A noite caiu silenciosa sobre a mansão Costa, mas, para Mariana, o silêncio não significava paz.
Ela estava parada diante da janela do quarto, observando a escuridão do jardim lá fora, enquanto seus dedos brincavam distraidamente com a barra delicada do baby doll. O tecido leve em tom rosa bebê deslizava suavemente sobre sua pele, quase inexistente, e os detalhes em renda desenhavam curvas que ela ainda não estava acostumada a enxergar como… problema.
Mas agora eram.
Seu cabelo ainda estava levemente úmido, solto sobre os ombros, espalhando um perfume suave pelo ambiente. Tudo nela carregava uma sensação de cuidado, de leveza… de feminilidade.
E, ainda assim, sua mente estava longe disso.
— Eu devia ter ficado longe… — murmurou, mais para si mesma do que qualquer outra coisa.
A imagem do dia inteiro voltava em fragmentos.
O banheiro.
A queda.
O olhar dele.
Principalmente o olhar dele.
Mariana fechou os olhos por um instante, soltando o ar lentamente, tentando afastar aquela sensação estranha que se instalava dentro dela, algo entre desconforto… e outra coisa que ela não queria nomear.
Voltar para aquela casa parecia certo quando decidiu.
Agora… não parecia mais tão simples.
Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.
Seca.
Direta.
O coração dela acelerou antes mesmo que ela percebesse.
Ela sabia quem era.
Sempre sabia.
Mariana se virou lentamente, caminhando até a porta, tentando manter o controle da própria expressão antes de abrir.
Quando girou a maçaneta—
Ele estava ali.
Leonardo.
O olhar dele desceu no mesmo instante.
Sem disfarçar.
Sem pressa.
Percorrendo cada detalhe.
Do cabelo solto…
ao tecido leve…
até as pernas expostas.
E parando.
Tempo demais.
Mariana sentiu o corpo reagir automaticamente, um leve arrepio subindo pela espinha, mas não recuou.
Não demonstrou.
Apenas sustentou o olhar.
Firme.
— O que foi? — perguntou, controlada.
Mas ele demorou alguns segundos para responder.
Como se estivesse… reorganizando o próprio pensamento.
— Jantar — disse por fim, a voz mais baixa do que o normal. — Já está pronto.
O silêncio entre eles se estendeu.
Pesado.
Carregado de algo que nenhum dos dois nomeava.
Mariana inclinou levemente a cabeça.
— Não estou com fome.
A resposta veio simples.
Direta.
Mas era mais do que isso.
Era resistência.
Leonardo a observou por alguns segundos, os olhos ainda intensos demais.
— Não foi um convite.
Aquilo a irritou imediatamente.
— Eu percebi — respondeu ela, cruzando levemente os braços, o que só fez o tecido subir um pouco mais nas coxas. — E continua sendo um não.
Silêncio.
Ele não gostou.
Ficou claro.
— Desce — disse ele, agora mais firme. — Você precisa comer.
Mariana soltou uma pequena risada sem humor.
— Eu não sou uma criança, Léo. Não preciso que você diga quando eu tenho que comer.
Os olhos dele escureceram levemente.
Mas ele não aumentou o tom.
— Não estou dizendo. Estou mandando.
A tensão aumentou instantaneamente.
Mariana sentiu o peito subir e descer mais rápido, mas manteve o olhar firme.
— E eu estou dizendo que não vou — rebateu, sem hesitar.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Mais perigoso.
Leonardo deu um pequeno passo à frente, diminuindo ainda mais o espaço entre eles, e o ar pareceu mudar junto.
— Não testa minha paciência hoje, Mariana — disse ele, a voz baixa, controlada, mas carregada de aviso.
Ela não recuou.
Não dessa vez.
— Então para de agir como se eu fosse obrigada a obedecer — retrucou.
Os dois se encararam.
Intensamente.
Até que ele soltou um suspiro curto, como se estivesse tentando manter o controle de algo.
— Cinco minutos — disse ele por fim. — Você desce.
Mariana estreitou os olhos.
— Já falei que—
— E de preferência… — interrompeu ele, o olhar descendo novamente, sem qualquer tentativa de disfarçar — vestida.
Aquilo foi o suficiente.
A irritação veio imediata.
Quente.
— Sério? — ela deu um passo à frente, agora mais próxima dele. — Isso te incomoda?
Erro.
Ela percebeu no mesmo instante.
Porque o olhar dele mudou.
De verdade.
Mais escuro.
Mais pesado.
Mais honesto do que deveria.
— Não brinca com isso — disse ele, baixo.
Mas não soou como repreensão.
Soou como aviso.
E isso…
Isso mexeu com algo dentro dela.
Mas Mariana não recuou.
Ao contrário.
Inclinou levemente a cabeça.
— Eu vou descer assim mesmo — disse, firme. — Se isso é um problema pra você… não deveria ter batido na minha porta.
Silêncio.
Pesado.
Perigoso.
Por um segundo, pareceu que ele ia dizer algo.
Ou fazer algo.
Mas não fez.
Apenas sustentou o olhar dela por mais tempo do que deveria.
E então—
— Cinco minutos — repetiu, mais baixo.
E saiu.
Sem esperar resposta.
Sem olhar para trás.
—
Mariana fechou a porta lentamente.
O coração ainda acelerado.
Mas dessa vez…
Não era só raiva.
Ela ficou parada por alguns segundos, encarando a madeira da porta, tentando entender por que aquilo parecia mais intenso do que deveria.
Mais perigoso.
Mais… pessoal.
— Ele não manda em mim — murmurou.
Mas a forma como ele a olhou dizia outra coisa.
E isso a incomodava mais do que qualquer ordem.
Mariana respirou fundo, passou a mão pelos cabelos e, sem pensar muito mais, virou-se e saiu do quarto.
Do jeito que estava.
Sem trocar.
Sem ajustar.
Sem ceder.
—
Quando entrou na sala de jantar…
Ele já estava lá.
Sentado à mesa.
Esperando.
Os olhos dele subiram lentamente quando percebeu a presença dela.
E pararam.
Direto nela.
Sem disfarce.
Sem controle.
Percorrendo cada detalhe do corpo dela outra vez.
Agora com mais tempo.
Mais atenção.
Mais… intenção.
Mariana sentiu o calor subir pelo corpo, mas manteve a postura firme, caminhando até a mesa como se aquilo não tivesse efeito algum.
Como se não tivesse percebido.
Mas percebeu.
Cada segundo.
Cada olhar.
Cada respiração mais pesada do que o normal.
Ela puxou a cadeira e se sentou, cruzando as pernas com calma.
Provocando sem admitir.
— Pronto — disse, olhando diretamente para ele. — Estou aqui.
Silêncio.
Léo não respondeu imediatamente.
Apenas a observou.
Longamente.
Como se estivesse tentando decidir alguma coisa.
Ou se controlar.
— Eu avisei — disse ele por fim, a voz mais baixa, mais rouca.
Mariana sustentou o olhar.
— E eu disse que viria assim.
O clima entre os dois ficou ainda mais carregado.
Mais perigoso.
Mais instável.
E, naquele momento…
Nenhum dos dois parecia disposto a recuar.
Nem mesmo perceber que estavam, pouco a pouco…
Passando de todos os limites.