Capítulo 03

1694 Palavras
Ser bombeiro não é só trabalho. Nunca foi. Era sonho quando eu tinha oito anos e assisti a um caminhão vermelho atravessar minha rua com a sirene ligada, como se estivesse correndo contra o próprio tempo. Virou objetivo quando entendi que eu precisava ser alguém que faz a diferença. E hoje é propósito. Salvar vidas me mantém vivo. O quartel já está desperto quando chego. O cheiro de café forte mistura com o de óleo e borracha. O som metálico de ferramentas sendo organizadas ecoa pelo pátio. Meus homens estão espalhados entre a checagem dos equipamentos e as piadas de rotina. — Capitão — Vinícius cumprimenta, erguendo o queixo em respeito. Eu retribuo com um aceno. — Como estamos hoje? — Caminhão dois revisado. Equipamentos conferidos. Tanque cheio. Assinto. Gosto de ouvir isso. Gosto de saber que, quando a sirene tocar, cada detalhe estará no lugar. Porque no meio do caos, organização é a única coisa que nos impede de virar mais uma tragédia. Mal termino de pegar uma caneca de café quando o rádio chia. Primeira ocorrência do dia. Incêndio residencial. O mundo nunca espera que você termine o café. A sirene rasga o ar enquanto subimos no caminhão. O motor vibra sob meus pés e, por alguns segundos, tudo dentro de mim se ajusta. A adrenalina não é euforia. É foco. É clareza absoluta. Chegamos à casa com fumaça saindo pelas janelas do segundo andar. Uma mulher grita no jardim, o rosto coberto de lágrimas. — Meu filho! Ele está lá dentro! O tempo se comprime. — Máscaras! Linha de ataque pela lateral! — eu comando, a voz firme, sem espaço para dúvida. Cada homem sabe exatamente o que fazer. Entrar em um incêndio é como atravessar uma parede viva de calor e incerteza. O ar é pesado, o estalo da madeira queimando soa como ameaça constante. Subo as escadas praticamente às cegas, guiado pelo treinamento e pela intuição. O quarto no fundo do corredor está tomado por fumaça. O garoto está encolhido atrás da cama. — Ei! — minha voz sai firme através da máscara. — Estou aqui. Vamos sair. Ele está tremendo. Eu o pego nos braços e sinto o peso pequeno contra o meu peito. O calor aumenta. O teto estala. Descemos. Cada passo é uma negociação com o perigo. Quando atravesso a porta da frente e entrego o menino para a mãe, o som que ela faz ao abraçá-lo é algo que eu nunca consigo descrever. Não é só alívio. É devolução de vida. Eu me viro antes que qualquer emoção me alcance. Ainda há fogo para apagar. Voltamos ao quartel ainda antes do meio-dia. Mal temos tempo de tirar o equipamento quando surge outra chamada. Colisão leve na avenida central. Depois uma queda de motociclista. Depois um princípio de incêndio em um restaurante. O dia vira um borrão de sirenes, comandos e decisões rápidas. Ser líder não é apenas saber agir. É saber manter todos vivos. Cada homem ali confia em mim. E eu não posso falhar. No fim da tarde, quando o cansaço começa a pesar nos ombros, o rádio chia de novo. — Acidente grave na rodovia. Envolvendo caminhão e veículo de passeio. Possíveis vítimas presas às ferragens. O silêncio dentro do caminhão é diferente dessa vez. Todos sabem o que isso significa. Sangue. Metal retorcido. Tempo contra nós. Chegamos e a cena é brutal. O caminhão tombado parcialmente sobre a pista. A cabine amassada. O carro esmagado contra a lateral. Vidro espalhado pelo asfalto como chuva congelada. Uma mulher grita ao lado da estrada. — Meu marido está ali! Ele está ali! Respiro fundo uma única vez. Depois entro no modo comando. — Isola a área! Estabiliza o caminhão! Ferramenta hidráulica aqui! O cheiro de combustível é forte. O risco de explosão é real. Eu me ajoelho ao lado do carro. O motorista está consciente, mas preso pelas ferragens. Sangue escorre pela testa. A respiração é irregular. — Ei — falo firme, olhando nos olhos dele. — Fica comigo. Qual seu nome? — Ricardo… — Ótimo, Ricardo. Eu sou Oliver. Nós vamos tirar você daqui. Mas preciso que fique acordado, ok? Ele assente, com dificuldade. Cada segundo ali dentro parece uma eternidade. Dou instruções precisas. — Corta pela coluna A. Devagar. Mantém estabilizado. O barulho da ferramenta hidráulica rasgando metal é ensurdecedor. Eu sinto a pressão. Sinto o peso das decisões. Se eu errar o ângulo, posso piorar uma fratura. Se eu demorar, ele pode entrar em choque. Se eu hesitar, alguém pode morrer. Não há espaço para dúvida. Finalmente conseguimos abrir espaço suficiente para retirar o motorista. Quando o colocamos na maca, o paramédico confirma que ele está estável. O caminhoneiro também é retirado com vida. Sem explosão. Sem perda. Quando tudo termina, já é noite. Eu sinto o cansaço agora. Não é apenas físico. É mental. É como se cada ocorrência deixasse uma marca invisível que só aparece quando o silêncio chega. No caminho de volta ao quartel, ninguém fala muito. Estamos todos exaustos. Depois do relatório final, entrego o plantão. Tiro a farda com cuidado, mas ainda sinto o peso dela nos ombros. Quando chego ao prédio do meu apartamento, tudo que eu quero é um banho quente e uma cama. Nada de bares. Nada de companhia. Nada de jogos de provocação no corredor. Subo o primeiro lance de escadas. As pernas pesam. O segundo lance começa. E então eu a vejo. Cristal. Parada no meio do corredor, tentando equilibrar o próprio corpo enquanto segura sacolas demais para alguém do tamanho dela. Frutas. Verduras. Legumes. Sacolas penduradas nos braços finos. Ela parece prestes a tombar. Eu paro. Não ia ajudar. Não estou com energia para isso. Hoje não. Mas então uma das sacolas escorrega e quase cai. Eu solto um suspiro. — Sério? Ela se vira, surpresa. — O que você está fazendo aqui? — Eu moro aqui — respondo, seco. Ela tenta ajustar as sacolas, claramente perdendo a batalha contra a gravidade. — Não preciso de ajuda — ela diz rápido demais. Eu cruzo os braços. — Claramente. Ela me lança um olhar irritado. — Eu consigo. Uma maçã cai e rola pelo corredor. Eu arqueio a sobrancelha. — Impressionante. Ela fecha os olhos por um segundo, respirando fundo. Eu me aproximo e pego duas das sacolas antes que ela proteste de novo. — Ei! Eu disse que não precisava! — E eu disse que moro aqui. O que significa que não estou com pressa para assistir você desmaiar no corredor. Ela me encara. Mas não puxa as sacolas de volta. Caminhamos lado a lado pelo restante do lance de escadas. O silêncio é estranho. Não há farpas. Não há provocações. Só o som das nossas respirações. Eu olho de relance para o conteúdo das sacolas. Alface. Tomate. Brócolis. Cenoura. Morango. — Você não parece ser o tipo de mulher que come só salada. A frase escapa antes que eu pense muito. Ela para abruptamente. Os olhos se arregalam. — Como é? Eu paro também. — Eu só disse que… — Por quê? — ela interrompe, a voz um pouco mais alta. — Você acha que eu estou gorda? Levo um segundo para entender de onde aquilo veio. — O quê? Não. Ela aperta as sacolas contra o corpo como se estivesse se protegendo. — Então por que eu não pareço? Eu suspiro. Não era isso que eu queria dizer. Não era essa a intenção. — Não é sobre peso, Cristal. Ela cruza os braços, desconfiada. — Então é sobre o quê? Eu a encaro por um momento. Ela está diferente hoje. Mais cansada. Mais frágil. — Você tem cara de quem gosta de um brigadeiro escondido na madrugada — digo, mais calmo. — E de uma boa xícara de chocolate quente em dia frio. Ela pisca. Confusa. — Isso… não faz sentido. Dou de ombros. — Faz para mim. Ela me observa, como se estivesse tentando decifrar se estou provocando ou falando sério. — E isso é um insulto? — Não. — balanço a cabeça. — É humano. Algo no olhar dela vacila por um segundo. Chegamos ao nosso andar. Ela aponta para a porta do apartamento. — Pode deixar as compras aí. Eu não me movo. — Eu consigo levar até a cozinha. — Não precisa. — Eu já estou segurando. — Oliver. — Cristal. Ela estreita os olhos. — Você é insuportável. — Já ouvi isso antes. Ela tenta puxar as sacolas da minha mão. Eu ergo um pouco, fora do alcance dela. — Devolve! — Vai ter que alcançar. Ela avança um passo, quase trombando comigo. — Eu não preciso de você. — Eu sei. — Então para de agir como se eu fosse quebrar a qualquer segundo. Eu a encaro. Porque é exatamente o que pensei quando a vi na escada. Ela suspira, derrotada. — Só… deixa ali dentro e vai embora. Eu caminho até a porta dela quando ela abre. Deixo as sacolas na bancada da cozinha. Olho ao redor por um segundo. Simples. Organizado. Silencioso. — Obrigada — ela diz, mais baixo. Eu apenas assinto. Saio antes que qualquer coisa fique estranha demais. No meu apartamento, fecho a porta e apoio a testa na madeira por um segundo. Eu não deveria me importar. Mas me importo. Tiro as botas. Vou direto para o banho. A água quente cai sobre meus ombros, levando embora o cheiro de fumaça, de combustível, de metal queimado. Fecho os olhos. O rosto do motorista preso às ferragens ainda aparece na minha mente. A criança no incêndio. O grito da mulher na rodovia. E, inexplicavelmente, o olhar assustado de Cristal na escada quando perguntou se eu a achava gorda. Eu não tenho energia para sair hoje. Não tenho energia para bares. Nem para mulheres de salto alto e conversas vazias. Depois do banho, visto apenas uma bermuda e me jogo na cama. O colchão recebe meu corpo como se soubesse o quanto eu precisava disso. Pela primeira vez em muito tempo, não penso em ligar para ninguém. Não penso em companhia. Não penso em provocá-la no corredor amanhã. Só fecho os olhos. Exausto. E deixo o silêncio me engolir.
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