Capítulo 05

1366 Palavras
Existe uma diferença enorme entre querer muito uma coisa e finalmente tê-la. Quando você quer, imagina apenas a parte bonita. Os aplausos. Os elogios. As flores depois da apresentação. Ninguém te conta sobre o ensaio das oito da manhã, até o pôr do sol. Ninguém te conta sobre a dor nos pés, na garganta e nas costas. E definitivamente ninguém menciona que sua professora vai encontrar noventa e sete coisas erradas em cada movimento que você fizer. Estou parada no centro do palco, tentando manter a postura perfeita de uma jovem apaixonada do século XVI, enquanto a senhora Wilson caminha lentamente pela plateia vazia como um falcão avaliando a presa. — Mais leve, Cristal — ela diz. Eu faço o giro novamente. — Mais leve. Giro outra vez. — Você não é um caminhão fazendo retorno, é uma garota apaixonada. Respira. Giro. — Melhor — ela diz, mas o tom deixa claro que ainda não está realmente satisfeita. O palco está silencioso, exceto pelos passos dos outros atores se movimentando em seus próprios ensaios. Alguns observam discretamente. Outros fingem que não estão prestando atenção. Ser a protagonista tem suas vantagens. Mas também tem… audiência. Eu ajusto a postura. O vestido de ensaio é mais simples que o figurino final, mas o espartilho ainda está lá. Sempre ele. Apertando. Lembrando. Controlando. — Vamos novamente da fala anterior — a senhora Wilson ordena. Marco entra em cena novamente. Ele é nosso Romeu. Alto, bonito, talentoso… e gentil o suficiente para não parecer ameaçado por dividir o palco comigo. Ele se posiciona diante de mim. — Pronta? — ele pergunta baixo. — Sempre. Mentira. Mas ele sorri e começamos. — Com asas leves de amor eu sobrevoei estes muros… A voz dele ecoa pelo teatro. Eu observo, esperando meu momento. E então respondo. — Se eles te encontrarem, irão te matar. Minha voz sai firme. Clara. Cheia de urgência. Sinto a emoção subir naturalmente, como se Julieta realmente estivesse dentro de mim, implorando para existir. Marco segura minha mão com a intensidade correta. — Prefiro morrer por eles do que viver sem o seu amor. Um arrepio percorre minha pele. E então vem a minha fala. — Meu Deus… por que é que você é Romeu? O silêncio do teatro parece respirar comigo. Eu sinto o papel. Sinto a história. Sinto a tragédia crescendo dentro de cada palavra. Por alguns minutos, esqueço completamente quem eu sou. Sou apenas Julieta. Até que… — Corta. — A voz da senhora Wilson corta o momento como uma tesoura. — Cristal. Eu olho para ela. — Sim? Ela faz um gesto circular com a mão. — O giro. — Ah. O giro. — Faça novamente. Eu posiciono os pés. Respiro. Giro. No meio do movimento, algo estranho acontece. Uma leve vertigem. Como se o palco tivesse decidido girar um pouco mais do que deveria. Meu estômago dá um pequeno salto. Mas continuo. Termino o movimento e sorrio. — Assim? A senhora Wilson me observa por alguns segundos. — Melhor. Eu solto o ar discretamente. Mas a sensação estranha ainda está ali. Pequena. Persistente. Como um aviso que meu corpo tenta me dar. Ignoro. — Mais emoção nas mãos — ela continua. — Julieta ama com o corpo inteiro. Marco tenta esconder um sorriso. Eu reviro os olhos discretamente. — Mais uma vez — ela diz. Ensaiamos novamente. E novamente. E novamente. Cada fala repetida até perdermos a conta. Cada movimento analisado. Cada olhar ajustado. É exaustivo. Mas também é… mágico. Quando o ensaio finalmente pausa para o almoço, eu desço do palco sentindo minhas pernas pesadas. Helena aparece ao meu lado. — Você está incrível. — Obrigada. — A senhora Wilson implicou menos hoje. Eu rio. — Isso é verdade. — Você vai comer? A pergunta parece inocente. Mas eu sei exatamente o que ela está perguntando. — Claro. Mentira número três do dia. Sentamos na área comum da faculdade. Helena abre um sanduíche enorme. — Você quer metade? — Não, obrigada. — Tem queijo. — Eu sei. — E tomate. — Eu também sei. — E pão. Eu a encaro. — Você está tentando me torturar? Ela ri. — Só estou dizendo. Eu tiro da bolsa um potinho com morangos e algumas folhas de alface. Helena olha. Depois olha de novo. — Isso é almoço? — É saudável. — Isso é comida de coelho. — Coelhos vivem bastante. Ela suspira. — Você é impossível. Dou de ombros. — Eu sou disciplinada. Ela não responde. Mas o olhar dela diz muita coisa. (...) O ensaio da tarde é ainda mais intenso. Agora trabalhamos a famosa cena da varanda. Aquela que todo mundo conhece. Que carrega metade da história inteira. Marco sobe na estrutura de madeira improvisada. Eu fico abaixo. — Lembre-se — a senhora Wilson diz — Julieta não sabe que está sendo ouvida no início. — Entendido. Respiramos. E começamos. — Ó Romeu, Romeu… por que és tu, Romeu? Minha voz ecoa. O teatro inteiro parece suspenso. Eu sinto cada palavra. Cada suspiro. Cada batida do coração da personagem. Marco responde no momento certo. E a cena flui. Natural. Viva. Por alguns minutos, tudo parece perfeito. Até que… — Cristal. Eu paro. — Sim? — Menos perfeição. Eu pisquei. — Menos… perfeição? — Julieta é jovem. Impulsiva. Ela não calcula cada gesto como você está fazendo. Meu peito aperta. — Eu estou calculando? — Sim. Silêncio. — Deixe-a viver. Eu assinto. — Vamos novamente. Tentamos outra vez. Dessa vez mais solta. Mais impulsiva. Menos calculada. Quando finalmente encerramos o ensaio, o sol já está se pondo. Meu corpo inteiro dói. Minha cabeça lateja levemente. E aquela pequena tontura do início do dia ainda aparece de vez em quando, como um lembrete irritante. Eu ignoro. Claro que ignoro. Caminho lentamente até o prédio do meu apartamento. As ruas estão mais silenciosas agora. As luzes das janelas acesas. A sensação de um dia inteiro finalmente terminando. Subo o primeiro lance de escadas. Depois o segundo. E então eu ouço os risos vindos do apartamento ao lado. Claro. Oliver. A voz dele é fácil de reconhecer. Grave. Relaxada. E há uma mulher rindo junto. Muito alto. Eu paro no corredor e cruzo os braços, revirando os olhos. — Inacreditável. Outro riso alto vem de dentro. Algo sobre vinho. Algo sobre sofá. Eu balanço a cabeça. E caminho até minha porta. — Seu… extintor de incêndio humano. A porta ao lado se abre de repente. E lá está ele. Camiseta preta. Cabelo levemente bagunçado. E aquele sorriso que claramente diz eu ouvi isso. — Extintor de incêndio humano? Eu congelo por meio segundo. — Não era com você. — Claro que não. Ele encosta no batente da porta. — Estava falando com quem então? — Com o universo. — Sério mesmo? — Foi um elogio. Ele ergue uma sobrancelha. — Interessante. A mulher dentro do apartamento aparece atrás dele. Alta, bonita e loira. Ela me olha. Eu a olho. Silêncio. Então eu sorrio. — Boa noite. Ela responde educadamente e volta para dentro. Oliver ainda está na porta. — Você parece cansada — ele comenta. — Ensaios. — Ah. Ele cruza os braços. — Julieta. — Eu faço uma reverência exagerada. — Em pessoa. — E como foi? — Romeu não morreu hoje. — Isso já é progresso. Eu rio. — E você? — Sobrevivi ao trabalho. — Quantos incêndios? — Dois. — Impressionante. Silêncio por um momento. Então olho para a porta dele. — Sua convidada está esperando. Ele dá de ombros. — Ela sobrevive alguns minutos sem mim. — Impressionante número dois do dia. Ele sorri. — Você está sendo menos hostil hoje. — Estou cansada. — Isso explica muita coisa. Eu começo a abrir minha porta. — Boa noite, bombeiro. — Boa noite, Julieta. Antes de entrar, olho para ele. — E, Oliver? — Sim? — Tente não incomodar o prédio inteiro hoje. Ele ri. — Prometo tentar. Entro no meu apartamento e fecho a porta. Encosto a cabeça nela por um segundo. Cansada. Dolorida. Mas… Sorrindo. Porque, apesar de tudo… hoje foi o primeiro dia da minha vida como Julieta. E, por mais difícil que seja… Eu não trocaria isso por nada.
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