Existe uma diferença enorme entre querer muito uma coisa e finalmente tê-la.
Quando você quer, imagina apenas a parte bonita.
Os aplausos.
Os elogios.
As flores depois da apresentação.
Ninguém te conta sobre o ensaio das oito da manhã, até o pôr do sol.
Ninguém te conta sobre a dor nos pés, na garganta e nas costas.
E definitivamente ninguém menciona que sua professora vai encontrar noventa e sete coisas erradas em cada movimento que você fizer.
Estou parada no centro do palco, tentando manter a postura perfeita de uma jovem apaixonada do século XVI, enquanto a senhora Wilson caminha lentamente pela plateia vazia como um falcão avaliando a presa.
— Mais leve, Cristal — ela diz.
Eu faço o giro novamente.
— Mais leve.
Giro outra vez.
— Você não é um caminhão fazendo retorno, é uma garota apaixonada.
Respira.
Giro.
— Melhor — ela diz, mas o tom deixa claro que ainda não está realmente satisfeita.
O palco está silencioso, exceto pelos passos dos outros atores se movimentando em seus próprios ensaios. Alguns observam discretamente. Outros fingem que não estão prestando atenção.
Ser a protagonista tem suas vantagens.
Mas também tem… audiência.
Eu ajusto a postura.
O vestido de ensaio é mais simples que o figurino final, mas o espartilho ainda está lá.
Sempre ele.
Apertando.
Lembrando.
Controlando.
— Vamos novamente da fala anterior — a senhora Wilson ordena.
Marco entra em cena novamente.
Ele é nosso Romeu. Alto, bonito, talentoso… e gentil o suficiente para não parecer ameaçado por dividir o palco comigo.
Ele se posiciona diante de mim.
— Pronta? — ele pergunta baixo.
— Sempre.
Mentira.
Mas ele sorri e começamos.
— Com asas leves de amor eu sobrevoei estes muros…
A voz dele ecoa pelo teatro.
Eu observo, esperando meu momento.
E então respondo.
— Se eles te encontrarem, irão te matar.
Minha voz sai firme.
Clara.
Cheia de urgência.
Sinto a emoção subir naturalmente, como se Julieta realmente estivesse dentro de mim, implorando para existir.
Marco segura minha mão com a intensidade correta.
— Prefiro morrer por eles do que viver sem o seu amor.
Um arrepio percorre minha pele. E então vem a minha fala.
— Meu Deus… por que é que você é Romeu?
O silêncio do teatro parece respirar comigo.
Eu sinto o papel. Sinto a história. Sinto a tragédia crescendo dentro de cada palavra. Por alguns minutos, esqueço completamente quem eu sou.
Sou apenas Julieta. Até que…
— Corta. — A voz da senhora Wilson corta o momento como uma tesoura. — Cristal.
Eu olho para ela.
— Sim?
Ela faz um gesto circular com a mão.
— O giro. — Ah. O giro. — Faça novamente.
Eu posiciono os pés. Respiro. Giro.
No meio do movimento, algo estranho acontece. Uma leve vertigem. Como se o palco tivesse decidido girar um pouco mais do que deveria.
Meu estômago dá um pequeno salto.
Mas continuo. Termino o movimento e sorrio.
— Assim?
A senhora Wilson me observa por alguns segundos.
— Melhor.
Eu solto o ar discretamente.
Mas a sensação estranha ainda está ali.
Pequena. Persistente.
Como um aviso que meu corpo tenta me dar. Ignoro.
— Mais emoção nas mãos — ela continua. — Julieta ama com o corpo inteiro.
Marco tenta esconder um sorriso.
Eu reviro os olhos discretamente.
— Mais uma vez — ela diz.
Ensaiamos novamente. E novamente. E novamente.
Cada fala repetida até perdermos a conta.
Cada movimento analisado. Cada olhar ajustado. É exaustivo.
Mas também é… mágico.
Quando o ensaio finalmente pausa para o almoço, eu desço do palco sentindo minhas pernas pesadas.
Helena aparece ao meu lado.
— Você está incrível.
— Obrigada.
— A senhora Wilson implicou menos hoje.
Eu rio.
— Isso é verdade.
— Você vai comer?
A pergunta parece inocente.
Mas eu sei exatamente o que ela está perguntando.
— Claro.
Mentira número três do dia.
Sentamos na área comum da faculdade.
Helena abre um sanduíche enorme.
— Você quer metade?
— Não, obrigada.
— Tem queijo.
— Eu sei.
— E tomate.
— Eu também sei.
— E pão.
Eu a encaro.
— Você está tentando me torturar?
Ela ri.
— Só estou dizendo.
Eu tiro da bolsa um potinho com morangos e algumas folhas de alface.
Helena olha. Depois olha de novo.
— Isso é almoço?
— É saudável.
— Isso é comida de coelho.
— Coelhos vivem bastante.
Ela suspira.
— Você é impossível.
Dou de ombros.
— Eu sou disciplinada.
Ela não responde.
Mas o olhar dela diz muita coisa.
(...)
O ensaio da tarde é ainda mais intenso.
Agora trabalhamos a famosa cena da varanda.
Aquela que todo mundo conhece. Que carrega metade da história inteira.
Marco sobe na estrutura de madeira improvisada.
Eu fico abaixo.
— Lembre-se — a senhora Wilson diz — Julieta não sabe que está sendo ouvida no início.
— Entendido.
Respiramos.
E começamos.
— Ó Romeu, Romeu… por que és tu, Romeu?
Minha voz ecoa.
O teatro inteiro parece suspenso. Eu sinto cada palavra. Cada suspiro. Cada batida do coração da personagem.
Marco responde no momento certo.
E a cena flui. Natural. Viva.
Por alguns minutos, tudo parece perfeito.
Até que…
— Cristal.
Eu paro.
— Sim?
— Menos perfeição.
Eu pisquei.
— Menos… perfeição?
— Julieta é jovem. Impulsiva. Ela não calcula cada gesto como você está fazendo.
Meu peito aperta.
— Eu estou calculando?
— Sim.
Silêncio.
— Deixe-a viver.
Eu assinto.
— Vamos novamente.
Tentamos outra vez. Dessa vez mais solta. Mais impulsiva. Menos calculada.
Quando finalmente encerramos o ensaio, o sol já está se pondo.
Meu corpo inteiro dói. Minha cabeça lateja levemente. E aquela pequena tontura do início do dia ainda aparece de vez em quando, como um lembrete irritante.
Eu ignoro. Claro que ignoro. Caminho lentamente até o prédio do meu apartamento.
As ruas estão mais silenciosas agora.
As luzes das janelas acesas.
A sensação de um dia inteiro finalmente terminando.
Subo o primeiro lance de escadas.
Depois o segundo. E então eu ouço os risos vindos do apartamento ao lado.
Claro.
Oliver.
A voz dele é fácil de reconhecer.
Grave. Relaxada.
E há uma mulher rindo junto.
Muito alto.
Eu paro no corredor e cruzo os braços, revirando os olhos.
— Inacreditável.
Outro riso alto vem de dentro.
Algo sobre vinho.
Algo sobre sofá.
Eu balanço a cabeça. E caminho até minha porta.
— Seu… extintor de incêndio humano.
A porta ao lado se abre de repente.
E lá está ele.
Camiseta preta.
Cabelo levemente bagunçado.
E aquele sorriso que claramente diz eu ouvi isso.
— Extintor de incêndio humano?
Eu congelo por meio segundo.
— Não era com você.
— Claro que não.
Ele encosta no batente da porta.
— Estava falando com quem então?
— Com o universo.
— Sério mesmo?
— Foi um elogio.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Interessante.
A mulher dentro do apartamento aparece atrás dele.
Alta, bonita e loira.
Ela me olha.
Eu a olho.
Silêncio.
Então eu sorrio.
— Boa noite.
Ela responde educadamente e volta para dentro.
Oliver ainda está na porta.
— Você parece cansada — ele comenta.
— Ensaios.
— Ah.
Ele cruza os braços.
— Julieta. — Eu faço uma reverência exagerada. — Em pessoa.
— E como foi?
— Romeu não morreu hoje.
— Isso já é progresso.
Eu rio.
— E você?
— Sobrevivi ao trabalho.
— Quantos incêndios?
— Dois.
— Impressionante.
Silêncio por um momento. Então olho para a porta dele.
— Sua convidada está esperando.
Ele dá de ombros.
— Ela sobrevive alguns minutos sem mim.
— Impressionante número dois do dia.
Ele sorri.
— Você está sendo menos hostil hoje.
— Estou cansada.
— Isso explica muita coisa.
Eu começo a abrir minha porta.
— Boa noite, bombeiro.
— Boa noite, Julieta.
Antes de entrar, olho para ele.
— E, Oliver?
— Sim?
— Tente não incomodar o prédio inteiro hoje.
Ele ri.
— Prometo tentar.
Entro no meu apartamento e fecho a porta.
Encosto a cabeça nela por um segundo.
Cansada. Dolorida. Mas…
Sorrindo.
Porque, apesar de tudo… hoje foi o primeiro dia da minha vida como Julieta.
E, por mais difícil que seja…
Eu não trocaria isso por nada.