VICENT NAVARRO: A sala estava fria. Não gelada como se espera de uma clínica, mas fria de um jeito que atravessava o terno e grudava na pele como julgamento. Eu já tinha estado em muitos lugares desconfortáveis na vida. Escritórios de advogados corruptos, reuniões com investidores gananciosos, até enterros onde ninguém chorava porque todos esperavam a herança. Mas nada se comparava ao que era estar ali, numa clínica discreta, onde ninguém sabia meu nome completo, mas ainda sim, parecia que todo mundo conhecia meu passado e meu presente. O recepcionista me chamou com formalidade neutra. Sem olhar muito nos olhos, como se soubesse que qualquer um ali carregava algum tipo de vergonha. — O senhor Vicent, correto? assenti com um movimento seco. — Aqui está a sala. O médico passará co

