A primeira coisa que aprendi quando virei bombeiro é que o dia nunca começa quando você quer.
Ele começa quando algo dá errado para alguém.
Hoje, por exemplo, começou às seis da manhã com o alarme do quartel e o rádio chiando como se tivesse acabado de acordar tão m*l-humorado quanto eu.
— Ocorrência residencial, possível princípio de incêndio, Rua das Palmeiras, número 118.
Eu já estava sentado no banco do caminhão antes da mensagem terminar.
— Vamos, vamos! — Vinícius grita enquanto puxa o capacete.
O motor do caminhão ruge e a sirene corta o ar da manhã como uma faca.
Há algo em sair para uma ocorrência que ainda me faz sentir exatamente como quando comecei. Aquela descarga de adrenalina que limpa a mente inteira.
Nada importa além do que está na sua frente.
Chegamos em menos de quatro minutos.
Uma casa pequena, fumaça escapando pelas janelas da cozinha. Um casal está do lado de fora, o homem andando de um lado para o outro como um animal preso.
— Minha mãe! — ele grita assim que desço. — Ela está lá dentro!
Meu cérebro entra em modo automático.
— Máscaras! Linha de ataque pela lateral!
Minha equipe se move como uma máquina bem treinada. Cada um sabe exatamente o que fazer.
— Vinícius, comigo!
Entramos pela porta da frente.
A fumaça é densa. O cheiro de plástico queimando gruda na garganta.
— Dona Maria! — o homem havia gritado o nome antes.
Silêncio.
— Dona Maria!
Então ouvimos uma tosse fraca vindo do corredor.
Vinícius aponta.
A senhora está sentada no chão, encostada na parede, confusa e assustada.
— Calma, dona Maria — digo enquanto a levanto com cuidado. — Vamos levar a senhora lá pra fora.
Ela segura meu braço com força.
— Meu fogão…
— O fogão sobrevive — respondo.
Saímos e entregamos a senhora para os paramédicos.
O filho dela praticamente se joga sobre nós em agradecimento.
— Obrigado, obrigado…
Eu apenas bato no ombro dele.
— Acontece mais do que você imagina.
A verdade é que acontece o tempo inteiro.
(...)
Voltamos para o quartel com o cheiro de fumaça ainda grudado na roupa.
Vinícius abre duas latas de refrigerante e me entrega uma.
— Café da manhã dos campeões.
— Nutricionistas iriam te amar.
Ele ri.
— Capitão, nutricionista não corre para dentro de casas pegando fogo.
— Ainda bem.
Sentamos no banco do pátio enquanto o resto da equipe limpa o equipamento.
O sol já está alto agora.
— Você viu o caminhão novo que vão mandar mês que vem? — ele pergunta.
— Ouvi rumores.
— Dizem que tem sistema hidráulico melhor.
— Tomara.
— Isso significa que o senhor vai parar de reclamar das ferramentas?
— Eu não reclamo.
— Reclama sim.
Eu tomo um gole do refrigerante.
— Eu aprimoro sugestões.
Vinícius gargalha.
É disso que eu gosto.
Depois das ocorrências, vem esse tipo de momento. A tensão se dissolve em piadas ruins e conversas sem importância.
Porque, se a gente parar para pensar demais no que viu… algumas coisas ficam pesadas demais.
(...)
A segunda ocorrência do dia vem perto do meio-dia.
Acidente de carro.
Um utilitário perdeu o controle e bateu num poste.
Chegamos com a ambulância já no local.
O motorista está consciente, mas preso pelo cinto e pela porta amassada.
— Senhor, vamos tirá-lo daqui — digo enquanto avaliamos a estrutura.
— Meu carro… — ele murmura.
— O carro é problema do seguro. Vamos primeiro cuidar do Senhor.
Vinícius posiciona a ferramenta hidráulica.
O metal geme enquanto abrimos espaço.
— Um pouco mais — digo.
A porta finalmente cede.
— Consegui! — ele anuncia.
Retiramos o homem com cuidado.
Ele segura meu braço.
— Obrigado.
Eu apenas aceno.
Quando a ambulância parte, Vinícius olha para mim.
— Mais um para a coleção.
— Não é coleção.
— Não?
— É terça-feira.
(...)
No fim do turno, já estou cansado o suficiente para dormir em pé.
Mas terça-feira também significa outra coisa.
Bar do Paulo.
Um lugar pequeno, com mesas de madeira gastas e cerveja sempre gelada.
Quando entro, meus amigos já estão lá.
Rafael levanta o copo.
— O herói chegou!
— Eu não sou herói — respondo enquanto puxo uma cadeira.
— Claro que não — diz Marcos. — Só corre para dentro de incêndios enquanto a gente corre para fora.
— Detalhes.
Paulo traz três garrafas de cerveja sem nem perguntar.
— Mesma coisa de sempre.
— Você nos conhece bem demais — Rafael diz.
— Vocês são previsíveis.
Tomamos o primeiro gole quase em silêncio.
É aquele momento em que o corpo começa a entender que o dia acabou.
— E aí, capitão — Marcos diz. — Salvou quantas vidas hoje?
— Duas.
— Só?
— Quer trocar comigo amanhã?
Ele levanta as mãos.
— Deus me livre.
Rafael se inclina sobre a mesa.
— Falando em salvar vidas…
Eu já sei para onde isso vai.
— Não.
— Nem deixou eu terminar.
— Não.
— Aquela sua vizinha.
Eu reviro os olhos.
— Já disse que não.
— A atriz.
— Não.
— A bonita.
— Novamente, não.
— A que você provoca no corredor todo dia.
— Não.
Eles riem.
— Cara — Rafael diz — você fala dela mais do que fala de incêndio.
— Eu não falo dela.
— Fala sim.
— Só porque ela é irritante.
Marcos inclina a cabeça.
— Irritante ou interessante?
— Irritante.
Eles trocam um olhar cúmplice.
— Hum.
— Vocês são insuportáveis.
Paulo aparece com uma porção de batatas fritas.
— Aqui.
— Finalmente alguém que me entende — digo.
(...)
Quando saio do bar, a noite está fresca.
E meu celular vibra.
Clara.
Eu sorrio antes mesmo de atender.
— Oi, pirralha.
— Eu não sou pirralha!
— Você sempre será.
Minha irmã mais nova tem vinte anos.
Na minha cabeça, ela ainda tem oito.
— Onde você está? — ela pergunta.
— Bar do Paulo.
— Bebendo?
— Água com gás.
— Mentiroso.
— Um pouco.
Ela ri.
— Você trabalhou hoje?
— Trabalhei.
— Incêndio?
— Um pequeno.
— Você se queimou?
— Não.
— Tem certeza?
— Clara.
— O quê?
— Eu estou bem.
Ela suspira.
— Eu sei… só pergunto.
Clara sempre pergunta.
Desde que éramos crianças.
— Como foi a faculdade? — pergunto.
— Longa.
— Medicina não é fácil.
— Nem salvar pessoas do fogo.
— Touché.
Caminho até meu carro enquanto falamos.
— Você vai vir jantar domingo? — ela pergunta.
— Quando foi que eu perdi a oportunidade de ir comer a comida de mamãe e eu não fui?
— Mamãe vai fazer lasanha.
— Eu vou, não precisa tentar me convencer mais.
Ela solta uma risada.
— Oliver?
— Sim?
A voz dela fica um pouco mais suave.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por sempre atender quando eu ligo.
Eu paro por um segundo.
— Sempre vou atender.
Ela fica quieta.
— Você é meu irmão favorito.
— Eu sou seu único irmão.
— Detalhes.
Eu rio.
— Boa noite, Clara.
— Boa noite, herói.
— Não sou herói.
— Para mim é.
A ligação termina.
Fico olhando para o celular por alguns segundos.
Clara sempre teve esse efeito. Ela me lembra de quem eu sou fora da farda.
Fora das sirenes. Fora do bar.
Ela me lembra que alguém no mundo inteiro acredita que eu posso consertar qualquer coisa.
Mesmo quando eu sei que não posso.
(...)
Quando estaciono em frente ao prédio, o silêncio da rua é quase reconfortante.
Subo os lances de escada e paro.
Porque a porta do apartamento ao lado está entreaberta. E a voz de Cristal ecoa pelo corredor.
— Não, Helena, eu não estou morrendo de fome!
Pausa.
— Eu comi!
Mais uma pausa.
— Salada conta como comida sim!
Eu sorrio sem perceber. Ela continua.
— Eu não preciso de pão!
Silêncio.
— Porque eu sou disciplinada!
Mais silêncio. Então ela abre a porta. E me vê ali. Parado. Sorrindo.
— Há quanto tempo você está ouvindo? — ela pergunta.
— O suficiente para saber que salada não conta como jantar.
Ela cruza os braços.
— Você está me espionando?
— O corredor é território neutro.
— Não para ouvir a conversa dos outros.
— A culpa não é minha se você deixou a porta aberta.
Ela suspira.
— Boa noite, Oliver.
— Boa noite, Julieta.
Por um segundo, nenhum de nós se move.
Então ela fecha a porta.
Eu entro no meu, tiro a camisa e jogo as chaves na mesa.
E penso em duas coisas ao mesmo tempo.
Nas pessoas que salvamos hoje.
E na atriz irritante que acha que alface resolve todos os problemas da vida.
Eu me jogo na cama.
E antes de dormir, uma única certeza passa pela minha cabeça.
Minha vida é barulhenta.
Sirene.
Fogo.
Bar.
Amigos.
Família.
Mas de alguma forma…
O momento mais interessante do meu dia quase sempre acontece no corredor do meu prédio.