Cecília Gonçalves
Uma semana depois
Franzo o cenho olhando para dentro do meu quarto assim que escuto um barulho na porta de entrada. Olho para o relógio do meu pulso dando um trago no meu cigarro e vendo que era 20h enquanto perguntava se a minha mãe tinha fechado o bar mais cedo.
E eu raramente fumava, a....nicotina me acalmava quando eu me lembrava dele, depois de mais ou menos um minuto eu vejo a minha mãe entrando no meu quarto e logo vindo até mim na varanda.
— Eu já te falei para parar de fumar esse negócio Cecília, faz m*l — ela fala e eu dou um sorriso dando outro trago e soltando a fumaça e logo apago o cigarro no cinzeiro e deixando ele lá e voltando a olhar o mar
A maré poderia não ser a maior favela do Rio, ou até mesmo a que não tem a maior qualidade de vida, mas com toda certeza ela sempre teve a vista mais bonita, seja lá de onde você estava olhando, do escadão, do topo do morro, ou de alguma laje, ver a favela e o mar era tão relaxante, o que sujava antes eram as pessoas nojentas daqui, o cárcere que todo mundo vivia.
Mas era tão.....maravilhosa a vista.
— Eu sinto saudades dele — falei ainda olhando para o mar e sentindo a minha mãe me olhar, eu nunca falava dele, nunca falava sobre os meus sentimentos, eu preferia sempre guardar tudo pra mim mesmo do que incomodar as pessoas com os meus problemas — Eu não lembro tanto dele, mas eu lembro do jeito que ele me tratava, e eu lembro do jeito que eu fiquei quando ele foi embora e.....não voltou — suspirei cruzando os dedos e apoiando os cotovelos na mureta da varanda — Mas eu sinto saudades dele, eu não falo tanto, mas eu sei que a senhora se preocupa comigo, eu sinto falta dele mas eu espero que ele esteja feliz, com...uma família, casado e sei... lá — Sinto um aperto no meu peito só de pensar na possibilidade dele estar casado
Eu não falei da boca pra fora, eu espero que ele esteja feliz com alguém, mas só de pensar na possibilidade o meu coração fica pequeno.
— E se ele voltar ? Se estiver...sei lá, solteiro ? — ela falou e eu dou risada desviando meu olhar dela para o mar
— A questão não é ele estar solteiro, é ele estar feliz sem mim, poxa ele disse que iria voltar, mas depois de 7 anos, 7 anos e ele nunca pisou o pé aqui pra saber se eu estava bem ou não, e mesmo se ele voltasse não iria ser a mesma coisa, foram 7 anos esperando ele — falei olhando pra ela e suspirando no final e volto a olhar para a mar
Poxa foram 7 anos cara.
Vocês sabem o que é esperar 7 anos por uma pessoa que claramente não vai voltar e que claramente não deve mais lembrar de você ?
Dói.
— Mas ele ainda pode voltar
— Ele não vai mãe — suspiro rindo de leve — Vou ir lá no campinho tá bom ? Tem um monte de gente na rua, pelo menos não tem toque de recolher — falei vendo minha mãe assentir, dou um beijo na testa dela saindo da varanda pegando o maço de cigarro e o bic na mesinha do meu quarto e sai de casa
Descendo as escadas, saio pela porta lateral do bar.
Depois que uns 5 minutos eu chego no campinho, algumas crianças brincavam enquanto seus pais as olhavam, tinha crianças brincando no escorregador e no balanço. E nunca tinha crianças aqui de noite, tanto pelo toque de recolher, quanto pelo medo do José, ele não gostava de crianças e sempre olhava para elas com aquele olhar malicioso e nojento dele.
Suspirei indo até o banco livre e pego outro cigarro sentindo minhas mãos tremerem.
Sabe crise de ansiedade ? É uma merda né ? As pessoas que tem sente a sua garganta fechar e seus olhos encherem de lágrimas ao mesmo tempo que as mãos tremem, e você sente o seu estômago embrulhar.
Acendo o cigarro ainda sentindo a minha mão tremer e eu fungo dando um trago sentindo meus olhos se encherem de lágrimas mas eu as seguro. Pego meu celular no cós do meu short e vejo que já era 20:40.
— Cê tá bem ?
Me assusto deixando o celular cair no chão e olho para trás vendo o Zeus se sentar ao meu lado e pegar o meu celular limpando com a mão e me dar em seguida, olho para o meu celular vendo se tinha alguma coisa quebrada e coloco ele no cós do meu short novamente.
— Desculpa — falou me olhando
— Está tudo bem — falei dando um tapinha no meu cigarro fazendo as cinzas caírem e dou outro trago soltando a fumaça, sentindo a minha mão tremer enquanto eu batia o pé no chão inquieta
— Não sabia que você fumava — olhei para ele vendo ele olhar para a minha mão tremendo no meu colo enquanto eu apertava minhas unhas na palma da minha mão e batia os pés no chão
— É raro — ele riu de leve e olho para ele que olhava pros meus olhos fazendo eu desviar o olhar
E eu já falei que o olhar dele é bem profundo?
— Não devia fumar, faz m*l
— Você está falando igual a minha mãe — Dei um sorriso baixo batendo os meus pés no chão e senti ele segurar a minha mão fazendo eu olhar para ele e depois tirar a minha mão da mão dele — Desculpa mas....eu nem te conheço — falei dando o último trago no cigarro jogando fora vendo ele rir
— Eu sou o Zeus e você é a Cecília, já nos conhecemos — Ri olhando pra ele — Confia em mim — falou olhando para os meus olhos e eu suspiro sentindo ele pegar a minha mão novamente e apertar de leve fazendo um arrepio passar pelo meu corpo, o mesmo arrepio daquele dia que eu fui pegar as cestas básicas na boca.