Pré-visualização gratuita "A Noite que Mudou Tudo para Dominic Frost"
###Dominic
Com o uísque aquecendo a garganta e a lareira crepitando, saboreei meus últimos instantes de solidão. Amanhã, a minha vida mudaria drasticamente. Cassandra se mudaria para cá, e eu estaria casado. Quatro anos atrás, Diego, meu melhor amigo, me apresentou a ela. Mas, ultimamente, uma distância fria surgiu entre nós. Ela andava estranha, e eu sentia uma falta lancinante da i.n.t.i.m.i.d.a.d.e que um dia nos uniu. A ironia é que, nesse purgatório de incertezas, a minha própria mão havia se tornado o meu único consolo.
À tarde, teria a última prova do terno. Cassandra escolheu um modelo extravagante, longe do meu gosto por simplicidade. E os convites? Quase Toronto inteira fora chamada. Para quê tanta gente? Concordei com tudo, claro, só para evitar mais uma discussão.
Tinha liberado Lian, meu braço direito e irmão na máfia, das suas obrigações do dia. A minha intenção era passar um tempo com ele e Diego. Mas duvidava que Lian viesse. Ele valorizava demais cada segundo com os pais. A vida dele era uma correria, então os raros momentos de folga eram dedicados a eles. Não que eu me importasse. A confiança que depositava em Lian, depois de treze anos ao meu lado, era absoluta.
Diego, ah, Diego sabia viver! Sorri com a imagem daquele festeiro incorrigível. Terminei a bebida, tomei um banho e segui para a prova do terno. Ficou impecável. Mandei uma foto para Cassandra, mas o celular só me deu o silêncio como resposta. Já eram quase 20h, liguei para Diego, foi para a caixa postal, e a irritação começou a borbulhar.
Enviei uma mensagem para ele me encontrar no nosso clube habitual. Enquanto esperava, suspirei! Então, a porta do clube abriu, e ali estava Yan, e, para minha surpresa, Lian ao seu lado.
— Lian, que surpresa! — a minha voz explodiu em felicidade genuína.
— Você acha que eu ia perder a sua despedida de solteiro? Além de chefe, você é meu amigo, seu cachorrão! — Lian disse, o sorriso largo.
— Vem cá, me dá um abraço! Você é mais que amigo, um p.u.t.a irmão. — Nos abraçamos, um aperto que valia anos de lealdade.
— Aos três melhores irmãos! Um brinde! — Yan bradou, erguendo o copo com animação contagiante.
— Saúde!!!! — Lian acompanhou.
— À minha última noite como solteiro! Saúde… — completei, erguendo o meu próprio copo.
Nós três brindamos. A atmosfera pesada se dissipou em risadas e um sentimento palpável de camaradagem. Bebemos, jogamos sinuca e nos divertimos à beça. Mas o relógio avançava, já eram 22h, e nada de Diego. Aquele desgraçado precisaria de uma desculpa muito boa para ter faltado à despedida de solteiro do melhor amigo.
— Bom, 23h! Acho melhor irmos para casa. Amanhã você tem muita coisa para fazer, irmãozinho. — Disse Yan, chamando a minha atenção.
— Nem me fale! Dia cheio amanhã. — Disse, mexendo na borda do copo, a realidade do casamento iminente me atingindo novamente.
— Você está feliz? — Yan perguntou, sua voz curiosa.
— Muito, estarei casando com a mulher que amo. — Meus olhos brilharam com a convicção.
— Estou feliz por você. — Yan bateu de leve no meu braço, um gesto de carinho.
— Obrigado, irmão. — Disse, a mente já divagando sobre a vida de casado.
— Bom, então, vamos? — Lian sugeriu.
Nós três nos levantamos, conscientes da importância daquela noite, não era apenas uma despedida de solteiro, mas um marco, um divisor de águas na minha vida. Após algumas risadas e abraços, nos despedimos. Yan levou Lian para casa, enquanto eu segui para a minha.
No meio do caminho, percebi que freio do meu carro começou a falhar. O meu coração disparou, olhei pelo retrovisor e vi um carro colado na minha traseira. — M.e.r.d.a!
Peguei o celular, mas no instante em que disquei o número de Lian, a tela ficou preta. O aparelho desligou. — Fala sério! Parece que estou no meio de um filme de merda, onde tudo já está r.u.i.m e consegue piorar. Acelerei, tentando manter distância do carro que me perseguia, quando ele sumiu da minha visão, joguei o carro numa curva fechada e decidi: pulei.
Com arranhões e a roupa encharcada de sangue, me vi cambaleando em frente a um restaurante. O lugar estava fechado, mas as luzes internas ainda acesas revelavam uma garçonete distraída, limpando uma mesa. Bati na porta com tamanha força que ela se assustou, recuando. Mas, ao ver a determinação nos meus olhos, ela hesitou e abriu.
Entrei como um furacão, correndo para trás do balcão, me abaixando. Ela correu atrás de mim, mas antes que pudesse falar, ouvi o rangido da porta se abrindo novamente. Com dificuldade, a garçonete se recompôs e jogou rapidamente uma toalha de mesa sobre mim, três homens armados entraram, vasculhando o local com cautela, vi que a moça começar a tremer.
— Bo... boa noite, acabamos de fechar, sinto muito! — ela disse, a voz nervosa e falha.
— Boa noite, gracinha. Estamos procurando um homem alto, musculoso, olhos claros e com muitas tatuagens; por acaso você o viu? — perguntou o capanga 1, com um sorriso ameaçador.
— Me desculpa, mas não vi! Eu estava concentrada, limpando as mesas, que não vi ninguém passar. Agora, se me dão licença, preciso limpar o chão. — Ela olhou discretamente para baixo, e eu, escondido, fiz um sinal de silêncio para ela.
— Tem certeza que ele não entrou aqui? Pois na borda do balcão têm sangue… — insistiu o capanga 2, com um tom carregado de desconfiança, apontando para a mancha.
— Sangue? Não, moço! Isso aqui é molho de tomate! Aqui, a nossa especialidade é espaguete ao molho bolonhesa. Então, há muitas vendas desse prato. Olha só… — A garçonete tentou se manter firme, o desespero visível no seu rosto. Com muita dificuldade, ela passou o dedo na gota de sangue e levou rapidamente à boca. A náusea subiu, e ela engoliu em seco. — Viu só? Hum, falta sal; já disse isso para o cozinheiro, mas não adianta! — suspirou, forçando um sorriso nervoso.
No chão, eu estava hipnotizado, segurando o riso. Mesmo tremendo, ela estava indo surpreendentemente bem.
— Deve ser molho mesmo, chefe. Ela não seria doida de enganar três homens armados! — comentou o capanga 3.
— Concordo. Isso poderia custar a minha vida! Mas é melhor vocês irem embora, pois a polícia já deve estar a caminho, e meu chefe está de olho em tudo por aquela câmera ali. — No chão, eu m.a.l podia acreditar, o quão ágil, ela era.
— Polícia? Realmente, aquele miserável não está aqui! Vamos embora. E você, moça, chaveie a porta, ele é muito perigoso. — disse o capanga 1, num tom mais suave.
— Pode deixar, boa sorte! Espero que vocês achem quem estão procurando! — respondeu a garçonete, tentando ser gentil e aliviada.
— Valeu, mocinha. Desculpa o transtorno. — ele disse, com um aceno de cabeça.
— Está tudo bem. Tchau! — ela respondeu, claramente aliviada.
Eles saíram, ela chaveou a porta com as mãos ainda trêmulas.
— É isso aí, Alicia, você foi muito bem! O sangue... — murmurou a garçonete para si mesma antes de correr para o banheiro.
Levantei-me, dei uma boa olhada na porta para ter certeza e corri atrás dela, que estava escovando os dentes com fervor, tentando limpar a boca.
— Que atriz! — aplaudi. — Muito obrigado por não ter me entregado; alguém armou para mim!
— Eles poderiam ter me matado. — ela respondeu, com a voz embargada.
— Você se saiu muito bem, Alicia. Esse é o seu nome, ouvi você dizendo para si mesma.
— O meu nome não interessa agora. O meu chefe, não vai demorar para ele chegar aqui. Você precisa ir! — ela exclamou, apressando-se e gesticulando para a porta.
— Empresta seu celular? Por favor, é rápido! — pedi, sabendo que o tempo era curto.
— Ok, mas agiliza! — ela respondeu, entregando o celular com as mãos trêmulas.
— Pode deixar, obrigado! — agradeci, já discando. Liguei rapidamente para Lian, que logo atendeu.
— Lian, tentaram me matar, pega um dos meus carros, o mais discreto! Traz três homens com você, carreguem as armas. Vou mandar a localização. — disse, ditando as instruções rapidamente, enquanto Alicia olhava assustada para mim.
Não demorou nem meia hora para que um carro preto luxuoso parasse do outro lado da rua. Revirei os olhos. Discreto? Lian claramente tinha uma ideia diferente de "discreto".
— Sei que já me ajudou muito, mas preciso de um disfarce, tem algo? — pedi.
— Deixe-me pensar! — respondeu, correndo até um armário. Ela voltou com um boné e um avental.
— Um boné e um avental? — comentei, surpreso.
— Foi o que consegui, mas se não quiser… — ela começou a dizer, já voltando a guardar.
— Não, não, está ótimo! Valeu.— disse, sorrindo.— Ah, e você vem comigo! Você me salvou, preciso retribuir! Não gosto de dever favores a ninguém!
— Mas… — Alicia hesitou, olhando para o local de trabalho.
— Agora! — insisti, decidido.
— Eu nem terminei de limpar aqui. Vou ser mandada embora, aquele homem que se diz meu chefe é c.r.u.e.l! — ela protestou, preocupada.
— Deixa tudo aí! Não se preocupe! Mas por que você não procura um emprego melhor? Seu chefe é m.a.u, o horário é horrível e perigoso. Olha a hora, e você continua aqui; iria sair mais tarde se eu não tivesse chegado. — argumentei, tentando convencê-la.
— E você acha que já não tentei? Mas meu pai… — ela suspirou, a frase morrendo. — Esquece!
Alicia pegou a bolsa, e eu a puxei pela mão. Saímos, ela chaveou a porta. Mas, no instante em que nos viramos para ir, uma figura surgiu na entrada: o chefe dela.
— Que palhaçada é essa, Alicia? Além de não limpar direito, você dá o uniforme de um dos nossos funcionários para esse desconhecido! Ele tá te comendo, é? — disse Tierry, com um sorriso asqueroso.
Sem pensar duas vezes, soquei a cara de Tierry, o impacto foi seco.
— Respeite uma dama! E, só para constar, o desprazer é meu: sou Dominic Frost! — declarei, com um olhar que prometia dor.
— Do... Dominic Frost? — Tierry gaguejou, o rosto se contorcendo de medo.
— O próprio… — respondi, olhando para o dono do estabelecimento.
— Oh, meu Deus! — Tierry exclamou, a voz falhando, o pavor tomando conta. — Me... perdoe-me, senhor! Eu não queria ofender a senhorita Alicia, muito menos o senhor.
— A chave está aí — disse, jogando a chave no chão. — Agora, vaze! Amanhã, conversamos.
— Si... si..., sim, senhor! Alicia, amanhã você pode tirar o dia de folga, querida. Tchau… — Tierry balbuciou, apavorado, antes de sair tropeçando.
— O que… o que você é? — Alicia perguntou, confusa, me encarando. — Tierry estava apavorado! Ele, que não teme a ninguém!
— Desculpa por isso! — disse, sem responder a pergunta dela.
— Hã? — Alicia ficou ainda mais confusa!
Vi de longe os três bandidos voltando. Não havia tempo. Empurrei Alicia contra a parede e a beijei. Um beijo abrupto, desesperado. Ela tentou se soltar, mas a prendi ainda mais forte, tentando protegê-la.
— Será que a mocinha ainda está lá? — questionou o Capanga 2, passando por nós.
— Quer se divertir, né, seu safado?. — retrucou o Capanga 3.
— Calem a boca e se concentrem! — gritou o Capanga 1, exasperado, a voz sumindo à medida que se afastavam.
De repente, a porta do carro luxuoso se abriu, e Lian e os meus homens saíram, armas em punho. O som de tiros estourou ao redor, tentei puxar Alicia para o carro, mas ela travou, ofegante, sem ar. Lágrimas escorriam descontroladamente pelo rosto dela. Sem hesitar, a peguei no colo e corri para o carro, o som dos tiros e o choro dela se misturando no caos.