trabalhar.
Soraya – Só queria saber, não posso mais me preocupar com o seu bem estar? Você é minha filha, a única que eu tenho, não quero te ver sofrendo por nada nem ninguém.
Lana – Ei estou bem mãe, nós dois estamos e nossas filhas também estão, não quero pensar nisso agora, não vejo necessidade.
Sei que aí tem coisa, bem mais do que ela está me dizendo, consigo ver isso no olhar dela, conheço essa frieza, sei que ela está plantando algo em minha mente.
Mesmo sabendo de tudo isso, a semente brota, sinto a veneno do ciúme trilhando seu caminho por minhas veias, sei que é errado e que a decisão foi minha, mas eu não consigo evitar, e ela sabe disso, minhas reações são sempre extremas, nem mesmo eu sei o que esperar de mim.
Soraya – Fico feliz em ouvir isso, quero que você esteja bem estruturada quando esse dia chegar, e também quero estar aqui para te amparar se for preciso.
Luna – Como se a senhora se importasse com os meus sentimentos mãe... – Balancei a cabeça com incredulidade, ela realmente acha que me engana.
Soraya – Não me respondeu... ele ainda tenta uma reconciliação?
Luna – Não mãe, ele está respeitando meu espaço.
Ela sorriu para mim, um riso de arrepiar a espinha, algo que não chegou aos olhos. Caminhou para a porta.
Soraya – É bom que você esteja realmente preparada, de um beijo nas meninas por mim.
E ela saiu, me deixando com um gosto amargo na boca, sem saber se estava ou não pronta para algo desse tipo.