O jantar foi silencioso.
Pesado.
Insuportavelmente longo.
Nenhum dos dois falou mais do que o necessário. Os talheres batiam no prato com um som seco que parecia alto demais naquele ambiente carregado, e, mesmo sem palavras, a tensão entre eles continuava ali… viva, pulsando, como se qualquer movimento errado pudesse explodir tudo.
Mariana sentia o olhar dele em alguns momentos, mesmo quando ele fingia estar focado na comida, e isso a irritava ainda mais. Porque não era só um olhar.
Era análise.
Era controle.
Era algo que ela não sabia mais como lidar.
Assim que terminou, ela simplesmente se levantou.
Sem avisar.
Sem olhar pra ele.
Sem pedir nada.
Virou as costas e saiu.
E não voltou mais.
—
O quarto parecia o único lugar onde ela ainda tinha algum controle.
Mariana se jogou na cama, ainda com a respiração meio pesada, encarando o teto por longos minutos. Tudo nela ainda estava agitado — o corpo, a mente, as emoções — e, pela primeira vez desde que voltou, ela começou a questionar de verdade se tinha feito a escolha certa.
Porque aquilo não era normal.
Nada daquilo era.
E, pior… não parecia que ia melhorar.
Sem perceber, acabou dormindo ali mesmo, exausta demais pra continuar brigando com os próprios pensamentos.
—
Na manhã seguinte, o sol já iluminava o quarto quando a porta se abriu.
Sem aviso.
Sem cuidado.
Mariana ainda estava dormindo, parcialmente coberta pelo lençol, o cabelo espalhado pelo travesseiro, o corpo relaxado… até o barulho leve de passos no quarto fazer algo dentro dela despertar.
Ela abriu os olhos de repente.
E travou.
Um homem estava ali.
Dentro do quarto.
Parado.
Olhando.
O susto veio na mesma hora. Ela puxou o lençol até o corpo, sentando rápido na cama.
— Quem é você?! — a voz saiu mais alta, nervosa.
O homem também pareceu surpreso por um segundo, mas logo a expressão mudou.
Mudou pra algo que fez o estômago dela revirar.
— Ué… — ele deu um meio sorriso, olhando ela de cima a baixo sem nenhum pudor — achei que ainda não tinha ninguém usando esse quarto.
O olhar dele não saía dela.
E não era um olhar normal.
Era pesado.
Invadindo.
Desconfortável.
Mariana sentiu o corpo ficar tenso na hora.
— Sai daqui — disse, firme, mesmo sentindo o coração disparar. — Agora.
Mas ele não saiu.
Ao contrário.
Deu um passo pra dentro.
— Calma… — disse, a voz arrastada, com um tom que deixava claro que ele estava gostando da situação — não precisa se assustar assim… não todo dia que a gente encontra uma surpresa dessas logo cedo.
O olhar dele desceu de novo.
Lento.
Sem vergonha nenhuma.
Mariana apertou o lençol com mais força.
— Eu falei pra sair! — agora a voz veio mais alta, mais nervosa.
Ele ignorou.
Mais um passo.
— Relaxa… não vou fazer nada que você não queira… — disse, mas o tom dizia exatamente o contrário.
Foi aí que o medo virou raiva.
— SOME DO MEU QUARTO AGORA!
Antes que ele respondesse—
Uma mão surgiu do nada, puxando o homem com força pela gola da camisa.
Tudo aconteceu rápido.
Brusco.
Violento.
Leonardo.
Ele jogou o homem contra a parede com tanta força que o impacto fez um barulho seco no quarto.
— Você perdeu a p***a da noção?! — a voz dele saiu baixa, mas carregada de uma fúria real, perigosa.
O homem tentou se soltar, surpreso.
— Ei, calma aí, chefe—
— CALA A BOCA! — Leonardo avançou de novo, segurando ele com mais força. — Quem te deu autorização pra entrar aqui?!
— Eu… eu só vim ver o encanamento, me falaram que o quarto tava vazio—
— E você achou que podia entrar sem bater?! Sem avisar?! — a voz dele subiu um pouco agora, mas ainda controlada de um jeito assustador.
— Eu não sabia que tinha alguém aqui—
— E mesmo se soubesse… você acha que isso te dá o direito de ficar olhando pra ela daquele jeito?
Silêncio.
Pesado.
O homem não respondeu.
Nem precisava.
Leonardo viu.
Tudo.
E isso foi o suficiente.
— Você deu muita sorte de eu ter chegado antes de você fazer alguma coisa que não teria volta — disse ele, mais baixo agora, mas muito pior. — Porque se tivesse passado mais um segundo…
Ele não terminou.
Não precisou.
O olhar já dizia tudo.
Dois seguranças apareceram na porta.
— Tira ele daqui — ordenou Leonardo, sem nem olhar.
Eles puxaram o homem rapidamente, que ainda tentou se explicar.
— Foi um m*l-entendido, eu não fiz nada—
— Some da minha frente antes que eu mude de ideia — cortou Leonardo, seco.
E então ele foi levado.
A porta se fechou.
O silêncio voltou.
Mas completamente diferente.
Pesado.
Carregado.
Mariana ainda estava na cama, o corpo tenso, o lençol apertado contra si.
— Obrigada… — disse ela, a voz mais baixa agora, ainda afetada.
Leonardo se virou lentamente pra ela.
E o olhar dele…
Não era o que ela esperava.
Não tinha alívio.
Não tinha preocupação.
Era frio.
Duro.
— Se você estivesse vestida direito… isso não teria acontecido.
O impacto foi imediato.
— O quê?
Ela piscou, sem acreditar.
— Você me ouviu — disse ele, seco. — Esse tipo de situação não acontece do nada.
Aquilo virou uma chave dentro dela.
Na hora.
Mariana soltou o lençol, levantando da cama, ignorando o próprio estado.
— Sério isso? — a voz saiu carregada de incredulidade. — Um cara entra no MEU quarto sem permissão, me olha como se eu fosse um objeto… e a culpa é minha?
— Eu não disse isso—
— Disse SIM! — cortou ela, avançando um passo. — Pra você, tudo é culpa minha!
Os olhos dele endureceram.
— Eu estou dizendo que você precisa entender onde está—
— EU SEI MUITO BEM ONDE EU ESTOU! — explodiu ela. — E eu tô cansada, Léo… cansada de você agir como se tudo fosse sobre controle, regra, limite… como se eu tivesse que viver pisando em ovo pra não irritar você!
O silêncio veio pesado.
Mas ela não parou.
— Você não era assim — disse, mais baixo agora, mas muito mais intenso. — Você não era essa pessoa fria, controladora, insuportável!
Ele travou o maxilar.
— Eu tenho 28 anos, Mariana — respondeu, firme. — É óbvio que eu não sou mais o mesmo. E nunca vou ser.
— E daí? — rebateu ela na hora. — A tendência é evoluir, não regredir!
Aquilo acertou.
Direto.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
Talvez dois.
E foi o suficiente pra mostrar que… aquilo atingiu mais do que ela esperava.
Mas ele não respondeu.
Apenas respirou fundo, desviando o olhar.
— Eu tenho coisas pra resolver — disse por fim, seco de novo. — Fica no quarto até terminarem aqui.
E saiu.
Sem olhar pra trás.
Sem dizer mais nada.
—
Mariana ficou parada ali.
O coração ainda acelerado.
Mas agora…
Não era medo.
Era outra coisa.
Mais forte.
Mais perigosa.
Porque, pela primeira vez…
Ela não se sentia protegida por ele.
E sim…
Confrontando ele.
E isso…
Ia mudar tudo.