Perigo e refúgio

924 Palavras
Os dias passaram arrastados. Mariana manteve distância. De tudo. Principalmente de Miguel. Mas ele não desistiu. Naquela tarde, ele a esperou na saída do expediente. Não foi impulsivo como antes, nem leve. Havia algo diferente nele agora… mais sério. — A gente precisa conversar — disse, direto. Mariana suspirou, já esperando por aquilo. — Miguel… — Não — cortou ele, mais firme. — Eu mereço entender. O que eu fiz de errado? Ela fechou os olhos por um segundo. Não queria machucar ele. Mas já estava machucando. — Você não fez nada — respondeu, mais baixo. — Esse é o problema. Ele franziu a testa. — Então por que tá me tratando assim? Ela hesitou. Mas decidiu ser sincera. — Porque ficar perto de mim… é perigoso. O silêncio caiu. — Perigoso? — repetiu ele, incrédulo. — Você não faz ideia — disse ela. Ele deu um passo mais perto. — Eu não ligo. — Mas eu ligo — rebateu ela. — E eu não quero que você se machuque por minha causa. Ele sustentou o olhar dela. — Eu assumo esse risco. Aquilo mexeu. Mas não o suficiente. — Miguel… — Eu gosto de você, Mariana — disse ele, sem rodeio. — Gosto da sua companhia. E não vou simplesmente aceitar isso sem entender. Ela respirou fundo. Cansada. Dividida. E, pela primeira vez… Cedeu. Não totalmente. Mas o suficiente. — Tá… — disse ela. Ele esperou. — Hoje à noite — continuou ela — a gente sai. O olhar dele mudou. — Sério? — Sério. Um pequeno sorriso surgiu. — Então… deixa eu te buscar? Ela hesitou. Sabia. Sabia exatamente quem aquilo ia atingir. Mas, naquele momento… Ela só queria viver. — Pode. — Leonardo não estava em casa. E, por algum motivo… Isso facilitou. Mariana se arrumou devagar. Sem pressa. Como se estivesse redescobrindo aquela parte dela. O vestido preto colado ao corpo marcava cada curva, terminando na metade das coxas. O cabelo solto caía pelos ombros, e a maquiagem leve destacava ainda mais os olhos. Ela se olhou no espelho. E, por um instante… Se reconheceu. — A noite começou leve. O bar era animado, música alta, luzes baixas, pessoas rindo, dançando, vivendo. E Mariana entrou nesse ritmo. Dançou. Riu. Bebeu. Se soltou. Miguel acompanhou tudo, visivelmente encantado, mas também… mais ousado do que antes. A bebida ajudou nisso. E foi aí que tudo começou a sair do controle. — Já no fim da noite, do lado de fora, o ar frio contrastava com o calor do ambiente. Mariana tentou se despedir. Mas Miguel não deixou. Ele segurou o braço dela. — Espera… Ela virou, um pouco alterada, mas ainda consciente. — Miguel, eu— Ele não deixou terminar. Puxou ela mais perto. — Eu fiz tudo certo — disse ele, a voz carregada. — Esperei, respeitei… acho que pelo menos um beijo eu mereço. O tom não era mais leve. Era cobrança. Mariana se afastou na hora. — Não, Miguel. Mas ele insistiu. A mão apertou mais o braço dela. — Para… — disse ela, tentando se soltar. — Só um beijo— — EU DISSE NÃO! Ela se debateu. E então— Uma mão puxou Miguel com força. Brusco. Violento. Um segurança. — Acabou — disse ele, firme. Miguel tentou reagir, mas foi contido rapidamente. Mariana ficou sem entender. Confusa. Até olhar para o outro lado da rua. E ver. Leonardo. Encostado no capô do carro. Braços cruzados. Observando. Como se já estivesse ali há um tempo. Como se tivesse visto tudo. O coração dela disparou. Mas, dessa vez… Não foi só raiva. Ela respirou fundo. E atravessou a rua. Parando na frente dele. — Vai dizer que avisou? — perguntou, ainda ofegante. Leonardo balançou a cabeça, negando. — Não. Ela franziu levemente a testa. — Então o quê? Ele descruzou os braços, olhando direto nos olhos dela. — Eu sempre vou estar aqui pra te proteger — disse, firme. — Independente de qualquer coisa. Aquilo atingiu. Fundo. Sem defesa. Mariana engoliu em seco. Porque, pela primeira vez… Aquilo não soou como controle. Soou como verdade. Ele abriu a porta do carro pra ela. Sem dizer mais nada. Ela hesitou. Mas entrou. — O caminho foi silencioso. Mas não desconfortável. Era… diferente. — Eu tô com fome — disse ela, de repente. Leonardo soltou um pequeno suspiro. — Já dispensei a cozinheira. Ela pensou por um segundo. E então sorriu de leve. — Então vamos comer lanche de barraquinha. Ele olhou pra ela. — Sério? — Igual quando a gente era criança — insistiu ela. Ele soltou um leve riso pelo nariz. — Faz muito tempo… — Justamente — respondeu ela. O silêncio veio. Mas, dessa vez… Mais leve. — Tá — disse ele. — Minutos depois, estavam sentados em um banco de praça. Com hambúrgueres simples nas mãos. Como anos atrás. — Você sempre pedia o maior — comentou ele. — E você sempre roubava metade — retrucou ela. Ele riu. De verdade. — Era estratégia. — Era a***o — corrigiu ela, sorrindo. Os dois riram. E, aos poucos… As lembranças vieram. Pedro levando os dois. As brincadeiras. As risadas. A leveza. — Ele gostava desses momentos — disse Mariana, mais baixo. Leonardo assentiu. — Era quando ele conseguia ser… só pai. O silêncio veio. Mas não pesado. Cheio de memória. — Eu sinto falta disso — disse ela. Ele olhou pra ela. — Eu também. E, ali… Naquela praça simples… Com um lanche qualquer… Eles se encontraram de novo. Sem máfia. Sem controle. Sem conflito. Só… Eles.
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