Cecília Gonçalves
Três dias depois
Ligação on
Heloísa: É menina, ela disse que a mulher descobriu que o cara estava com ela, e então foi lá em angra, mas a cara dela está cheia de marcas de unha — arregalo os olhos enquanto dobrava algumas roupas que estava em cima da minha cama, eram roupas que havia chegado de São Paulo, roupas que eu tinha comprado para a loja, e eu sempre abria todas para ver se não tinha nenhum defeito ou mancha.
E se tivesse eu mandava de volta e ainda trocava por outra peça e enquanto isso a Heloísa me falava sobre a Jaqueline, que tinha voltado para o morro hoje.
— Eu falei que iria dar confusão esse negócio — falo olhando outra peça e depois dobro
Heloísa: Ela chegou hoje de manhã, disse que o cara colocou ela pra correr, e que foi atrás da mulher, e nem deu dinheiro para ela voltar
— Mentira — falo parando de dobrar as roupas processando a informação
Imagina...
Por mais que eu não seja uma das grandes amigas da Jaqueline, eu posso imaginar o jeito que ela está se sentindo, Heloísa disse que ela parecia apaixonada...Uma coisa bem difícil de acontecer com a Jaqueline né, mas vai saber.
Heloísa: Verdade, deu até dó
— Eu imagino o jeito que ela deve ter se sentido, ela passou a semana com o cara e depois ele correu para a mulher dele
Heloísa: Mas já estava na cara, era a mulher dele, ele tem dois filhos com ela, mas eu acho que ele pelo menos poderia dar o dinheiro pra ela vir embora — concordo com a cabeça sem ela ver
— Você conversou com ela ?
Heloísa: Eu tentei né, mais ela veio toda ignorante então deixei de lado, quer ser ignorante seja sozinha — dou risada da forma que ela falou, ficamos conversando por mais algum tempo até ela desligar já que iria buscar o Arthur na escola
Ligação off
Solto um suspiro pegando o meu maço de cigarro e o esqueiro e vou para a varanda, acendo olhando para o mar E depois ficando na ponta dos pés olhando para baixo, para o bar da minha mãe que estava aberto.
Tinha algumas pessoas lá brincando, bebendo, comendo e dançando sertanejo que estava tocando na TV. Dou um trago e volto a olhar pro mar soltando a fumaça devagar e sinto como se alguém estivesse me olhando e olho para o outro lado da rua vendo o Zeus e o tio dele, os dois seguravam uma latinha de cerveja.
Dou um sorriso de leve pra ele que retribui sorrindo grande, fazendo as minhas bochechas ficarem vermelhas, vejo ele fazer um sinal com a mão para eu ir lá e faço uma careta negando e dando outro trago no cigarro.
Vejo que ele continua me olhando e eu suspiro depois de alguns segundos fazendo um sinal com a mão pra ele vir, ele fica parado alguns segundos lá e da um aperto na mão do tio dele e vem em direção ao bar fazendo o meu coração acelerar.
Até por que eu não achei que ele fosse vir.
Escuto ele bater na porta e eu dou uma risada baixa saindo do meu quarto correndo e indo abrir a porta.
— Não achei que você fosse vir — falo vendo ele sorrir e eu dou espaço para ele entrar
— E por que não ? — dou de ombros rindo e vejo ele observar a casa
— A minha mãe falou alguma coisa ? Fica a vontade
— Apenas perguntou se eu ia te ver, a sua casa é bonita
— Obrigada, pode vir — falo andando em direção ao meu quarto escutando ele me seguir, dou outro trago no cigarro entrando no quarto vendo ele olhar tudo e eu vou para a varanda novamente vendo ele vir junto
— Senta aí — Falo apontando para a outra cadeira e ele senta me olhando e depois desvia o olhar para o mar
— A vista é linda — eu assenti vendo ele me olhar e eu tombo a cabeça na cadeira dando o último trago no cigarro vendo ele sorrir e eu corar
— Esse é o meu lugar preferido da casa é tão...calmo — falo colocando o cigarro no cinzeiro vendo ele ainda me olhar sem falar nada
Ficamos alguns minutos assim até ele voltar a falar.
— Me conta mais sobre você — ele fala e eu dou risada
— Sobre mim ? Não tem muita coisa para contar sobre mim — dou risada por saber que era mentira, eu não gostava de contar sobre a minha vida com ninguém
— Eu quero saber de tudo — ele fala se arrumando na cadeira e eu suspiro voltando a olhar para o mar
Eu confiava nele ?
Me perguntei mentalmente.
— Eu nasci aqui no morro, a mulher que me deu a luz era viciada, não me lembro dela graças a deus...Mas eu lembro do dia que ela morreu, ela tinha saído cedo e não voltou, fiquei trancada em casa por alguns dias até a Lorena me encontrar e me levar para o abrigo, aquela que a gente toma conta agora, fiquei lá por uns anos até o ex marido da Lorena morrer, então ela me adotou — falo fazendo um resumo ainda olhando para o mar
— Nossa que história — olho pra ele e sorriu de leve me lembrando do Heitor mas logo tento tirar ele da minha mente
— E você ? Me conta sua história — vejo ele abrir a boca e depois fechar olhando para o mar, mas depois volta a me olhar
— Não é interessante, eu nasci e cresci na maré, a minha mãe morreu quando eu era pequeno, então fui morar com a minha avó por algumas coisas que aconteceu na época, depois ela acabou morrendo e meu pai me pegou, com 16 anos eu entrei para o crime e aqui estou eu — ele suspira ainda me olhando e eu dou um sorriso leve
Imagino a dor de perder as pessoas que te criaram. Eu não sei o que é isso, minha mãe era uma drogada e eu nem me lembro dela, mas muitas pessoas devem saber, imagina a dor.
— Sinto muito pela sua avó e sua mãe
— Tá tranquilo, faz um tempo que isso aconteceu — ele fala me olhando