Ponto de ruptura

1126 Palavras
O silêncio depois daquela frase não foi imediato. Ele veio aos poucos. Pesado. Denso. Como se o ar entre eles tivesse ficado mais espesso, difícil de atravessar. Mariana não se mexeu. Não piscou. Mas sentiu. Sentiu o peso do olhar dele, a proximidade, a forma como o espaço entre os dois parecia menor do que realmente era. O coração batia forte demais no peito, e ela odiava o fato de não saber se aquilo era raiva… ou outra coisa. — Então me obriga — ela repetiu, mais baixo dessa vez, mas sem recuar. Foi um erro. Ela percebeu no instante em que os olhos dele mudaram. Não foi só intensidade. Foi decisão. Leonardo deu mais um passo à frente, agora tão perto que ela conseguia sentir o calor do corpo dele, a respiração mais pesada, o controle por um fio. — Você não tem ideia do que tá pedindo — disse ele, a voz rouca, controlada demais pra quem claramente estava perdendo o controle. Mariana levantou o queixo. Desafiando. — Então não faz. Silêncio. O tipo de silêncio que antecede algo grande. Algo irreversível. Por um segundo — um único segundo — pareceu que ele ia ceder. Que ia recuar, como sempre fez. Como sempre tentou fazer. Mas não dessa vez. A mão dele subiu rápido. Não agressiva. Mas firme. Segurando o pulso dela. O impacto foi imediato. O corpo de Mariana reagiu antes da mente. Um arrepio subiu pela espinha, e o coração disparou ainda mais forte, agora sem qualquer controle. — Léo— — Para — cortou ele, baixo. Não era grosso. Mas era definitivo. Os dedos dele apertaram levemente o pulso dela, não machucando, mas deixando claro que ela não iria simplesmente sair dali. — Você quer testar até onde eu vou? — perguntou ele, os olhos fixos nela. — Quer mesmo? Mariana engoliu em seco. Mas não puxou o braço. Não se afastou. — Eu quero que você pare de agir como se tivesse direito sobre mim. Aquilo atravessou. Ela viu. Mas ele não soltou. Ao contrário. Aproximou ainda mais. Agora não existia espaço entre eles. — Eu não ajo como se tivesse — disse ele, baixo. — Eu tenho. O impacto foi imediato. O ar sumiu. — Você não tem — respondeu ela, firme, mesmo com o corpo traindo cada reação. Silêncio. E então, lentamente… Ele soltou o pulso dela. Mas não se afastou. Ficou ali. Perto demais. O suficiente pra bagunçar tudo. — Então para de agir como se não soubesse o que acontece quando você me desafia — disse ele, a voz mais controlada agora, mas ainda carregada. Aquilo fez algo dentro dela se contrair. Porque ela sabia. De alguma forma… ela sabia. E isso era exatamente o problema. Mariana deu um passo pra trás. Só um. Mas já foi o suficiente pra quebrar aquele contato sufocante. — Isso não é normal — disse ela, passando a mão pelos cabelos, tentando reorganizar os próprios pensamentos. — Nada disso é normal. Leonardo soltou um riso baixo, sem humor. — Você ainda tá presa nessa ideia de normalidade? — E você já esqueceu completamente o que isso significa? Silêncio. Ele não respondeu. E aquilo… respondeu por ele. Mariana respirou fundo, sentindo o peito apertar. — Eu não vou viver assim — disse, mais calma agora, mas firme. — Não vou viver sendo controlada, vigiada… decidida por você. Ele a observou por alguns segundos. Sem interromper. Sem cortar. — Você não entende — disse ele por fim, mais baixo. — Então explica — retrucou ela, cansada já. — Porque você nunca explica nada. Silêncio. Mais longo dessa vez. Leonardo passou a mão pelo rosto, claramente lutando contra algo interno. — Esse lugar… — começou ele, devagar — não é seguro pra você. — Eu já entendi isso — disse ela. — Você já deixou bem claro. — Não — cortou ele. — Você não entendeu. O tom mudou. Mais sério. Mais real. — Você viu o que eu fiz — continuou ele, os olhos fixos nela. — Você viu quem eu sou agora. O clima mudou. Na hora. A lembrança do assassinato veio como um choque frio. Mariana travou. — E ainda assim quer sair sozinha? Circular como se fosse uma pessoa comum? — continuou ele. — Você acha que isso não tem consequência? Ela abriu a boca. Mas não respondeu. Porque, pela primeira vez… Ela não tinha uma resposta pronta. — Você não é invisível — disse ele. — E agora… muito menos. O coração dela acelerou. — O que isso quer dizer? Silêncio. Ele hesitou. E isso já dizia muito. — Quer dizer que tem gente que observa — respondeu ele por fim. — Que percebe. Que conecta. O estômago dela revirou. — Conecta o quê? Ele não respondeu imediatamente. Mas quando respondeu… Foi direto. — Você a mim. O impacto foi diferente dessa vez. Mais profundo. Mais real. — E isso é perigoso — completou. Mariana ficou em silêncio. Tentando processar. — Então você não tá me prendendo aqui por mim — disse ela, lentamente. — Tá fazendo isso por você. Os olhos dele escureceram. — Eu tô fazendo isso porque é o único jeito de te manter segura. — Do seu mundo — completou ela. Silêncio. Ele não negou. Mas também não confirmou. — Eu não pedi pra fazer parte disso — disse ela, mais baixa. — Mas agora faz. Simples. Cru. Irreversível. Aquilo caiu sobre ela como um peso. De verdade. E, pela primeira vez desde que voltou… Mariana sentiu medo. Não dele. Mas da situação. Da realidade. Do que aquilo significava. Ela desviou o olhar, abraçando o próprio corpo, como se tentasse se proteger de algo invisível. — Eu só queria viver minha vida… — murmurou. A voz saiu mais fraca. Mais vulnerável. E aquilo… Aquilo atingiu ele. Leonardo desviou o olhar por um segundo, passando a mão pelos cabelos, claramente incomodado. — Eu sei. Baixo. Quase inaudível. Mas ela ouviu. E levantou o olhar. Surpresa. Mas ele já tinha se fechado de novo. — Por isso você vai ficar — disse, firme outra vez. — Pelo menos até eu resolver algumas coisas. Mariana franziu a testa. — Resolver o quê? Silêncio. — Léo… — Não insiste — cortou ele, seco. Aquilo irritou. De novo. — Você quer que eu confie em você, mas não me fala nada! — Porque quanto menos você souber, melhor. — Pra quem?! Silêncio. Pesado. E então ele disse: — Pra você continuar viva. O ar sumiu. De novo. Mas dessa vez… Foi diferente. Porque agora… Aquilo não parecia mais controle. Parecia aviso. E, pela primeira vez… Mariana começou a perceber que talvez estivesse muito mais envolvida do que imaginava. E sair… Talvez não fosse mais uma opção tão simples assim.
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