Entre o medo e o desejo

1068 Palavras
Mariana não respondeu de imediato depois da última frase dele. O silêncio que se instalou entre os dois não era mais só carregado de tensão — agora havia algo diferente ali, algo mais denso, quase palpável, como se a realidade tivesse finalmente ultrapassado qualquer discussão que eles vinham tendo até então. Ela ficou parada, observando Leonardo com mais atenção, tentando entender até onde aquilo tudo era controle… e até onde era, de fato, um alerta. Ela queria rebater, queria dizer que ele estava exagerando, que aquilo era mais uma forma dele tentar mantê-la presa ali dentro. Mas, pela primeira vez, as palavras não vieram com facilidade. O que ele disse fazia sentido demais para ser ignorado completamente, e isso a incomodou profundamente. — Você está me dizendo que eu não posso nem sair de casa agora? — perguntou, a voz mais baixa, mas ainda firme. Leonardo a observou por alguns segundos antes de responder. Ele parecia escolher cada palavra com cuidado, o que não era comum. — Estou dizendo que não é seguro — respondeu por fim. — Pelo menos não agora. Mariana cruzou os braços, desviando o olhar por um instante enquanto tentava organizar os próprios pensamentos. Aquilo era demais para absorver de uma vez só. Ela tinha voltado achando que o maior problema seria lidar com o comportamento controlador dele, mas agora estava começando a perceber que existia algo muito maior acontecendo por trás. — E o que exatamente mudou? — insistiu ela, voltando a encará-lo. — Porque você sempre esteve nesse mundo… e eu nunca precisei viver trancada por causa disso. Leonardo soltou o ar lentamente, passando a mão pelos cabelos, claramente incomodado. — Você não estava envolvida antes — disse ele. — Agora está. A resposta veio direta, sem rodeios, e isso só aumentou a inquietação dentro dela. — Eu não escolhi isso — retrucou Mariana, dando um passo à frente. — Eu não escolhi ver nada, não escolhi me meter em nada. Isso simplesmente aconteceu. — E é exatamente por isso que você precisa tomar cuidado — rebateu ele, agora com mais firmeza. — Nesse mundo, não importa o que você escolheu ou não. Importa o que você sabe… e quem pode usar isso. Aquilo fez o estômago dela revirar de verdade dessa vez. Não era mais uma discussão sobre comportamento ou limites. Era algo concreto. Real. Perigoso. Mariana passou a mão pelos braços, como se sentisse um frio repentino, mesmo que o ambiente estivesse normal. A sensação de vulnerabilidade começou a se instalar, e ela odiou isso. — Então eu sou o quê agora? Um problema pra você? — perguntou, com um leve amargor na voz. Leonardo a encarou com intensidade, e por um segundo pareceu que ia responder de forma fria, como vinha fazendo. Mas não foi isso que aconteceu. — Você é a coisa mais fácil de atingir — disse ele, mais baixo, e dessa vez não havia dureza no tom. Havia algo mais próximo de preocupação, mesmo que contido. Aquilo a pegou desprevenida. Mariana sustentou o olhar dele, tentando encontrar ali alguma mentira, alguma manipulação. Mas não encontrou. E isso só tornou tudo mais confuso. — Então me protege direito — disse ela, impulsiva, sem pensar muito. — Não jogando culpa em mim. O silêncio voltou, mas dessa vez diferente. Menos agressivo, mais… carregado de algo não resolvido. Leonardo deu um pequeno passo na direção dela, mas parou antes de diminuir completamente a distância. Ele parecia medir cada movimento, como se qualquer aproximação a mais pudesse ultrapassar um limite que ele mesmo vinha tentando manter. — Eu estou protegendo — respondeu ele, a voz controlada. — Do jeito que posso. Mariana soltou uma risada baixa, sem humor. — Se isso é p******o, eu prefiro correr o risco. Aquilo fez o olhar dele escurecer novamente, mas não da mesma forma de antes. Era menos raiva e mais frustração. — Você não entende — disse ele. — Então para de repetir isso e me faz entender de verdade — rebateu ela, já cansada daquela frase. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, claramente em conflito interno. Mariana percebeu aquilo, e foi talvez a primeira vez desde que voltou que viu Leonardo hesitar de verdade. Não era o homem frio e decidido o tempo todo. Existia algo ali que ele não queria — ou não podia — dizer. — Tem coisas que você não precisa saber — disse ele por fim. — E isso ajuda em quê? — insistiu ela. — Em me deixar mais tranquila? Porque não está funcionando. Leonardo fechou os olhos por um instante, como se tentasse conter alguma reação, e quando abriu novamente, parecia mais rígido. — Ajuda em manter você fora disso — respondeu. — Mas eu já estou dentro! — ela rebateu na hora, a voz subindo um pouco. — Você mesmo acabou de dizer isso! Aquilo o fez travar por um segundo, mas logo ele recuperou a postura. — Então faz a sua parte e não piora a situação — disse ele, firme. Mariana o encarou, incrédula. — Ficar trancada aqui é fazer minha parte? — Por enquanto, é. O tom final dele foi o suficiente para deixar claro que aquela conversa não ia avançar muito mais. Mariana desviou o olhar, sentindo uma mistura estranha de frustração e inquietação crescer dentro dela. Ela queria continuar discutindo, queria arrancar respostas, queria quebrar aquela barreira que ele colocava entre eles. Mas, ao mesmo tempo, uma parte dela começava a entender que talvez não fosse tão simples. Ela respirou fundo, tentando se acalmar, e passou a mão pelos cabelos antes de dar alguns passos para trás. — Isso não vai funcionar por muito tempo — disse ela, mais baixa agora, mas ainda firme. — Eu não vou aceitar isso pra sempre. Leonardo a observou em silêncio, e dessa vez não tentou interromper. — Eu sei — respondeu ele. A resposta foi tão inesperada que ela voltou a olhar para ele imediatamente. — Então resolve logo o que você tem que resolver — continuou ela. — Porque eu não vou deixar de viver minha vida. Ele assentiu de leve, mas não disse mais nada. E, naquele momento, Mariana percebeu que, pela primeira vez, aquela não era apenas uma briga entre eles. Era o início de algo maior, algo que envolvia muito mais do que sentimentos m*l resolvidos. E, pior… algo que nenhum dos dois parecia realmente preparado para enfrentar.
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