Capítulo 04

1630 Palavras
Se alguém me dissesse, alguns anos atrás, que eu passaria quase quarenta minutos dentro de um mercado escolhendo folhas… eu provavelmente teria rido. Mas ali estou eu. Parada no meio da seção de hortifruti, segurando um maço de espinafre como se fosse um objeto de extrema importância para o meu futuro. Talvez seja. Talvez tudo aqui seja. Respiro fundo, observando as prateleiras organizadas com uma perfeição quase irritante. Alfaces verdes, roxas, crespas, lisas. Tomates brilhando sob a luz branca do mercado. Cenouras perfeitamente alinhadas. Pepinos retos demais para parecerem naturais. Tudo saudável. Tudo correto. Tudo exatamente o tipo de coisa que uma Julieta deveria comer. Meu peito se enche de uma mistura estranha de orgulho e ansiedade. Eu consegui. Ainda parece surreal pensar nisso. Depois de tantos testes, tantas rejeições silenciosas, tantos “vamos manter seu contato”, eu finalmente ouvi meu nome sendo chamado para algo que importava. Julieta. O papel que eu queria desde o momento em que vi o roteiro pela primeira vez. O papel que poderia mudar tudo. A oportunidade que justificaria cada centavo que meus pais enviaram para que eu estivesse aqui. Não posso estragar isso. Não posso dar a ninguém um motivo para olhar para mim e pensar: ela não é suficiente. Seguro o espinafre com mais firmeza e o coloco dentro do carrinho. — Muito bem — murmuro para mim mesma. — Começamos bem. Dou mais alguns passos pelo corredor. Abobrinha. Cenoura. Pepino. Brócolis. Tomate. Cada item entra no carrinho com um propósito quase militar. Como se eu estivesse montando uma estratégia de guerra. Na verdade, talvez esteja. Uma guerra contra mim mesma. Passo pela prateleira de frutas e paro novamente. Maçãs. Bananas. Morangos. Escolho tudo com cuidado, analisando como se alguém estivesse avaliando minhas escolhas. Como se a senhora Wilson pudesse aparecer atrás de mim a qualquer momento com uma prancheta e um olhar crítico. Boa escolha, Cristal. Má escolha, Cristal. Engulo em seco. Pego um pacote de morangos e coloco no carrinho. Frutas são boas. Frutas são seguras. Frutas são permitidas. O carrinho começa a encher. Verdes. Vermelhos. Laranjas. Cores de saúde. Cores de disciplina. Cores de controle. Passo pelo corredor de doces sem olhar diretamente para as prateleiras. Mas eu sinto. O cheiro. Chocolate. Biscoito. Caramelo. Meu estômago se contrai instantaneamente. A lembrança da bacia enorme de pipoca da noite anterior invade minha mente como uma acusação. Eu acelero o passo. Não preciso disso. Não hoje. Não agora. Empurro o carrinho direto para o caixa antes que minha mente tente negociar qualquer coisa comigo. (...) Quando entro no prédio, minhas mãos estão cheias de sacolas. Muitas sacolas. Mais sacolas do que alguém que mora sozinho realmente precisa. Mas eu estava determinada. Determinada a provar para mim mesma que consigo. Que posso ser disciplinada. Que posso ser a Julieta que todos esperam. Subo as escadas lentamente, equilibrando o peso nas mãos. Minhas pernas ainda estão cansadas do ensaio. Meu corpo inteiro parece ligeiramente dolorido. Quando chego ao segundo lance, preciso parar por um segundo para ajustar as sacolas. É quando ele aparece. Oliver. Claro. Porque aparentemente o universo adora nos colocar no mesmo espaço o tempo inteiro. Ele está subindo as escadas com aquele ar cansado que eu nunca tinha visto antes. A farda não está mais nele, mas o corpo ainda carrega a postura rígida de quem passou o dia inteiro dando ordens. Por um segundo, penso que ele simplesmente vai passar por mim. E eu preferia que passasse. Mas ele não passa. Ele comenta sobre o hortifrúti ambulante que eu aparentemente estou carregando. E, antes que eu perceba, ele está segurando duas das minhas sacolas. A conversa que segue ainda ecoa na minha cabeça enquanto guardo as compras. Principalmente uma parte específica. "Você não parece ser o tipo de mulher que come apenas salada." Minha reação foi automática. Defensiva. Apavorada. "Estou gorda?" Só de lembrar disso sinto meu rosto esquentar. Que pergunta ridícula. Que reação ridícula. Mas, naquele momento, parecia a única coisa possível de dizer. Porque essa pergunta vive na minha cabeça o tempo inteiro. Estou gorda? Estou maior? Estou diferente? Estou estragando tudo? Abro a geladeira e começo a organizar as coisas. Alface. Pepino. Cenoura. Tomate. Cada coisa no seu lugar. Cada cor criando um pequeno arco-íris saudável diante de mim. Mas minha mente insiste em voltar para o que ele respondeu. "Quero dizer que você tem cara de quem gosta de um brigadeiro." Eu paro com um tomate na mão. Brigadeiro. A palavra soa quase proibida. E depois ele completou: "E de uma boa xícara de chocolate quente." Sinto algo estranho no peito ao lembrar disso. Não era uma crítica. Não era exatamente um elogio também. Era… outra coisa. Algo mais leve. Sacudo a cabeça. Não vou pensar no Oliver. Não vou. Tenho coisas mais importantes para focar. Coloco o tomate na gaveta e começo a separar os legumes. Brócolis. Abobrinha. Cenoura. Pego uma tábua de corte, já imaginando o jantar. Algo leve. Algo correto. Algo digno de uma atriz principal. É quando meu celular começa a tocar. Olho para a tela. Briana. Sorrio automaticamente. Minha irmã mais velha tem esse efeito em mim. Atendo. — Ei. — Finalmente! — a voz dela vem alegre do outro lado da linha. — Eu estava esperando você me ligar desde ontem. — O dia foi uma loucura. — Eu soube. Pisco. — Como? — Mamãe me ligou chorando de orgulho. Parabéns, Julieta. Sinto meu peito aquecer. — Obrigada. — Eu sabia que você conseguiria. Eu apoio o quadril no balcão da cozinha. — Eu ainda estou tentando acreditar. — Você merece isso. Fico em silêncio por um segundo, absorvendo aquelas palavras. — O que você está fazendo agora? — ela pergunta. Olho ao redor da cozinha. Sacolas ainda abertas. Legumes espalhados. Frutas coloridas. — Guardando compras. — Compras? — Passei no mercado. Do outro lado da linha, escuto um som que reconheço imediatamente. Ela está abrindo uma geladeira. Briana é chef de cozinha. A cozinha é praticamente o habitat natural dela. — O que você comprou? — Coisas saudáveis. — Tipo? — Legumes. Verduras. Frutas. Silêncio. Um silêncio suspeito. — Só isso? — ela pergunta. Eu hesito. — Sim. — Cristal. — O quê? — Onde estão os carboidratos? — Eu… já guardei. Outro silêncio. Dessa vez mais longo. — E os doces? — Também. — Cristal. O jeito que ela diz meu nome é quase maternal. — O quê? — Você está mentindo. Eu reviro os olhos. — Não estou. — Você sempre fala mais rápido quando mente. — Isso não é verdade. — É absolutamente verdade. Suspiro. — Briana… — Você comprou pão? — Não. — Massas? — Não. — Chocolate? — Não. — Cristal. Eu fecho os olhos por um segundo. — Eu preciso cuidar do que como agora. — Você sempre cuidou. — Agora mais. — Por quê? Eu solto uma risada curta. — Porque eu sou a Julieta agora. Ela suspira do outro lado da linha. — Isso não significa que você precisa viver de alface. — É fácil para você dizer. A frase escapa antes que eu consiga segurá-la. Silêncio. Imediatamente me arrependo. — Bri… — Fácil para mim? — ela repete calmamente. — Eu não quis dizer assim. — Então como quis dizer? Respiro fundo. — Você cozinha o dia inteiro. Faz sobremesas incríveis. Experimenta tudo. E não precisa subir num palco com um figurino apertado enquanto alguém avalia cada centímetro do seu corpo. As palavras saem mais duras do que eu gostaria. Do outro lado da linha, ela fica quieta por alguns segundos. Quando fala de novo, a voz dela está mais suave. — Você não precisa se preocupar com a balança. Eu solto uma risada incrédula. — Claro que preciso. — Não. — Briana — Não. A firmeza na voz dela me faz ficar em silêncio. — O espelho já mostra o quanto você está bonita. Meu peito aperta. — Se alguém acha o contrário — ela continua — esse alguém é que precisa de ajuda. Engulo em seco. — Você não entende. — Talvez não completamente. Ela pausa. — Mas eu entendo você. Fico olhando para as cenouras sobre o balcão. — Só… não deixe que isso vire uma guerra dentro da sua cabeça. Minha garganta aperta. — Eu estou bem. — Você tem certeza? Minto automaticamente. — Tenho. Ela suspira. — Tudo bem. Sabemos as duas que essa conversa não terminou de verdade. — Eu preciso voltar para o restaurante — ela diz. — Mas me manda foto da sua primeira apresentação quando acontecer. — Pode deixar. — E come alguma coisa de verdade. — Eu vou. Outra mentira. Ela ri. — Boa noite, Julieta. — Boa noite. Desligo. O silêncio do apartamento volta imediatamente. Fico parada no meio da cozinha por alguns segundos. O celular ainda na minha mão. As palavras dela ecoando na minha cabeça. "Você não precisa se preocupar com a balança." "O espelho já mostra o quanto você está bonita." Olho para a bancada. Todas as cores estão ali. Verdes intensos. Laranjas brilhantes. Vermelhos vibrantes. Um arco-íris inteiro de salada esperando por mim. E, de repente, lembro da voz de Oliver. "Você tem cara de quem gosta de um brigadeiro." Eu encaro os morangos na geladeira. Pequenos. Doces. Naturais. Seguro um deles entre os dedos. Briana diz que eu estou bonita. Oliver diz que eu tenho cara de quem gosta de chocolate quente. A senhora Wilson diz que eu preciso escolher entre comer e ser uma ótima atriz. Três vozes. Três verdades diferentes. Eu mordo o morango. Um brigadeiro seria muito mais saboroso… Fecho os olhos por um segundo. E fico ali, parada no meio da cozinha, cercada por todas as cores de salada… tentando entender qual dessas vozes eu deveria ouvir.
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