Sinto calor.
Um calor lento, insistente, que me arranca um suspiro ainda antes de abrir os olhos.
Por alguns segundos, fico ali, aproveitando a sensação e o silêncio da manhã.
Isso é o paraíso.
Quando finalmente olho para baixo, encontro os olhos castanhos da loira que passou a noite comigo. Ela me observa como se estivesse orgulhosa do próprio desempenho.
Sorrio, preguiçoso.
— Bom dia.
Ela ergue o queixo, satisfeita.
— Melhor agora.
Levo a mão aos cabelos dela, apenas o suficiente para conduzir o ritmo.
— Você é cheia de energia logo cedo — murmuro.
— Só quando vale a pena.
Solto uma risada baixa.
Ela é bonita. Empenhada. Sabe exatamente o que está fazendo.
Mas não é nada além disso.
E ela sabe. Todas sabem que tudo que acontecerá, terminará do mesmo jeito que começou. Elas sempre fazem drama, mas eu sempre deixo tudo muito claro antes.
(...)
Algum tempo depois, estou de pé, vestido com minha farda. O tecido ajusta nos ombros, firme, familiar. Passo a mão pelo brasão no peito com orgulho.
Ser bombeiro não é só trabalho. Era um sonho. Hoje é propósito. Salvar vidas, me mantém vivo.
Olho o relógio no pulso.
Quase na hora.
Mais um segundo.
— O que você está esperando? — a loira pergunta, já de salto alto, visivelmente impaciente.
— Nada demais — respondo, pegando as chaves e conferindo novamente os ponteiros. — Vamos.
Abro a porta do apartamento.
E espero.
Um segundo.
Dois.
Três.
A fechadura ao lado gira.
Perfeito.
A porta da minha vizinha se abre, como todos os dias, no mesmo horário.
Cristal surge com sua bolsa pendurada no ombro, roupa de treino estilosa e aquele ar de quem preferia estar em qualquer outro lugar, menos dividindo o corredor comigo.
Finjo surpresa.
— Ora, bom dia, vizinha.
Ela me encara como se eu fosse um vazamento no teto.
— Que azar o meu.
Sorrio.
— Você devia agradecer. Começar o dia vendo algo bonito, costuma melhorar o humor.
— Então você deveria se olhar no espelho antes de sair, com essa sua cara amassada, você não consegue melhorar o dia de ninguém.
A loira ao meu lado se aproxima, passando a mão pelo meu peito por cima da farda.
— Vamos, querido?
Ela faz questão de falar alto. Territorial. Tenho vontade de revirar os olhos, mas concentro minha atenção nas reações de Cristal.
Ela observa a mão da loira deslizando pelo uniforme. Depois olha para a loira inteira. Avalia. Mede. Calcula.
E então sorri.
Devagar.
— A de ontem era mais bonita.
A loira enrijece. E eu tenho certeza que estou no exato lugar onde uma bomba explodirá.
— Como é?
Cristal inclina a cabeça.
— Só estou dizendo… se for para trocar toda noite, talvez seja bom manter um padrão. Já que o desempenho nem sempre compensa.
Travo o maxilar.
Ela sustenta meu olhar.
Desafiadora.
Provocadora.
Eu adoro isso.
— Tenha um excelente dia, Cristal — digo, enfatizando cada sílaba do nome dela.
Ela dá um passo à frente, sem recuar.
— Sempre tenho. Ele começa no momento em que deixo de respirar o mesmo ar que o seu.
A loira segura meu braço.
— O que ela quis dizer com desempenho?
— Nada — respondo, seco. — Vamos.
Começo a descer as escadas.
— Ela é sua ex? — a loira insiste.
— Não.
— Já ficaram?
— Não.
— Então por que ela fala assim com você?
Porque ela pode.
Porque ela não tem medo.
Porque ela é a única mulher nesse prédio, talvez em toda a cidade, que não tenta me agradar.
— Ela faz academia de artes — digo apenas. — Vive num mundo dramático.
— Você gosta dela?
Paro no meio do lance de escadas.
Viro o rosto devagar.
— Não.
A mulher continua falando sem parar. É sempre assim, às vezes me pergunto se realmente vale a pena a dor de cabeça da manhã, uma noite quente. Mas quando a noite chega, não é bem a cabeça mais inteligente que toma as decisões e eu pago o preço ao amanhecer.
Saio do prédio e sinto o sol da manhã bater na farda, a única coisa que consigo pensar é na forma como os olhos dela percorreram meu corpo, seja fardado ou não.
E na boca atrevida que vive me provocando.
Cristal pode me odiar o quanto quiser.
Eu sempre vou saber o momento exato de sair e provocá-la. Porque estranhamente, essa é a melhor parte do meu dia e quando ela pensar que eu não estarei em seu caminho, eu estarei lá, esperando por ela.