Capítulo 02

1452 Palavras
O meu dia já havia começado péssimo. E a culpa era inteiramente minha. Ou melhor… nossa. Assim que abro a porta do apartamento, ele já está lá. Pontual. Calculado. Irritantemente previsível. Oliver. Encostado no batente da própria porta, vestindo a farda impecável de bombeiro, o tecido ajustado aos ombros largos, o brasão reluzindo no peito como se tivesse sido polido segundos antes. Ele sempre parece pronto para salvar o mundo. Ou para provocar o meu. Ao lado dele, uma loira alta demais, magra demais, de salto alto às sete da manhã. A mão dela desliza pelo peito dele com uma i********e forçada, teatral. Territorial. Claro. Ele olha para mim fingindo surpresa, como se não estivesse claramente esperando o exato segundo em que eu abriria a porta. — Ora, bom dia, vizinha. Eu o encaro como se ele fosse um vazamento persistente no teto que ninguém consegue consertar. — Que azar o meu. Ele sorri. Aquele sorriso torto que me dá vontade de socar alguma coisa. — Você devia agradecer. Começar o dia vendo algo bonito costuma melhorar o humor. Cruzo os braços, analisando a “cara amassada” que ele tenta esconder sob a arrogância matinal. — Então você deveria se olhar no espelho antes de sair. Com essa sua cara, você não melhora o dia de ninguém. A loira dá um passo à frente, a mão ainda pousada sobre o uniforme dele. — Vamos, querido? — ela diz alto demais, como se estivesse marcando território em uma selva invisível. Eu observo. A mão dela. O toque. A forma como ela se inclina. Depois olho para ela inteira. Avalio. Meço. Calculo. E sorrio. Devagar. — A de ontem era mais bonita. O silêncio que se segue é quase palpável. A loira enrijece. — Como é? Inclino a cabeça, inocente. — Só estou dizendo… se for para trocar toda noite, talvez seja bom manter um padrão. Já que o desempenho nem sempre compensa. O maxilar dele trava. Eu vejo. Eu sei que atingi onde queria. Sustento o olhar dele. Desafiadora. Provocadora. Ele se aproxima meio passo, suficiente para que o perfume dele me alcance. — Tenha um excelente dia, Cristal — ele diz, enfatizando cada sílaba do meu nome. Dou um passo à frente também. Não recuo. Nunca recuo. — Sempre tenho. Ele começa no momento em que deixo de respirar o mesmo ar que o seu. Viro as costas antes que ele tenha a chance de responder. Caminho em direção às escadas e começo a descer. Um lance. Dois. Três. O salto do meu tênis ecoa pelo vão estreito do prédio, e só quando chego ao térreo percebo que estou ofegante — e não é apenas pelos degraus. Só quando atravesso a porta do prédio é que deixo o ar sair dos meus pulmões. Eu odeio o quanto ele me afeta. Odeio o quanto preciso vencer essas pequenas batalhas ridículas no corredor como se minha sanidade dependesse disso. E hoje… eu não tenho energia para guerras desnecessárias. Saio caminhando em direção à faculdade. Eu precisava de um grande copo de café. Forte. Amargo. Gigante. Mas não vou exagerar. Na noite anterior já se foi uma bacia enorme de pipoca. Inteira. Sozinha. Como se cada punhado fosse capaz de preencher um vazio que eu nem sei nomear. As ruas já estão acordadas. Padarias abertas. Cafeterias movimentadas. O cheiro de café recém-passado invade minhas narinas como uma tentação c***l. Meu estômago revira. Fecho os olhos por um instante e continuo andando. O cheiro de pão quente, manteiga derretida, açúcar… tudo parece maior quando você decide que não pode ter. Você não foi forte o suficiente ontem. A voz ecoa na minha cabeça com a mesma entonação fria que já se tornou familiar. Eu preciso ser melhor. Hoje tem ensaio. Hoje a senhora Wilson vai decidir oficialmente quem será Julieta. E eu preciso ser Julieta. Não é apenas um papel. É a justificativa para cada centavo que meus pais enviam todo mês. É a prova de que eu não saí da minha cidade para brincar de atriz. É a chance de finalmente ser vista. Entro no prédio da faculdade com o coração acelerado. Os corredores cheiram a madeira antiga e maquiagem. Ecos de vozes ensaiando textos se misturam com risadas nervosas. — Cristal! — Helena corre até mim. — Você soube? A senhora Wilson trouxe jurados para o teste. Gente grande. Claro que trouxe. Claro que hoje seria o dia em que tudo pesa mais. Forço um sorriso. — Ótimo. Mas meu peito aperta. No camarim, o vestido de Julieta está pendurado à minha espera. E ao lado dele, o espartilho. Sempre ele. A senhora Wilson entra com seu salto firme ecoando no chão. — Meninas, silêncio. A sala obedece. Ela segura o espartilho e me encara. — Cristal. Venha. Caminho até ela sob os olhares atentos das outras. O tecido envolve minha cintura. As fitas começam a ser puxadas. Primeiro puxão. O ar diminui. Segundo puxão. Minhas costelas protestam. — A balança mostrou outra vez que você não foi forte o suficiente para resistir à comida — ela diz, firme. — E agora estamos pagando por isso no figurino. Sinto o rosto queimar. — Você é uma excelente atriz, Cristal. — Mais um puxão. Minha respiração falha. — Mas precisa entender que fazemos escolhas. Ou quer ser uma ótima atriz… ou quer comer o que tem vontade. — Me desculpe, senhora Wilson… eu estava conversando com minha família e… — Desculpas não diminuem números na balança. Ela aperta mais. — Se você quer mesmo ser a Julieta dessa peça, precisa fazer por merecer. Teremos gente importante aqui hoje. E tenho outras atrizes que ficariam sem comer o que fosse necessário para isso dar certo. A ameaça fica suspensa no ar. Eu prendo o ar. — Eu irei conseguir. Não se preocupe. Isso não irá se repetir. Minha voz sai firme. Por dentro, eu estou tremendo. — Assim eu espero. O último puxão é brutal. Fico sozinha diante do espelho depois que ela se afasta. Encaro meu reflexo. A maquiagem delicada. O vestido romântico. A cintura moldada à força. Respiro fundo. Ou tento. Eu preciso conseguir. Não posso perder tudo assim. Por ser fraca. Vejo o rosto do meu pai assinando cheques. Minha mãe dizendo que acredita em mim, mesmo quando a preocupação atravessa o sorriso dela. Como eu poderia voltar para casa dizendo que falhei? Que não aguentei? Uma assistente abre a porta. — Cinco minutos. (...) As luzes do palco parecem mais fortes hoje. Os jurados estão sentados na primeira fila, com pranchetas nas mãos, expressões neutras demais para que eu consiga interpretar qualquer coisa. Engulo em seco. Quando chamam meu nome, minhas pernas parecem de algodão — mas eu caminho mesmo assim. Dou o primeiro passo no palco. Depois outro. E quando começo a falar, algo muda. A respiração ainda dói. O espartilho ainda aperta. Mas a voz sai firme. Clara. Viva. Eu não sou mais a garota do corredor discutindo com o vizinho. Não sou a filha que teme decepcionar os pais. Não sou o número na balança. Eu sou Julieta. Sou amor desesperado. Sou intensidade. Sou coragem. Quando termino o último trecho do teste, o silêncio no teatro é absoluto. Um segundo. Dois. Três. Os jurados trocam olhares. Cochicham. Anotam algo. Meu coração bate tão forte que tenho medo que seja audível. A senhora Wilson se aproxima deles. Conversam baixo. Eu permaneço parada no centro do palco, mãos unidas à frente do corpo para esconder o tremor. Finalmente, um dos jurados se levanta. — Obrigado, Cristal. Eu desço do palco com a sensação de que deixei meu próprio coração ali em cima. Minutos depois, todo o elenco é chamado de volta. A senhora Wilson segura uma folha nas mãos. — Após avaliarmos os testes… já temos nossa Julieta. O mundo inteiro parece prender a respiração comigo. — Cristal. Por um segundo, eu não me movo. Tenho certeza de que ouvi errado. Mas então os aplausos começam ao meu redor. Helena me abraça. Alguém aperta meu ombro. Eu consegui. Eu sou Julieta. Meu peito se enche de algo quente, quase doloroso. Orgulho. Alívio. Medo. A senhora Wilson se aproxima de mim, o sorriso contido. — Parabéns. Você mereceu. Mas agora começa o verdadeiro trabalho. O olhar dela desce discretamente até minha cintura. — Disciplina, Cristal. Redobrada. Eu entendo o que ela não precisa dizer. Ser escolhida é apenas o começo. Agora eu preciso manter o papel. E isso significa… cuidar ainda mais do que como. Sorrio para todos. Agradeço. Abraço. Mas, enquanto toco de leve o espartilho apertado sob o vestido, uma única certeza ecoa dentro de mim: Eu consegui o papel dos meus sonhos. E agora não posso mais falhar.
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