Os dias passaram arrastados.
Mariana manteve distância.
De tudo.
Principalmente de Miguel.
Mas ele não desistiu.
Naquela tarde, ele a esperou na saída do expediente. Não foi impulsivo como antes, nem leve. Havia algo diferente nele agora… mais sério.
— A gente precisa conversar — disse, direto.
Mariana suspirou, já esperando por aquilo.
— Miguel…
— Não — cortou ele, mais firme. — Eu mereço entender. O que eu fiz de errado?
Ela fechou os olhos por um segundo.
Não queria machucar ele.
Mas já estava machucando.
— Você não fez nada — respondeu, mais baixo. — Esse é o problema.
Ele franziu a testa.
— Então por que tá me tratando assim?
Ela hesitou.
Mas decidiu ser sincera.
— Porque ficar perto de mim… é perigoso.
O silêncio caiu.
— Perigoso? — repetiu ele, incrédulo.
— Você não faz ideia — disse ela.
Ele deu um passo mais perto.
— Eu não ligo.
— Mas eu ligo — rebateu ela. — E eu não quero que você se machuque por minha causa.
Ele sustentou o olhar dela.
— Eu assumo esse risco.
Aquilo mexeu.
Mas não o suficiente.
— Miguel…
— Eu gosto de você, Mariana — disse ele, sem rodeio. — Gosto da sua companhia. E não vou simplesmente aceitar isso sem entender.
Ela respirou fundo.
Cansada.
Dividida.
E, pela primeira vez…
Cedeu.
Não totalmente.
Mas o suficiente.
— Tá… — disse ela.
Ele esperou.
— Hoje à noite — continuou ela — a gente sai.
O olhar dele mudou.
— Sério?
— Sério.
Um pequeno sorriso surgiu.
— Então… deixa eu te buscar?
Ela hesitou.
Sabia.
Sabia exatamente quem aquilo ia atingir.
Mas, naquele momento…
Ela só queria viver.
— Pode.
—
Leonardo não estava em casa.
E, por algum motivo…
Isso facilitou.
Mariana se arrumou devagar.
Sem pressa.
Como se estivesse redescobrindo aquela parte dela.
O vestido preto colado ao corpo marcava cada curva, terminando na metade das coxas. O cabelo solto caía pelos ombros, e a maquiagem leve destacava ainda mais os olhos.
Ela se olhou no espelho.
E, por um instante…
Se reconheceu.
—
A noite começou leve.
O bar era animado, música alta, luzes baixas, pessoas rindo, dançando, vivendo.
E Mariana entrou nesse ritmo.
Dançou.
Riu.
Bebeu.
Se soltou.
Miguel acompanhou tudo, visivelmente encantado, mas também… mais ousado do que antes.
A bebida ajudou nisso.
E foi aí que tudo começou a sair do controle.
—
Já no fim da noite, do lado de fora, o ar frio contrastava com o calor do ambiente.
Mariana tentou se despedir.
Mas Miguel não deixou.
Ele segurou o braço dela.
— Espera…
Ela virou, um pouco alterada, mas ainda consciente.
— Miguel, eu—
Ele não deixou terminar.
Puxou ela mais perto.
— Eu fiz tudo certo — disse ele, a voz carregada. — Esperei, respeitei… acho que pelo menos um beijo eu mereço.
O tom não era mais leve.
Era cobrança.
Mariana se afastou na hora.
— Não, Miguel.
Mas ele insistiu.
A mão apertou mais o braço dela.
— Para… — disse ela, tentando se soltar.
— Só um beijo—
— EU DISSE NÃO!
Ela se debateu.
E então—
Uma mão puxou Miguel com força.
Brusco.
Violento.
Um segurança.
— Acabou — disse ele, firme.
Miguel tentou reagir, mas foi contido rapidamente.
Mariana ficou sem entender.
Confusa.
Até olhar para o outro lado da rua.
E ver.
Leonardo.
Encostado no capô do carro.
Braços cruzados.
Observando.
Como se já estivesse ali há um tempo.
Como se tivesse visto tudo.
O coração dela disparou.
Mas, dessa vez…
Não foi só raiva.
Ela respirou fundo.
E atravessou a rua.
Parando na frente dele.
— Vai dizer que avisou? — perguntou, ainda ofegante.
Leonardo balançou a cabeça, negando.
— Não.
Ela franziu levemente a testa.
— Então o quê?
Ele descruzou os braços, olhando direto nos olhos dela.
— Eu sempre vou estar aqui pra te proteger — disse, firme. — Independente de qualquer coisa.
Aquilo atingiu.
Fundo.
Sem defesa.
Mariana engoliu em seco.
Porque, pela primeira vez…
Aquilo não soou como controle.
Soou como verdade.
Ele abriu a porta do carro pra ela.
Sem dizer mais nada.
Ela hesitou.
Mas entrou.
—
O caminho foi silencioso.
Mas não desconfortável.
Era… diferente.
— Eu tô com fome — disse ela, de repente.
Leonardo soltou um pequeno suspiro.
— Já dispensei a cozinheira.
Ela pensou por um segundo.
E então sorriu de leve.
— Então vamos comer lanche de barraquinha.
Ele olhou pra ela.
— Sério?
— Igual quando a gente era criança — insistiu ela.
Ele soltou um leve riso pelo nariz.
— Faz muito tempo…
— Justamente — respondeu ela.
O silêncio veio.
Mas, dessa vez…
Mais leve.
— Tá — disse ele.
—
Minutos depois, estavam sentados em um banco de praça.
Com hambúrgueres simples nas mãos.
Como anos atrás.
— Você sempre pedia o maior — comentou ele.
— E você sempre roubava metade — retrucou ela.
Ele riu.
De verdade.
— Era estratégia.
— Era a***o — corrigiu ela, sorrindo.
Os dois riram.
E, aos poucos…
As lembranças vieram.
Pedro levando os dois.
As brincadeiras.
As risadas.
A leveza.
— Ele gostava desses momentos — disse Mariana, mais baixo.
Leonardo assentiu.
— Era quando ele conseguia ser… só pai.
O silêncio veio.
Mas não pesado.
Cheio de memória.
— Eu sinto falta disso — disse ela.
Ele olhou pra ela.
— Eu também.
E, ali…
Naquela praça simples…
Com um lanche qualquer…
Eles se encontraram de novo.
Sem máfia.
Sem controle.
Sem conflito.
Só…
Eles.