Ser um m****o da minha família é um privilégio.
Mas também é, dependendo do ângulo — e da quantidade de casais apaixonados por metro quadrado — uma forma sofisticada de tortura emocional.
É isso que penso enquanto encaro os quatro rostos iluminados na tela do meu notebook. As risadas delas atravessam meus fones de ouvido como pequenas explosões de felicidade doméstica. Estou sentada no chão da sala minúscula do meu apartamento estudantil, com as costas apoiadas no sofá e as pernas cruzadas.
À minha frente, sobre a mesinha de centro, repousa um pote enorme de pipoca. Ainda intocado. Quente. Cheiroso. Perfeito.
Ele me encara.
E eu encaro de volta.
— Cristal? — a voz de Briana estala no meu ouvido. — Você congelou ou entrou em modo contemplação artística?
Pisca. Foco. Tela.
— Oi? — limpo a garganta. — Desculpa. Me distraí.
— A gente percebeu — Aurora ri, jogando o cabelo por cima do ombro. — Estávamos quase atravessando a tela para te sacudir.
— Está tudo bem, filha? — a voz da minha mãe surge doce, envolvente, daquele tipo que cura febre só com entonação.
Eu sorrio. Automaticamente.
Na tela estão as quatro mulheres mais importantes da minha vida: minha mãe, eterna recém-casada apaixonada; minhas irmãs, Aurora e Briana, ambas vivendo histórias que fariam qualquer roteirista de comédia romântica chorar de inveja; e Eloísa, recém-chegada à família, mas já integrada como se tivesse nascido com o sobrenome Nunes bordado na alma.
Elas falam de maridos. De filhos. De ultrassons. De jantares surpresa. De flores entregues no meio da tarde.
E eu?
Eu tenho ensaios. Provas. Uma balança traiçoeira. E um vizinho que geme como se estivesse disputando um campeonato olímpico de resistência física.
— Está sim, mãe — respondo, ajeitando a postura. — Só estou cansada. Os ensaios estão puxados, as provas acumulando… e parece que a matéria nunca acaba.
— Nem só de Shakespeare vive um artista — Briana comenta dramática.
— Nem só de Shakespeare — concordo, suspirando.
Passei minha infância mergulhada em sapatilhas, partituras e roteiros. Enquanto outras meninas colecionavam figurinhas, eu colecionava personagens. Enquanto elas sonhavam com festas, eu sonhava com palcos.
Entrar na maior e mais reconhecida academia de artes do planeta foi minha meta desde os doze anos. Meu pai poderia ter aberto portas com um telefonema gentil, mas eu quis entrar por mérito. Passei noites estudando, madrugadas ensaiando até meus pés sangrarem dentro das sapatilhas.
E eu consegui.
Mas ninguém me contou que conquistar o sonho era apenas metade da batalha.
A outra metade envolvia escolhas.
E uma delas estava ali, diante de mim.
A pipoca.
Eu olho discretamente para o pote.
O cheiro de milho estourado na manteiga ainda está no ar. Ele se mistura com a conversa sobre gravidez da Aurora.
— …e quando eu ouvi o coraçãozinho bater, Ícaro começou a chorar — ela conta, emocionada.
— Claro que ele chorou — Briana rebate. — Esses homens só tem a cara de torrões.
— Eles são turrões, mas não com a gente! — Aurora retruca.
Eu sorrio.
Amo vê-las assim. Amo essa felicidade quase exagerada que parece coisa de filme. Elas encontraram amores que existem em livros, daqueles que eu mesma costumava devorar escondida debaixo das cobertas.
Enquanto eu…
Bem.
Enquanto eu achei que estava vivendo um romance promissor e acabei me enfiando num pesadelo disfarçado de sonho.
A academia me deu palco, técnica, disciplina. Mas também me deu competição. Comparações. Espelhos que parecem aumentar defeitos. Professores que medem talento em centímetros de cintura.
E a balança.
A balança virou minha inimiga silenciosa.
Meus olhos voltam para a pipoca.
Comida nunca foi apenas comida para mim.
Ela é memória.
É abraço.
É riso espalhado pela mesa de domingo.
A comida da minha mãe não era só tempero, era declaração de amor em forma de panela fumegante. O bolo de cenoura que ela fazia quando eu tinha apresentações importantes era sua forma de dizer “eu acredito em você”. O macarrão de Briana, carregado de molho e queijo, era quase um ritual de celebração.
Comida é pertencimento.
É família reunida em volta da mesa falando alto, discutindo política, rindo de histórias antigas.
Mas aqui, neste apartamento pequeno e silencioso, comida virou número.
Caloria.
Grama.
Restrição.
— Também teremos férias daqui alguns meses — minha mãe diz. — Você vem para casa. Vai descansar, comer direito…
Meu estômago reage ao simples “comer direito”.
Eu quase consigo sentir o cheiro do frango assado dela. A farofa. O arroz soltinho. A sobremesa que sempre “aparece por acaso”.
Minha boca saliva.
Eu engulo.
— Vou ver se consigo ir — respondo. — A última prova desse período é logo depois das férias. Não posso me distrair.
— Não, nem pensar — ela rebate imediatamente. — Você não vai se distrair tirando uns dias para ficar com sua família. Nós também precisamos da Cristal, não só os palcos do mundo.
Eu sorrio fraco.
— Eu sei, mãe. Mas essa prova… vai ter gente importante assistindo. É ali que posso abrir portas.
— Seu futuro já tem um zilhão de portas abertas, filha — ela diz com firmeza amorosa. — Mas a gente conversa mais perto da data.
Suspiro.
— Tudo bem.
A conversa se estende por mais alguns minutos. Risadas. Atualizações. Planos.
E eu sigo ali, com o pote intacto.
Elas percebem.
Sempre percebem.
— Cristal — Briana estreita os olhos — você fez pipoca e não está comendo?
Eu congelo.
— Ah… é… fiz só para acompanhar vocês.
— Acompanhar olhando? — Aurora provoca.
— Estou sem muita fome.
Mentira.
Meu estômago dá um pequeno salto de protesto.
Minha mãe me observa em silêncio por um segundo a mais do que o confortável.
Mas ela não insiste.
— Tá bom — ela diz suavemente. — Vai descansar, então. Você parece exausta.
Exausta.
Essa palavra parece adequada para mais coisas do que apenas ensaios.
— Eu amo vocês — digo.
— Nós amamos você mais — Aurora rebate.
— Muito mais — Briana.
— Amo infinito — minha mãe finaliza.
Encerramos a chamada.
O silêncio do apartamento cai como um cobertor pesado.
Eu fecho o notebook. Retiro os fones.
E então…
— Ahhh… isso… — um gemido atravessa a parede.
Eu fecho os olhos.
Não.
Não.
Não.
— Meu Deus… — a voz feminina ecoa, dramática o suficiente para ganhar um Oscar.
Batidas ritmadas na parede.
Minha parede.
Meu vizinho acredita, sinceramente, que o prédio inteiro precisa acompanhar sua vida íntima como se fosse um reality show.
— É sério isso? — murmuro.
Outro gemido.
Mais alto.
Eu me levanto lentamente.
Olho para a pipoca.
Olho para o lixo.
Olho para a parede.
Comida é memória.
Mas também é refúgio.
Ela me chama.
Eu caminho até o pote.
Pego um punhado.
Seguro.
Sinto a textura. O calor leve. O sal nos meus dedos.
Meu corpo reage antes da mente.
Mas então a balança surge na minha cabeça.
O número.
O medo.
A possibilidade de perder leveza nos giros, precisão nos saltos.
Eu fecho os olhos.
Comida não deveria ser culpa.
Não deveria ser cálculo.
Não deveria ser esse campo de batalha silencioso entre desejo e disciplina.
Eu coloco a pipoca de volta.
— Covarde — murmuro para mim mesma.
Um gemido mais alto explode do outro lado.
— Pelo amor de Deus! — exclamo.
Caminho até a parede e bato com os nós dos dedos.
— Amigo! — grito. — Existem hotéis para isso!
Silêncio por dois segundos.
Depois:
— Foi m*l! — a voz masculina responde, ofegante. — Já estamos terminando!
— Eu não precisava dessa informação!
Ouço uma risadinha feminina.
Eu reviro os olhos.
Volto para a sala, pego o pote decidido.
Se eu não posso controlar o vizinho, talvez eu possa controlar ao menos uma coisa.
Mas será que controlar é a palavra certa?
Sento no sofá.
Pego um grão.
Coloco na boca.
Mastigo devagar.
O sabor explode simples e honesto. Salgado. Leve. Familiar.
E, por um segundo, não é sobre calorias.
É sobre lembrança.
Sobre infância.
Sobre noites de filme com minhas irmãs espremidas no sofá.
Sobre meu pai fingindo roubar a última pipoca da tigela da minha mãe.
Eu engulo.
E algo dentro de mim amolece.
Talvez força não seja apenas dizer não.
Talvez força também seja permitir.
Do outro lado da parede, silêncio.
Finalmente.
Eu pego outro punhado.
— Que seja uma longa noite — murmuro, rindo sozinha.
Porque ser da minha família é privilégio.
E talvez, aprender a ser gentil comigo mesma também precise virar um deles.