Assim que entraram no carro, Mariana não colocou o cinto.
Também não ficou em silêncio.
Nem esperou.
Ela virou o corpo na direção dele, com um brilho diferente nos olhos.
— Deixa eu dirigir.
Leonardo virou lentamente o rosto pra ela, como se não tivesse ouvido direito.
— O quê?
— O carro — disse ela, apontando pro volante. — Deixa eu dirigir.
Ele soltou uma risada baixa, desacreditada.
— Você tá falando sério?
— Tô.
— Você tem carteira, pelo menos?
Ela hesitou por meio segundo.
— Não… — respondeu, sem vergonha nenhuma. — Mas eu sei dirigir.
Ele passou a mão pelo rosto, ainda rindo, como se estivesse avaliando o nível do risco.
— Você é maluca.
Ela deu de ombros, abrindo um sorriso.
— Um pouco.
O silêncio durou dois segundos.
Três.
Até que ele abriu a porta.
— Vai.
Ela arregalou levemente os olhos.
— Sério?
— Se bater meu carro, eu te mato — respondeu ele, tranquilo.
Isso foi o suficiente pra ela sair do banco do passageiro quase pulando e dar a volta no carro.
Entrou no lugar do motorista com um sorriso que não cabia no rosto.
Ligou o carro.
Ajustou o banco.
E aumentou o volume da música sem pedir permissão.
Leonardo encostou no banco, observando.
E, pela primeira vez naquela noite…
Ele não tentou controlar.
Mariana arrancou com o carro com uma confiança que surpreendeu até ele. O vento entrava pelas janelas abertas, bagunçando o cabelo dela, que voava livre, sem esforço.
Ela cantava baixo, batucava no volante, completamente entregue ao momento.
Livre.
Leve.
Viva.
Leonardo a observava em silêncio.
Os olhos passando pelos detalhes que ele conhecia… mas que, naquele momento, pareciam novos.
A forma como ela sorria sem pensar.
A forma como o vento desenhava o rosto dela.
A beleza natural que não precisava de nada.
E aquilo…
Aquilo desmontava ele.
Porque não era só atração.
Nunca foi.
Era ela.
Sempre foi.
Mariana percebeu o olhar dele depois de alguns minutos.
— O quê? — perguntou, sorrindo de canto.
Ele desviou o olhar por um segundo.
— Nada.
— Tá me olhando estranho.
— Tô pensando se foi uma boa ideia deixar você dirigir — respondeu ele.
Ela riu.
— Relaxa.
E acelerou um pouco mais.
— Mariana—
— Confia.
Ele não respondeu.
Mas, no fundo…
Ele já confiava.
—
Quando chegaram em casa, o silêncio voltou.
Mas não era o mesmo de antes.
Era mais denso.
Mais próximo.
Mais perigoso.
Ela desligou o carro devagar, ainda com um pequeno sorriso no rosto.
— Viu? — disse ela. — Não matei ninguém.
Ele soltou um leve riso pelo nariz.
— Por pouco.
Ela virou o rosto na direção dele.
E o sorriso diminuiu.
Virou outra coisa.
Mais lenta.
Mais intensa.
— Obrigada… — disse ela, mais baixo.
Ele sustentou o olhar.
— Pelo quê?
— Por não tentar controlar tudo… hoje.
Aquilo ficou no ar.
Ele não respondeu na hora.
Só olhou.
De verdade.
— Nem sempre eu consigo — disse ele, por fim.
— Eu sei.
O silêncio veio.
Mas não afastou.
Aproximou.
Eles saíram do carro.
Entraram na casa.
Sem pressa.
Sem palavras desnecessárias.
—
No meio do caminho até a escada, Mariana parou.
Leonardo também.
E, dessa vez…
Nenhum dos dois fingiu que não estava acontecendo.
Ela deu um passo na direção dele.
— Você complica tudo — murmurou.
Ele soltou um leve riso.
— Você também não facilita.
— Talvez a gente não saiba fazer isso fácil.
Ele se aproximou mais.
Agora não havia espaço.
— Talvez não.
O olhar dele caiu nos lábios dela.
E ficou.
Foi o suficiente.
O beijo veio intenso, imediato, como se tivesse sido segurado por tempo demais. As mãos dele foram firmes na cintura dela, puxando o corpo contra o dele, enquanto Mariana respondia na mesma intensidade, sem medo, sem hesitação.
O ar ficou quente rápido.
Pesado.
Carregado de tudo que eles vinham evitando.
Ela se afastou só o suficiente pra respirar, os olhos ainda presos nos dele.
— Vai dizer que isso é um erro de novo? — provocou.
Ele passou o polegar pelo rosto dela, devagar.
— Não hoje.
E dessa vez…
Ele não recuou.
A puxou de volta, com mais urgência, conduzindo ela até o quarto sem quebrar o contato, como se qualquer distância fosse insuportável.
A porta se fechou.
E o resto do mundo deixou de existir.
—
Aquela noite não teve dúvidas.
Nem freios.
Nem espaço pra negação.
O toque dele era firme, dominante… mas diferente. Havia cuidado ali, uma atenção silenciosa que ele não oferecia a ninguém.
E Mariana sentia.
Cada gesto.
Cada aproximação.
Cada respiração.
Era mais do que desejo.
Era conexão.
Era tudo o que eles tinham tentado evitar… vindo à tona de uma vez só.
— Você ainda é mandão — murmurou ela em meio a um sorriso.
Ele aproximou o rosto, a voz baixa.
— E você ainda me desafia.
— Sempre.
E isso só intensificou tudo.
A noite passou sem pressa.
Sem interrupções.
Sem arrependimento.
Porque, ali…
Eles não eram passado.
Nem erro.
Nem limite.
Eram só dois corpos… e duas vontades que nunca souberam se ignorar.
—
Mais tarde, já deitados, o silêncio voltou.
Mas agora…
Era tranquilo.
Mariana estava próxima, relaxada, o rosto sereno.
Leonardo a observava em silêncio.
Sabendo que aquilo não resolvia tudo.
Mas, ainda assim…
Naquela noite…
Ele deixou de lado o controle.
E só sentiu.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Isso bastou.