Cecília Gonçalves
Atualmente
Levo um susto assim que escuto fogos serem estourados no céu indicando apenas uma coisa.
INVASÃO.
Olho para a minha mãe e já vejo todo mundo sair do bar e ir correndo para suas casas, desde que o José foi morto a quase uma semana, e o novo dono daqui pegou o comando, outros morros estão tentando invadir para tomar o controle por acharem que agora o morro está sem segurança.
O que eu acho uma grande idiotice né, o novo dono daqui comanda muito melhor do que o José comandava.
Me levanto junto com a minha mãe e fomos até as portas do bar abaixando elas, puxo com força a segunda porta vendo ela ficar emperrada, vejo alguns vapores descer correndo com suas armas.
Um cara bem alto e musculoso com uma tatuagem no pescoço vem até mim e puxa a porta para baixo que logo se fecha fazendo eu agradecer baixo.
E é esse tipo de coisa que o José nunca daria, ele só se importava com o próprio umbigo, tanto que quando ele morreu, gritaram no meio da rua comemorando, até fizeram um panelaço no meio da rua, e claro que eu participei né, eu odiava o José.
Ele nunca se importou com os moradores daqui, sempre cagava e andava para todo mundo, e não é segredo para ninguém que todo mundo odiava ele, desde as crianças aos mais velhos.
E desde que eu era criança era desse jeito, Heitor sempre me falava para ficar longe dele, e principalmente longe das bocas que ele comandava.
Heitor....Só de me lembrar o nome dele eu sentia o meu coração acelerar e apertar de saudade ao mesmo tempo, e eu confesso que eu tinha uma ponta de raiva dele, eu amava ele, e ainda amo, Heitor esteve presente em uma parte da minha vida que eu mais precisava de alguém, e ele sempre me ajudou de alguma forma.
Ele prometeu pra mim que iria voltar para me ver, e estamos aí, já tem 7 anos e nada, nenhuma visita, nenhuma p***a de visita, e eu queria saber como ele estava, se estava bem, se os seus pais adotivos eram legais, com o que eles trabalhavam.
Talvez hoje em dia ele até seja empresário, ou um advogado, ou até mesmo um policial, e pra falar a verdade as lembranças com ele foram se apagando conforme eu ia ficando mais velha, eu já não lembro mais da sua voz, do seu cheiro, mas eu me lembrava exatamente como ele me tratava, da forma que ele me olhava, e de como eu ficava quando ele me beijava.
As famosas borboletas no estômago.
Eu apenas queria saber como ele estava, contar para ele tudo o que havia acontecido desde o dia que ele foi embora.
Lorena havia me adotado depois que o Luciano morreu em uma briga na favela, ela ficou triste, e me contou tudo o que havia passado nas mãos dele, e eu tenho muito orgulho dela, passar por tudo o que ela passou e continuar de pé, não é todo mundo que consegue.
Mas ela simplesmente conseguiu, nos mudamos de casa e ela montou a sua lanchonete que ela tanto queria, hoje ela consegue um bom dinheiro com esse lugar, e ela sem dúvidas ama tudo isso, é um lugar bem arrumado e lindo, e quem olhava não diria que aquilo era apenas um bar no morro.
Nós continuamos cuidando do abrigo, mas agora era diferente, depois que a Renata casou novamente ela se mudou para o nordeste e deu o abrigo para a minha mãe, ela ainda vem ver como está tudo e sempre trás vários brinquedos e roupas para as crianças.
E como eu disse, mudou um pouco, continua sendo a mesma casa para crianças órfãs, mas agora é muito mais, nós fizemos uma reforma lá, agora também cuidamos de crianças que os pais trabalham desde de manhã até a noite.
Os pais deixam eles de manhã lá, levamos eles para a escola, buscamos e damos café da tarde, janta e colocamos para dormir caso precise, depois os pais passam para pegar eles.
E tudo isso por apenas 20 reais, e para falar a verdade um dia nós queremos fazer tudo isso de graça, mas nós precisamos do dinheiro para comprar as cestas básicas, frutas e misturas para alimentar as crianças, já que o José não dava cesta básica de graça, ele sempre cobrava uma taxa.
Tanto eu quanto minha mãe somos apaixonadas por aquele lugar, foi lá que eu cresci, sempre vamos lá, praticamente todos os dias, sempre levo roupas que não uso mais, tanto para as meninas mais velhas e nem vou falar que elas amam né ?
Aquele lugar é a minha casa e nunca que eu vou deixar ele para trás.