A Outra Face do Gelo

1033 Palavras
O rugido de Dominic ecoou pelo escritório como um serviço de execução ao imaginar Alicia sofrendo. Num movimento violento, ele varreu a mesa com o braço, lançando a pasta de couro, o copo de cristal e a luminária contra a parede. O som do vidro estilhaçando foi o único alívio para a pressão que subia por seu pescoço. Ele parou, ofegante, as mãos apoiadas na madeira agora vazia da mesa. O silêncio que se seguiu foi cortante. Dominic encarou os estilhaços no chão e, por um segundo, a sua própria máscara de gelo trincou. Por que isso é problema meu?, ele se questionou, a voz interna sendo um chicote de autocrítica. Ele era c.r.u.e.l, o homem que negociava vidas sem piscar, que mantinha os batimentos cardíacos estáveis enquanto o sangue dos inimigos lavava o chão. Ele não sentia, nem se importava. No entanto, a imagem de Alicia sendo arrastada para aquele casebre imundo estava queimando a sua lógica. Dominic fechou os olhos, tentando recuperar a frieza que era sua marca registrada. Ele não era um salvador, não tinha empatia. Mas havia algo naquela injustiça, na forma como Olavo Rizzuto tratava o que era "seu" — pois, no momento em que ele a resgatou daquele restaurante, ela tornou-se, tecnicamente, uma variável sob a sua guarda, que ele não podia tolerar. — Saia, Lian! — rosnou ele, a voz voltando a ser um sussurro gélido, desprovido de qualquer emoção humana. — Vá preparar os equipamentos. Amanhã visitaremos aquele m.a.l.d.i.t.o. Quero escutas e câmeras em cada cômodo. Lian assentiu em silêncio e retirou-se. Dominic afundou na poltrona, a cabeça latejando. O ódio por Olavo se misturava a uma carência sombria, um desejo de silenciar os d.e.m.ô.nios na sua mente. — Eu preciso me distrair... — sussurrou. — Eu preciso da Cassandra. Caminhou para o quarto e enviou uma mensagem curta: "Me ligue. Urgente." Segundos depois, o visor brilhou: "Amor". — Vem para a casa de campo, Cassandra — ordenou ele. — Preciso de você aqui. Agora! — Oi, meu docinho! — a voz dela veio suave, mas algo estava errado. Um gemido masculino, abafado e gutural, ecoou ao fundo. Dominic travou, cada nervo do seu corpo se eletrificou. — Isso... foi um gemido? Onde você está, Cassandra? — questionou, a voz letal. — Gemido? Não, meu amor. Você deve estar ouvindo coisas... — ela mentiu, ofegante. — Estou em casa, indo dormir. — Então você não vem? Eu preciso de você. Cassandra inventou uma desculpa e despediu-se do noivo. Mas, no descuido do ê.xt.a.s.e, ela não encerrou a chamada de fato. Dominic manteve o aparelho no ouvido, o coração batendo como um tambor de guerra. O silêncio durou apenas um segundo antes que a verdade o atingisse como um tiro de fuzil. A voz de Diego, seu melhor amigo, preencheu a linha com uma crueza insuportável. — [Diego: Isso, Cassandrinha, rebola... hummmmm... que t.e.s.ã.o!] — [Cassandra: Assim, meu amor?] O som da carne colidindo e os gemidos da mulher que ele levaria ao altar transformaram o sangue de Dominic em gelo. Ele ouviu a risada de Diego, o deboche ao planejar a mentira sobre a despedida de solteiro. Ele cerrou os dentes até sentir o maxilar estalar; a dor física era um alívio perto da traição que corroía a sua alma. Ele desligou o aparelho, o sentimento fervente de traição inundou o quarto, transformando a mágoa numa pedra fria de gelo n***o. O celular vibrou novamente. "Diego" apareceu o nome na tela. Mas Dominic apenas ignorou. Deitado na escuridão, não havia mais espaço para o sono. O amanhecer não traria um casamento; traria um acerto de contas que Toronto jamais esqueceria. Alicia estava num cativeiro, Cassandra numa cama de traição e Olavo no topo do seu império de papel. Dominic Frost ia queimar tudo. Sem conseguir pregar os olhos, Dominic levantou às 08:00, tomou um banho revigorante, vestiu um terno impecável e um sobretudo para combater o frio cortante. Borrifou o seu perfume caro e desceu para o café, onde Dona Zila, sua governanta e xodó, já o esperava. — Bom dia, Zizi. — Bom dia, meu menino. — Ela me olha e continua. — Você está horrível! Olha essas olheiras, crendios! — Exclamou. — Impossível eu estar horrível, Zizi — ele riu, sem vontade. Lian entrou logo em seguida olhando confuso para o chefe. — Não vai haver casamento — Dominic declarou, gélido. Zilá quase saltou da cadeira, as mãos indo ao peito num gesto instintivo. — Ai, minha reza é brava! — exclamou ela, mas logo recompôs a postura, tentando esconder o contentamento sob uma máscara de preocupação maternal. — O que houve, meu filho? O que aconteceu? Dominic não desviou o olhar da xícara de café, a expressão tão rígida quanto mármore. — Na cerimônia a senhora saberá — sentenciou ele, a voz desprovida de qualquer emoção. Ele levantou-se num movimento fluido, o sobretudo n***o flutuando atrás dele como uma sombra. Saiu pela porta com Lian logo na sua bota, mantendo a distância precisa de um soldado. Lá fora, o ar gelado de Toronto cortou o rosto de Dominic, mas ele nem sequer piscou. Lian abriu a porta traseira do Cadillac com agilidade e, segundos depois, já assumia o volante, fazendo o motor roncar baixo. O silêncio dentro do carro era denso, carregado pelo ódio que Dominic mantivera sob controle durante o café. Ele olhou para o reflexo de Lian pelo retrovisor e soltou a bomba, as palavras saindo como estilhaços de vidro: Lian arregalou os olhos. — C.a.r.a.l.h.o, Dominic! — Hoje eles pagam. E o relógio? — Aqui — Lian estendeu a caixa de veludo n***o, o peso do luxo disfarçando o perigo que carregava dentro. — Com a escuta instalada. Baixa o aplicativo no seu celular; a sensibilidade é tão alta que você vai conseguir ouvir até os batimentos cardíacos daquele desgraçado do Olavo. Dominic apenas assentiu com a cabeça, um gesto curto e gélido que encerrava qualquer conversa. Lian deu partida no carro, e o motor rugiu baixo, cortando o asfalto frio de Toronto como uma lâmina. No banco de trás, Dominic encarava a caixa, os dedos roçando o couro, enquanto o plano de destruição se consolidava na sua mente.
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